A nova linguagem comunicacional promovida pela Batalha de MCs no Espírito Santo

Baseado em uma nova linguagem, as batalhas de MC’s apropriam-se das diversas formas de comunicação para expandir expressões culturais.

Por Karina Lima

Embora o conceito de comunicação tenha sido limitado a objetos midiáticos, as batalhas de rap surgem como elemento fundamental para dar voz à cultura periférica, no que interessa os estudos da teoria da comunicação.

As expressões culturais são a saída para artistas mostrarem suas histórias dentro do espaço no qual estão inseridos, bem como manifestar a evolução identitária nesse processo. Daí surge a importância de ampliar o entendimento do que são os objetos comunicacionais, incluindo manifestações não tão presentes na mídia – como os duelos de MC’s – e, nesse caso, a particularidade regional do Espírito Santo que é um estado bem representado nacionalmente com Mc’s que desde o início ocupam espaços públicos para lutar pela cidadania e expor as desigualdades sociais do território capixaba.

Não é novidade que o hip hop expandiu as particularidades de movimentos de rua no Brasil e no mundo, cujas finalidades políticas e culturais são bem expressivas. No caso da vertente das batalhas, é válido ressaltar que fatores políticos, sociais e econômicos corroboram para uma mudança na comunicação verbal e corporal, tornando-as, portanto, novas formas de comunicação que avançam em paralelo com a sociedade.

É nesse contexto que artefatos culturais não canônicos adquirirão características plurais na contemporaneidade e ganharão espaço fora de uma lógica estrutural. Paralelamente, “as velhas identidades que por tanto tempo estabilizaram o mundo social, estão em declínio, fazendo surgir novas identidades e fragmentando o indivíduo moderno” – Stuart Hall, sociólogo britânico-jamaicano

É com base nessa dinâmica que a jornalista e mestre em comunicação e territorialidade, Carolina Sampaio, afirma que “a arte é apenas uma das formas de se comunicar, assim como a pesquisa acadêmica, ou um debate sindical, por exemplo, mas a arte tem liberdade.

“E é justamente por ter essa liberdade de expressão que ela facilmente se conecta com os outros, por meio da identidade cultural, sendo um processo de comunicação de fácil adesão ou repulsa, dependendo do grupo em que você se encontra.”

Segundo ela, ao participar de determinado grupo, incluímos traços de uma identidade coletiva e também formamos um pouco deste grupo a partir da nossa identidade individual – que varia em relação a gênero, raça e classe. Isto está muito relacionado com a performatividade da linguagem corporal.

As protagonistas

Joá Vi Pereira, conhecida como “Afronta Mc“, é uma artista travesti e estudante de serviço social. Iniciou na Batalha da Ponte, Centro de Vila Velha, em 2019. Teve uma grande influência no processo ao assistir os vídeos da “Monna Brutal”, uma artista de São Paulo. Após isso, viu no rap um mecanismo de voz às pessoas pretas de modo geral e também à população LGBTQIA+.

Partindo dessa narrativa, ela afirma que: “o rap é tráfico de informação”, portanto, em seu trabalho, parte do princípio de que as batalhas de MC’s sempre estão querendo comunicar algo. E essa comunicação específica dos duelos difere das outras vertentes do Hip Hop, pois cada elemento tem sua forma particular de comunicação – ainda que tenham a mesma finalidade. Para ela, além disso, é incrível ver os diversos artifícios que os(as) MC’s usam para passar a mensagem na rima.

Aline Guerra, artisticamente conhecida como “Guerra”, começou a batalhar em 2017, na primeira Batalha de Minas do ES. As batalhas eram válvulas de escape no começo, mas hoje vive disso. Na primeira edição da Batalha do Atlântica, ela e outros co-fundadores tomaram enquadro da polícia. O fato foi um marco de resistência. Para eles, continuar o trabalho em meio a tanta marginalização é um ato importante.

Guerra fez parte do trio campeão da Batalha da Aldeia, realizada no final de 2020, e é apaixonada por filosofia. Ela discute sobre a importância da representatividade das mulheres nas batalhas pela falta de coragem e incentivo e também acredita nas batalhas como importantes elementos comunicacionais socioeducativos.

Grande parte da sua base política veio das batalhas. Segundo ela, a troca de experiências nas rimas impactam de forma positiva no processo de consciência humana. Ou seja, um olhar sobre as vivências por uma outra perspectiva.

Elizabeth Sant’Ana Santos, vulgo “Beth Mc“, começou a batalhar por volta de 2015 por influência de seu irmão, “Aka vermelho”, que havia fundado o projeto “Recreio com rimas” na escola em que estudavam. Foi a partir dessa narrativa que ela iniciou sua trajetória no Hip Hop.

A artista acredita que no âmbito das batalhas de MC’s, cada indivíduo que está inserido no movimento tem sua maneira particular de se comunicar de modo corporal e verbal. Segundo ela, o bacana é que o que fomenta a cultura Hip Hop é a forma que esse movimento é realizado e aplicado. Além disso, a MC compreende as dificuldades presentes em ser mulher dentro da cultura. No entanto, acredita que a melhor maneira de melhorar um espaço é estar nele. Por isso a importância de não desistir.

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