“Agradeço a Deus e aos Orixás”

Os caminhos da espiritualidade e sua presença dentro do Rap.

Por Mari Paulino

A fé e a periferia caminham lado a lado. Há quem diga que para sobreviver na periferia precisa ter fé e há também os que falam que a própria periferia só sobrevive por conta da fé. Seja para sustentar um indivíduo ou uma comunidade inteira, não tem como contar a história preta sem mencionar a sua ligação com a espiritualidade. Desde os batuques dos terreiros ao Boom Bap, a música é uma forma de se conectar com a ideia de fé.

A busca pelo entendimento espiritual é presente ao longo da história da humanidade. A religião foi usada para colonizar e causar dor, mas também como resistência e forma de revolução. As religiões de matrizes africanas, por exemplo, foram ferramentas de resistência no período de colonização de diversos países. Antes de falar sobre Rap e religiosidade, eu quero contar uma história para vocês (Voz do Amiri).

Vodu, revolução e independência: Haiti

O processo histórico que levou à independência do Haiti em 1804 foi marcado pela resistência negra, a qual tinha como um dos seus principais instrumentos a prática religiosa do Vodu. Religião baseada no culto aos Ióas (voduns), o Vodu Haitiano tem influências de povos africanos como Igbos, Congo, Iorubá, além de elementos indígenas e catolicismo popular. As pessoas escravizadas no Haiti foram trazidas da Costa de Guiné, o que ajuda a entender essa influência. Uma curiosidade é que a primeira reunião para planejar o motim dos negros que eram escravizados foi feita em um local de cerimônia de Vodu (Bwa Kayiaman).

A independência do Haiti teve como alicerce rituais em que mulheres tinham uma participação ativa. O livro A História da Revolução de Saint-Domingue (1814) de Antonie Dalmas descreve alguns relatos sobre a cerimônia. Conta-se que uma mulher começou a dançar no meio da multidão tomada por espíritos dos loas. Com uma faca na mão cortou a garganta de um porco e distribuiu o sangue para todos os participantes da reunião. Eles juraram matar todos os brancos da ilha. A reunião foi presidida por Duty Boukman.

As coordenadas: onde a religiosidade e o Rap se encontram?

A música em si sempre foi uma forma para expressar espiritualidade, seja empregada para guerras ou para exaltar autoridades, e esse tipo de comunicação por som está presente em todas as culturas. Dentro do Rap, a religiosidade é uma herança de outros estilos que inspiraram o gênero e toda essa história começa no continente africano. No livro A Mitologia dos Orixás (2008), Reginaldo Prandi explica a importância da dança e dos instrumentos no candomblé — e como isso dá vida ao culto.

“E, enquanto os homens tocavam seus tambores, vibrando os batas e agogôs, soando os xequerês e adjás, enquanto os homens cantavam e davam vivas e aplaudiam, convidando todos os humanos iniciados para a roda do xirê, os orixás dançavam, dançavam.”

— Reginaldo Prandi, em A Mitologia dos Orixás (2008)

Como a África é um continente enorme, naturalmente na diáspora uma vasta sonoridade foi disseminada pelo globo, especialmente onde a escravidão aconteceu. Alguns séculos para frente, o Blues aparece nos Estados Unidos com um processo de criminalização e rejeição muito similar ao que foi observado nos anos 80 com o Samba no Brasil, com a construção de um estereótipo decisivo para jogar o gênero musical para escanteio: música do diabo — como até hoje é conhecida história de Robert Johnson (nota da repórter: tem um documentário na Netflix sobre esse músico que foi fundamental para a construção do Blues, vale a pena conferir, chama-se O Diabo na Encruzilhada: A História de Robert Johnson).

A partir da dor das pessoas escravizadas, nascem Blues, Gospel e Jazz. Uma curiosidade sobre o Jazz é que o gênero ganha suas maiores definições em Nova Orleans, onde o Vodu é uma religião muito presente (lembra da história do Haiti?).

No início do século XX, os negros estadunidenses cristãos criaram a música Gospel, cuja composição envolve coral, piano, órgão, guitarra, bateria e baixo. Um dos responsáveis por transformar a música gospel em um estilo comercial foi Ray Charles, duramente criticado pela comunidade cristã da época.

Com a evolução desses estilos, nos anos 1950 e início de 1960, o mundo passou a conhecer a Soul Music que combina música Gospel, R&B e Jazz. O estilo se tornou popular em todo mundo e influenciou diretamente o Rock da época. Neste período pós-Segunda Guerra Mundial, o Soul foi um importante instrumento de protesto. Os afro-americanos começaram a exigir direitos diante da repressão dos brancos. Os grandes influenciadores do gênero, que foram responsáveis por abrir portas em mídias e mainstream, foram James Brown, Aretha Franklin e também o Ray Charles.

