A intensidade incendiária nas emoções de Tyler the Creator

Para quem acompanha a carreira de Tyler Okonma, o ímpeto nunca foi novidade. Em cada obra há uma brasa particular, em que o artista deposita o calor do seu lirismo em uma persona bem desenhada para representá-lo. Tyler é caloroso. Desde a época mais underground, em que o horrorcore recheava a era Bastard, o jovem Wolf Haley intensificava todas as extremidades de sua obra. Isso explica Yonkers. O single é o pé na porta de Goblin, um dos primeiros trabalhos de Tyler the Creator. Todo mundo quis — e ainda quer — saber quem era o cara que comeu uma barata num clipe em 2011. 

Aos 20 anos, Tyler the Creator entregou seu primeiro álbum de estúdio, Goblin, produzido quase que inteiramente por ele mesmo, com apoio do coletivo Odd Future. Nomes como Frank Ocean e Hodgy Beats estavam envolvidos nos feats de algumas faixas. Na época, a cena do hip hop alternativo estadunidense seguia uma face experimental, que permitia a dualidade de flows e personalidades. Tal fato é percebido no icônico clipe de Oldie, do Odd Future. Muita coisa acontecendo e muita gente fazendo coisas acontecerem.

O coletivo explorava não só o Rap, mas todo o contexto de styling, audiovisual e produção do trabalho. Tudo tinha um refinamento impressionante, que é referência até hoje, e influenciou boa parte dos trabalhos solo de Tyler.

Foto: Terry Richardson 

Okonma se revela o mais sem jeito dos românticos

A cada dois anos, Tyler the Creator revela um novo trabalho, bom o suficiente para te fazer falar dele até surgir algo novo. Em 2013, Tyler a.k.a Gap Tooth ainda era bastante transgressivo em suas melodias, mas revelou sensibilidade num lirismo sobre ausência paterna e explosões emocionais. Explosões que talvez o público não fosse esperar, afinal, “putz, isso ainda é horrorcore!”. Bem, e daí?! É nesta mistura que encontramos Wolf, o segundo álbum do artista, com um dos singles mais marcantes de sua carreira, IFHY (I Fucking Hate You), que alcançou um nível a mais na entrega de seus trabalhos. 

Para contar a história que ele queria em IFHY, por exemplo, foi preciso fazer uma viagem completa. Foi preciso fazer o público mergulhar em um conteúdo audiovisual jamais visto, metade “vibe indescritível”, e outra metade “que porra é essa?!”. A obra te dá a sensação de um sonho meio esquisito depois de fumar um baseado pensando em problemas amorosos. 

Okonma se revela o mais sem jeito dos românticos, ao se colocar como um boneco de plástico no clipe de IFHY. Na paleta de cores, tonalidades leves e lúdicas, que suavizam o choque que é ver aquela figura plastificada. Sentado, meio cabisbaixo, com as mãos no joelho, o jovem Tyler começa a contar sobre “emoções jogadas no ar”, com tantos pensamentos agitados e desordenados. E ao longo da narrativa, entramos na história de um personagem emocionalmente descontrolado, que não sabe lidar com o amor e nem com as quebras de suas expectativas. 

Foto: Reprodução 

É uma sensação embaralhada de sentimentos que pegam fogo

O amarelo é uma cor recorrente no clipe de IFHY, assim como em outras obras. Está presente em diversos detalhes: das bordas das janelas e portas até as flores da mesa. Uma tonalidade quente, mas ainda sim sutil, ajuda a transmitir essa sensação embaralhada de sentimentos, em uma confusão mental em que não se sabe muito para onde ir. Se vai ou se fica. Se ama ou odeia. Ao longo dos versos, a intensidade dessas emoções — que já borbulhavam em fogo médio — tomaram maiores proporções. Em um cômodo com as paredes todas amarelas, IFHY chega em seu ápice em uma lírica de descontrole. Tyler também não sabe o que está acontecendo. Ele se encontra perdidamente apaixonado, e sem saber o que se faz com tanto sentimento. É no banheiro da casinha de brinquedo que Wolf Haley mostra-se vulnerável, sensível e inconstante. Seu humor se perde no calor das estações. E é fogo mesmo. Por fim, ao assumir a paixão que sente, Tyler the Creator sente seu rosto se queimar. Uma chama rápida e intensa do isqueiro, assim como descrevem a paixão em alguns lugares. Entretanto, não é um incêndio nem nada — ainda.

