22ª edição do MADA se traduz em ‘Música Alimento da Alma’

Depois de dois anos de espera em razão da pandemia, o Festival MADA – Música Alimento da Alma  –  finalmente chegou a sua vigésima segunda edição, no último final de semana, e claro – iremos te contar tudo.

Depois da espera, o MADA, festival essencialmente potiguar, recebeu grandes nomes já consolidados ou ainda em construção da música brasileira no Arena das Dunas, em Natal, e posso te garantir que todos só entraram em campo pra meter golaço e fazer a plateia ir à loucura.

Mayra Andrade foi um dos destaques do Festival MADA. Foto: Rogério Vital

O campo de futebol construído para a receber a Copa do Mundo de 2014 se transformou em palco que trouxe grandes craques da música. Contando com artistas já conhecidos na cena do Hip-Hop como Emicida, Djonga, Don L, Gloria Groove, Afrocidade e muito mais, também tivemos o gostinho de ver subir ao palco artistas potiguares que prometem muito e vale a pena ficar de olho como Cazasuja e AmémOre.

Apesar de estar em peso no festival, o rap não necessariamente era a vertente principal do festival, então público também pode contar com atrações nacionais como Linn da Quebrada, Afrocidade, Marina Sena, Mayra Andrade, Baiana System, entre muitos outros; e grandes atrações potiguares como Potyguara Bardo e Luisa e os Alquimistas que vale frisar o fato de serem a primeira atração da terra (Natal) a fechar um dos palcos do festival com uma apresentação inédita do seu novo disco.

Don L transformou seu show em um grande bate cabeça com reportório do último disco “Roteiro pra Aïnouz, Vol. 2”. Foto: Rogério Vital

‘lutar! criar! poder popular!’

A cena musical sempre foi um espaço fértil para manifestações políticas, mas tão perto de eleições tão emblemáticas como as que vivemos nesse momento, se calar nesse momento era fora de cogitação, então quase como se estivesse no roteiro, grande parte dos artistas se posicionou sobre o que fazer no próximo domingo. Tivemos o tradicional Fogo nos racistas de Djonga; o ‘’Vocês sabem o que fazer domingo’’ um pouco mais ameno de Emicida, mas claro; o menina de vermelho, que dispensa explicação de Gloria Groove; e vários outros outros posicionamentos, mas Don L principalmente, que levantou um coro energizando a todos enquanto trazia as palavras de ordem ‘’lutar! criar! poder popular!’’.

Apoia quem tá do teu lado

Se Tasha&Tracie cantam em sua música que antes os incentivos eram poucos, mas que agora que estão virando querem colar com ‘nós’. Djonga durante o seu show fez uma fala certeira e emocionante ao reencontrar na plateia um amigo que o apoiou desde o início da carreira, ao falar que é importante apoiar quem está do seu lado, ‘porque é fácil aplaudir quem vem de fora e já virou, difícil é investir naquele teu parceiro da tua cidade, do teu bairro…mais fácil ainda é falar que sempre esteve lá quando não estava’’. E bem, o recado foi dado.

Linn da Quebrada faz show história no Festival MADA. Foto: Rogério Vital

A que berra, a que borra e a que burla

Linn da Quebrada foi um dos nomes mais esperados da noite e fechou o último dia de festival com chave de ouro. Com sua energia surreal, a cantora, brincou, cantou e representou a todos em sua primeira apresentação em terras natalenses.

Um pouco antes do seu show pude bater um papo cabeça com a artista para saber seus próximos trabalhos, o mercado musical e as expectativas da noite, e claro, Lina Pereira respondeu tudo do seu jeitinho, e você pode conferir agora:

Brasa: Em seu último álbum “Trava Línguas”, você nos mostra quem você é no sistema. O que podemos esperar para o próximo?

‘’Que eu me torne outra. Que tudo que eu já disse caia ao chão, por terra. Que as palavras sirvam de semente para que outras verdades possam surgir, e que eu possa, mais uma vez, ter morrido e renascido novamente.’’