“A palavra Soul era um termo usada como adjetivo aos afros-americanos”

No dia 2 de outubro de 1971 era exibido pela primeira vez o programa americano “Soul Train”, comandado por Don Cornelius. O programa ajudou na propagação do gênero e foi revolucionário, pois contava com apresentações de dança e música ao vivo de diversos ícones da black music como, James Brown, Tina Turner, Jackson 5, Marvin Gaye, Aretha Franklin, Curtis Mayfield,entre outros.

Segundo o Hall da Fama do Rock and Roll, Soul é “Música que surgiu da experiência negra na América através da transmutação do Gospel, Rhythm and Blues em uma forma de testemunho secular e funky”.

Da raiz da Soul Music surgiu o Funk também no final da década de 1960. O estilo foi fundamental para o nascimento do Hip-Hop, por ser um estilo muito mais dançante e enérgico. George Clinton foi um dos grandes expoentes do estilo e influenciou diretamente o Hip-Hop dos anos 1990 e o G-Funk.

Em paralelo a todo esse movimento da comunidade negra, os EUA estavam vivendo uma invasão da cultura da psicodelia. De 15 a 18 de agosto de 1969 aconteceu o Festival Woodstock. George Clinton usou e muito dessa influência em suas músicas e em seu estilo extremamente extravagante e com muito humor.

Entre 1970 e 1980, o Hip-Hop desponta nos Estados Unidos como primeiro movimento cultural criado por negros livres. O estilo aparece nessa timeline de inovações da música negra e da tecnologia. O Rap foi crescendo e ganhando ramificações com influência desses artistas bases, mas sempre referenciou a fé e a resistência de seus precursores.

De certa forma, todas essas referências permanecem latentes. O álbum Coloring Book (2016) de Chance The Rapper deu uma repaginada Pop nos elementos do Gospel, emplacando faixas como “No Problem”, que ficou por 26 semanas no Hot 100 da Billboard. Kanye West também trouxe o Gospel temperado com a sua estética em Jesus is King (2019) e sua dedicação ao Sunday Service.

Em 2020, Joey Badass trouxe em seu EP The Light Pack a narrativa religiosa, com a presença de um ritual Vodu e a inspiração da fé para a revolução. Na cena final do clipe, ele aparece entrando em uma delegacia com toda energia dos sacrifícios e fogo em seus olhos. Essa cena remete ao poder incansável do movimento #BlackLivesMatter, que incendiou uma delegacia como forma de protesto ao assassinato de George Floyd pelo Estado.

E no Brasil?

O sincretismo religioso foi fundamental para a sobrevivência da cultura negra no Brasil. Diferente do Haiti, o conhecimento que os negros escravizados trouxeram consigo foi da cultura Iorubá e aqui se desenvolveu o candomblé e a umbanda, frutos da profunda política de miscigenação.

Esse sincretismo pode ser observado no Rap dos anos 1990, geração na qual a temática das músicas vai desde genocídio da população negra até o poder da fé. O álbum Sobrevivendo no Inferno (1997) começa com a oração de São Jorge que transmite um sentimento comum de um jovem negro quando fala “Armas de fogo meu corpo não alcançarão”. Segundo o Atlas da Violência, divulgado em 2019, 75% das vítimas de homicídio no país são negras. Esse dado foi o maior em proporção da última década.

O grupo Racionais MCs fala bastante sobre espiritualidade em suas músicas, assim como Sabotage. Diferente do cenário estadunidense, a nossa referência espiritual veio através do Samba,  dando uma originalidade e singularidade para o Rap produzido no Brasil. Artistas como Criolo, Vandal, Max B.O, Marcelo D2, Emicida, Hot e Oreia, Djonga, Bia Doxum, D’Ogum, Marcola Bituca, entre outros, também trabalham a espiritualidade em suas músicas. É lógico que também temos nossos “pagãos” como o BK, Dazvera, Black Alien e Yung Buda.

Revolucionária ou para perpetuar um traço cultural, a espiritualidade está presente em nossa história de diversas formas. As influências são várias e este artigo ficaria bem maior se eu fosse pontuar cada uma delas. Mas, cada vez que você for ouvir uma música de Rap, espero que sua experiência seja de devoção, mesmo que você não acredite em nada, até porque, no limite, espiritualidade não é sobre deuses, orixás ou qualquer outra entidade. Fé é força, acreditar é um exercício de elevação do espírito e de profunda autopercepção. No fim do dia, em que você acredita?

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