O criador que se permitiu sentir à flor da pele

Na vivência de homens pretos, o lado emocional não é visto como algo relevante entre eles. Parece que a vida não lhes dá espaço para sentir nada. Para trazer a emocionalidade à tona, demora. Porém, depois de Wolf, não foi necessário muito tempo para Tyler desabrochar cada vez mais o sentimentalismo agressivo e atrapalhado. No álbum seguinte, Cherry Bomb (2015), Okonma irradia o amarelo em suas obras, com enormes girassóis no quintal e borboletas voando. São nessas lacunas que o artista deixa vazar quais são suas referências e o que o constrói para o futuro. Flower Boy (2017) é o puro suco da primavera, do céu alaranjado, de abelhinhas visitando as mesmas flores de antes. À flor da pele, pode-se dizer. 

Foto 1: Flower Boy (2017)                                      Foto 2: clipe Fucking Young, Cherry Bomb (2015)

Um tempo depois, Tyler the Creator floresceu ao entregar um conceito mais marcante e abstrato com Igor (2019), para falar unicamente sobre amor. O young bastard amadureceu e, no seu quinto álbum de estúdio, assumiu uma figura retrô futurista que embala o ritmo de quem ainda não esqueceu um amor. A peruca loira platinada é o charme — mais um elemento com a cor que interliga suas obras em um mesmo enredo caloroso. Ela se destaca e combina muito com o outfit vintage escolhido, embalado por tons pastéis e suaves. Recuperou a paleta de cores de Wolf (2013) e deixou transparecer nos belíssimos trajes usados pelo artista para vivenciar Igor. 

Foto 1: reprodução do clipe de I Think (2019)        Foto 2: capa alternativa de Wolf (2013)

Para apresentar Igor (2019), Earfquake é a melhor escolha. O single é o fio condutor de um álbum sintetizado e experimental, flertando mais uma vez com o seu passado horrorcore. Na lírica, Tyler the Creator volta a falar sobre o desequilíbrio emocional e instabilidade nas relações. O mesmo rapaz volúvel de IFHY parece ainda estar vivo em Igor, que implora para não ser deixado para trás. E o mesmo amor incendiário, que corrói a face de Okonma em 2013, toma força e proporção. 

Foto: Clipe de Earfquake (2019)

O incêndio no clipe de Earfquake, causado pela imprudência do personagem, mostra como  o isqueiro, que queima o rosto de Tyler seis anos antes, já não era suficiente para representar sua intensidade agora. Dessa vez, Tyler percebe no laço amoroso algo maior do que a confusão do sentimento em si, mas também o apego e a dependência emocional. São fatores perfeitos que inflamam ainda mais o fogo de ser e sentir como o jovem criador.

Intensidade, calor e irreverência

Nos videoclipes, as duas músicas se encaminham para um mesmo fim: a representação de Tyler Gregory Okonma. É ele, o jovem em sua forma mais real, seja em rimas despojadas no carro ou como um bombeiro sensato apagando um fogaréu. As personas só são, no fim das contas, o desdobramento de tudo que ele parece ver de si mesmo:  intensidade, calor e irreverência. Se pudéssemos dividir Tyler the Creator ao meio, daremos de cara com um estilo muito próprio de sentir as coisas. Okonma é o cara que gosta de colocar lenha na fogueira — ou em si mesmo se for preciso, só para explorar o máximo daquela emoção. E, por fim, contar a mesma narrativa em obras de épocas tão diferentes, provando a sua genialidade e exatidão ao falar do que todo mundo sente. 

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1 comentário em “A intensidade incendiária nas emoções de Tyler the Creator”

  1. o tyler tem uma inteligência incrível real, ele entrega tudo em qualquer álbum !

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