A vida, música e história entre Bia e Bixarte

Nos debruçamos sobre a poesia de cura e enfrentamento de Bia Manicongo, rapper paraibana, que prepara seu terceiro trabalho musical “A Nova Era”.

Por Maria Carolina Brito

O assassinato da vereadora Marielle Franco, em março de 2018, assustou Bianca Manicongo, mais conhecida como Bixarte. Se para algumas pessoas o medo paralisa, o sentimento em Bia teve o efeito oposto: catalisou sua entrada no universo da poesia marginal. Hoje, com 20 anos, a paraibana é bicampeã do Slam Parahyba, e finalista do Slam Br, campeã do festival de música da Paraíba 2020, da Festa Literária das Periferias (Flup) 2020, dona do EP Revolução (2019) e do disco Faces (2020). Além disso, ela adianta que o próximo álbum “A Nova Era” está próximo de ser lançado , financiado pela lei Aldir Blanc, o projeto conta com equipe inteiramente preta e/ou LGBTQIA+. Seu primeiro single “Oxum” estará disponível em todas as plataformas de streamings no dia 22/04 e ganha clipe no dia 23/04.

O Slam é uma competição de poesia falada na qual os participantes se expressam  utilizando como recurso apenas sua voz e seu corpo. O slammer, como são denominados os participantes, precisa memorizar suas poesias. O júri é formado pelo público, aqui no Brasil o movimento foi abraçado como um espaço de fala da juventude da periferia. Ele pode ser entendido como um fenômeno contemporâneo de comunicação oral e um movimento social, cultural e artístico que está espalhado pelo mundo todo.

O programa Manos e Minas tem uma playlist com quase 200 vídeos de slam. Dá um confere!

Na poesia, Bia se expressa sem medo. Combina traumas e anseios no processo criativo e obtém como resultado versos de cura e libertação. A maturidade que adquiriu quando participava das competições de slam foram fundamentais para o seu processo de travestilidade. No Rap, ela se apresenta como Bixarte, lembra-se do legado ancestral de mulheres travestis e faz questão de destacar Xica Manicongo e Hyrla MC. “Hoje eu faço uma separação na minha vida: Bixarte está envolvida com Rap, então ela está se adaptando a toda uma indústria com a personalidade dela, trazendo toda ancestralidade de travestis nordestinas que foram silenciadas e nem são contadas na história; e Bia é a poesia, meu lado de rasgar a alma, de certa forma, sem ter medo de nenhum tabu, nenhum  rótulo ou padrão. A poesia me dá essa liberdade”, conta a artista.

Sonoramente, tambores e as guitarras dão o tom. Essa mistura fez seu som ser definido como “tecnomacumba”, nome de um dos álbuns da  maranhense Rita Benneditto, lançado em 2006. Nas palavras da MC, a tecnomacumba representa uma macumba afrofuturista, mais popular, contando sobre orixás.

Já tematicamente, transfobia, gordofobia, religiosidade e amor encontram seu lugar em meio ao trabalho de resgate histórico. “Eu preciso falar de Xica Manicongo, acho que eu tenho que pedir permissão, assim como tenho que pedir permissão para Oxóssi para poder entrar no palco, para poder entrar em qualquer lugar, eu tenho que pedir permissão para Xica Manicongo para poder falar sobre travestilidade, porque não tem como, sabe? Ela é a primeira travesti que a gente conhece na história do Brasil e, ainda assim, sabemos muito pouco sobre ela”, desabafa Bia.

Os dois trabalhos mais relevantes da paraibana marcam fases diferentes de sua personalidade. Enquanto “Revolução” é anterior ao processo de reconstrução de gênero, “Faces” já traz a figura não binária com outra linguagem artística, expressando amor, ódio, alegria e gratidão. Fora dos eixos, tanto geograficamente quanto nas normas heteronormativas, Bia destaca que não faz parte da cena do Rap nacional — e nem pretende. “Eu acho que nós, mulheres pretas, estamos criando nossos espaços de Rap”, declara. A Brasa se encantou com a poetisa, escritora, atriz e rapper, Bia Manicongo, e te convidamos a se intrigar também pelas faces de Bixarte.

É necessário falar sobre todas as coisas que perpassam a nossa existência, como você fez muito bem em Revolução,  mas “Refém” também é uma canção de amor, o beat lembra um R&B….é necessário falar sobre o amor? Por que?

O Faces ele é muito gostoso de ouvir porque é exatamente isso: são as várias  faces que uma pessoa trans não-binária vivia na época. Ela amava, odiava, dançava, agradecia. A música “Refém” é muito louca porque eu fiz para um ex meu e eu falei que nunca iria lançar. Desencanei do boy, já tava namorando outra pessoa e falei: quer saber? Eu vou lançar porque essa música tem o cheiro do sucesso: uma vibe bem gostosinha… Chamei Gabrunca, que é meu produtor e também é um artista incrível, e aí saiu essa música.

Nos seus dois EPs tem muitas participações — A Fúria Negra, Raffa Rasta, Gabrunca, Lucas Dan, Hyrla MC, Guirraiz, Psico MC, Bione. Fala pra gente sobre essas parcerias.

Em Revolução as parcerias são Bione, Psico MC e MC Hyrla que é uma das primeiras mulheres MCs da Paraíba, a maior referência que eu tive. Psico tem um trabalho incrível de Rap lá na comunidade que a minha mãe mora e Bione é poeta de Pernambuco, conheci ela  no Slam Brasil representado Pernambuco, então são parceria muito pesadas para mim! Como no Faces eu estava no processo de ser acolhida, e estava necessitando desse sentimento, todas as parcerias que eu fiz foram de pessoas que estavam me acolhendo naquele momento em que eu estava entendendo meu corpo. A Fúria Negra já estava presente na minha vida, Gabrunca,  Raffa Rasta,  Lucas Dan, que é sanfoneiro incrível, foram pessoas que estavam começando a acolher meu trabalho e são parcerias muito importantes para mim. Eu sempre quis começar uma carreira nacional, mas eu queria muito que os primeiros trabalhos fossem com quem é base, com quem faz o Hip-Hop na realidade no estado da estado da Paraíba — e graças a Dayse eu consegui, faltou só Pretinha, que é uma MC muito foda daqui.

A sua sonoridade vem com tambores, guitarras do Reggae, um mix  da música preta que amarra tudo o que você traz de uma forma muito autêntica, como foi esse processo de criação e escolha dos beats?

Os primeiros beats de Revolução eu fiz com o Daniel e o Dinho e foram coisas que eu pegava na internet, pedia pra permissão e fazia, nada muito profissional, mas que foi extremamente importante para mim. Já no Faces, o Daniel Jessy do BBS, que é um estúdio, me acolheu; ele começou a entender o que eu queria, eu falo que quero cantar música de Iemanjá e a gente fez um beat só para isso, aí eu queria um tambor, algo que me remetesse ao que eu vivo quando vou no terreiro — amo o tambor, adoro a guitarra, o Jazz, o Blues é algo muito nosso que foi embranquecido, eu gosto de misturar tudo.

Bixarte com sua poesia desperta o anseio por mais, este desejo está preste a ser realizado. Para acompanhar os novos lançamentos da artista não esqueça de segui-la em seu perfil do spotify.

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