Brasa: Estamos vivenciando uma época em que os grandes festivais estão realizando line up mais diversos, com mais mulheres, mais artistas pretos. Ao que se dá esse movimento? Ele vai continuar?

“Eu tenho tido uma questão com a palavra diversidade. Porque ela serve para mesurar, mensurar e cercear os outros, e outres, e outras que não são homens. Como se os homens não fossem e fizessem parte da diversidade, porque uma diversidade ela é construída por tudo que difere, e difere de quem? Então, porque se a gente está falando de uma diversidade, a gente está colocando algo como normal, e como o centro disso. E eu não tenho mais vontade de continuar com o meu corpo constituindo uma diversidade, porque continua institucionalizando ‘Eles’ como centro de todas as questões. Sinto que precisamos descentralizar a música, precisamos entender que cada vez que a gente constrói um outro espaço assim, há exclusão. Porque o sistema é excludente, o sistema como nós vivemos, como nós o construímos e como nós, com o nosso trabalho, continuamos a elaborar, ele também produz miséria e eu não quero mais trabalhar com miséria, eu trabalho com prosperidade.’’

Brasa: O que você acha que nos trouxe no momento atual? Onde temos pessoas que antes eram excluídas ocupando esses espaços?

‘’Pressão. e eu sinto que também o mercado viu aí um momento de lucrar a partir daquilo que a gente tem trazido. Porque nós sempre trabalhamos com excelência, mas de alguma forma, isso foi afastado da lente, mantido como obsceno, fora da cena. Só que com uma pressão popular, do público que agora, com as redes sociais, a gente tem tido a oportunidade de fazer com que o nosso trabalho seja visto em outros lugares, ouvido por outras pessoas, de maneira independente, que não tenha uma relação direta com gravadoras ou qualquer outra coisa, a gente conseguiu construir relações com o público, ser ouvida, ser vistas e construir ainda que precariamente um trabalho excelente.

E então com isso eles viram a oportunidade. Tem se tido a oportunidade de lucrar a partir das nossas questões. Por isso mesmo, eu sinto que é preciso abandonar também a representatividade – abandonar de uma certa forma – porque ela é imensamente importante, foi imensamente importante para que os movimentos de representatividade conseguissem, ali trazer luz e sombra pra pras nossas vidas, para aquilo que a gente tem vivido. Mas ainda assim, é uma possibilidade que nós estejamos em um lugar que dê lucro para uma estrutura que mantém os pilares do mundo como a gente conhece. E eu sinto que talvez seja necessário caminhar para o fim do mundo como nós o conhecemos.’’

E Lina, em suas palavras finais, sem expectativas – mas no melhor sentido possível que a falta de expectativas pode trazer- se deixou ser preenchida por inteiro pela energia do público e foi grata pelo momento vivido, assim como todos nós que estivemos lá.

Criolo tomando o estádio

Mayra Andrade é uma grande revelação deste ano. A cantora cabo-verdiana que se apresentou recentemente com Crioulo no Rock in Rio, mistura ritmos tradicionais cabo-verdianos com Pop, RnB, música francesa e bebe de referências brasileiras. Trouxe um pouco da língua crioula de Cabo Verde para o estádio com muita delicadeza e sensibilidade. E ela falou um pouco sobre essa sensação:

‘’Eu acho que isso é magia de cada um, mas também de uma cultura. Acho que a música cabo-verdiana tem essa particularidade. Acho que bastante até com a música brasileira nesse aspecto. Acho que são bem similares nesse efeito de conseguirem penetrar o coração e os sentimentos das pessoas. A música tem isso, né?! ‘’

Foto: Rogério Vital

Em um rápido resumo do que foi viver esses dois dias em meio a incontáveis polgas, danças, gritos de ordem, abraços, cores, corres e muita, muita música, acho que nessa vigésima segunda edição o nome do festival entrega o que promete, a música alimentando a alma.

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