5 djs sets pra começar o ano bem

Por: Brenda Vidal

Adeus ano velho, feliz ano novOPA! Calma lá, 2022! Não sei se é um cacoete de número par, que por natureza é sempre divisível por 2, mas esse tal de novo ano chegou com os 2 pés na porta, ao passo que também fez a gente se lembrar de 2020, nosso eterno primeiro ano de pandemia. Parece até mesmo que breves reflexões ou pautas não se sustentam sem ressalvas. Por aqui, estávamos otimistas ao nos despedirmos de 2021 com diversos eventos culturais previstos para seguirem acontecendo presencialmente, e o desejo de fazer uma curadoria musical para embalar bem nosso primeiro mês de 2022 soava enquanto um gancho inabalável.

Pois bem, o CoronaVírus não cansa de dar rasteira em nossos planejamentos. Mas nem sempre a certeza é sinônimo de garantia. A expansão da Ômicron – variante que se desenvolveu no fértil campo aberto pela miopia do imperialismo e colonialismo global, ao achar que seria “tranquilo” deixar diversos cantos do mundo, em especial um continente gigantesco como África, sem acesso à uma cobertura vacinal digna seria “de boa” – tem nos deixado apreensivos, ansiosos, angustiados e com um gosto de retrocesso sanitário na boca. Mas, por teimosia afrodiaspórica minha, e apoio da Brasa Mag, afrodiaspórica por essência, apresentamos a seguir cinco DJs sets incríveis para você começar seu ano bem. As coisas não estão tão calmas como imaginávamos, porém, é fato: ainda estamos no começo. Não queremos cair no leviano papo de autoajuda, entretanto, a crença no poder do Hip Hop e seus pilares estéticos em renovar seu ânimo segue grande por aqui. Que tal dar uma chance? Desça e confira.

5. Honey Dijon (EUA) para Boiler Room x Sugar Mountain

Quando eu crescer, gostaria de ter apenas um pouquinho da elegância, da graça e da classe de Honey Dijon nesse set para o Boiler Room em 2018. A gata há tempos incendeia as pistas carregando em si muitas outras vozes. Ativista em prol dos direitos LGBTQIA+, ela nasceu em Chicago, berço da House music – principal gênero de sua produção musical -, mas há tempos mora entre Nova York – ponto de partida do Hip Hop – e Berlim, na Alemanha, país que figura entre os principais players mundiais quando o assunto é a cena eletrônica. Dijon ocupa com prestígio não só os espaços musicais, como também os principais circuitos de Moda e Arte. A cada discotecagem, ela é uma lembrança viva das origens do Hip Hop e da House Music, enquanto uma mulher negra e trans.

4. Kampire (UGA) para Boiler Room x Nyege Nyege Festival

A primeira vez que assisti a esse set da Kampire (pronuncia-se Kampí-reh), fiquei totalmente “uau” das ideias, e digo que sigo saindo com essa sensação sempre que volto a escutá-lo. Sabe quando a gente prova um molho cheio de especiarias e seu paladar parece que fica aceso? A presente seleção  tem esse mesmo poder, só que vai além da escuta, fazendo você querer dançar mesmo que esteja sentado na cadeira trabalhando. Kampire costura a história da diáspora, recuperando a força da consciência corporal por meio de seu House de matriz africana, que vai da kizomba ao funk, se apropriando de tudo que tem força para descolonizar nossas ideias sobre o que é mexer o corpo.

3. Julia Reis (Taboão da Serra – SP) para Brasil Grime Show

Não dá pra não valorizar os talentos da casa, né? Afinal, a mesmíssima Julia Reis, CEO e idealizadora da Brasa Mag, também mantém em paralelo sua carreira como DJ, ou melhor, DJulia Reis. Com presença forte no circuito paulistano, nossa braseira combina um set que é puro fogo – afinal, como boa sagitariana, ela é regida por esse elemento e leva o ímpeto de fervor por onde passa. Nessa aparição, feita especialmente para o canal do Brasil Grime Show, ela combina a ousadia na inserção de reverbs, loops e demais recursos de sua machine para moldar à sua forma a conexão entre funk, rap e grime, do mainstream ao underground. Assim como um salve a iniciativas como Boiler Room, esse também é um aceno de valorização ao Brasil Grime Show, que, entre tantas coisas, se coloca enquanto uma plataforma de visibilidade para os trabalhos de beatmakers/DJs/produtores musicais/seletores do Brasil a fora.

2. Deekapz (Hortolândia / Campinas – SP) para Coala.VRTL ™ AFTER SETS

Foi ao sabor dos ventos do noroeste do estado de São Paulo que Paulo e Matheus iniciaram sua trajetória musical até chegar na refinada assinatura do que hoje sabemos ser o Deekapz. A dupla absorveu a inspiração dos beatmakers da ensolarada L.A., adicionou temperos afro-brasileiros de tempos diversos através do soul, do funk, do rap e do pagode. O que é o mash up deles de “Meu Amor Virtual”, do Sampa Crew com “Tadow” de FKJ & Masego? Genial! Além da ótima seleção de samples, este set para a edição do COALA.VRTL em 2020 é um ótimo jeito de começar a ouvir a dupla. Indico fortemente dar o play direto na TV de casa e improvisar uma festinha na sala mesmo.

1. Ana Lira (Recife – PE) feat Libra (Olinda – PE), Suelen Mesmo (Porto Alegre – RS) e Marta Supernova (Rio de Janeiro – RJ), para Chamanoar em Rinse France x NSNS X CIRCA

Nosso primeiro lugar é múltiplo por si só. Em um projeto especial de residência artística feito pela Rinse France em parceria com a revista NSNS, o CHAMA, iniciativa que se autodenomina enquanto “experiência dedicada à poética da diáspora por meio de expressões sonoras, celebrativas, sensoriais e escritas”, reunião os talentos de Ana, Suelen, Libra e Marta em um encontro marcada pela sequência de DJs sets que, em seu desenho geral, também têm algo a dizer. A própria seleção das convidadas demonstra um cuidado com a pluralidade para além do recorte racial, mas também de gênero, sexualidade e regiões do Brasil, potencializando, assim, as múltiplas narrativas que um corpo negro brasileiro pode experimentar. Destaque para o encadeamento entre set e entrevista; talvez demande mais da sua atenção, mas o formato valerá à pena. Cada comentário enriquece a experiência, mostrando a sofisticação da curadoria sonora, um fator que diferencia quem se coloca enquanto DJ apenas por manipular equipamentos ou soltar um play e quem enxerga o ser DJ enquanto um seletor de sonoridades e discursos.

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