ALONGAMENTO DE UNHAS: IDENTIDADE, PODER E NEGRITUDE

Por Ari Leite e Paula Silva

Postiças, acrílicas, em gel, fibra de vidro, naturais. As “unhonas” fizeram a cabeça e as mãos da galera millenial. Chamam a atenção por onde passam, seja pelo tamanho, pelo formato ou pelas cores e pedrarias que ostentam. Unha alongada virou tendência de moda.

Entretanto, este acessório sempre foi um movimento — de autoafirmação, de rebeldia, de identidade. E quem começou e fortaleceu esse movimento foram elas: as mulheres negras.

Da China Antiga aos EUA: simbolismos e estereótipos

Há indícios de que elas existem desde a China Antiga, sendo usadas somente pela elite. Acredita-se ainda que as mulheres no Egito Antigo usavam extensões de unhas feitas de osso e marfim.

Séculos se passaram, e na década de 30, um dentista chamado Maxwell Lappe criou os primeiros kits de unhas postiças que se tem notícia, feitos sob medida para pacientes que roíam as unhas. Na década de 50, outro dentista, Frederick Slack, acidentalmente inventou o que viria a ser a extensão de unha em acrílico, quando tentava consertar uma unha quebrada usando o material acrílico disponível em seu consultório.

Por muito tempo (e mesmo após a invenção das unhas postiças e da extensão de acrílico), a unha curta, pintada em tons de nude, simbolizava a elegância e o recato da branquitude. Nesse sentido, as unhas compridas, apesar da sua importância cultural nas antigas civilizações, eram vistas como bregas, impraticáveis e denotavam ausência de higiene — mas somente em mulheres negras. Milliann Kang, professora da Universidade de Massachusetts, abordou essa questão em seu livro “The Managed Hands: Race, Gender and the Body in Beauty Service Work”: segundo a autora, a aparência das mulheres brancas e heterossexuais determinou a imposição dos vários padrões de beleza existentes: de cabelos, de corpos, de pele e… De unhas.

As unhas que saíam desse padrão eram logo associadas à promiscuidade e à pobreza, estereótipos atribuídos na maioria das vezes à mulheres negras. Justamente por isso, elas ressignificaram o seu uso, assimilando os formatos longos das unhas a um estilo de vida, a uma identidade própria, uma espécie de “contracultura” estética. E a partir daí, surgiram várias representantes desse movimento: a supermodelo Donyale Luna usava unhas postiças quando fez história na Vogue como a primeira mulher negra a estampar uma capa da revista em 1966; nas décadas de 70 e 80, Donna Summer, Diana Ross, Patti LaBelle e outras divas negras subiam aos palcos ostentando unhas enormes pintadas de vermelho ou alguma outra cor que chamasse a atenção das mídias especializadas.

Garras nas Olimpíadas: Flo-Jo

Florence Griffith-Joyner, a Flo-Jo, foi uma das mais lendárias corredoras da história dos Jogos Olímpicos. Especialista em provas de velocidade, ela ganhou diversas medalhas olímpicas e bateu os recordes dos 100 e 200 metros rasos nas Olimpíadas de 1988 em Seul, na Coréia do Sul — que até hoje não foram batidos. E apesar da carreira brilhante e dos recordes históricos, a mídia na época só falava em um detalhe: suas longas unhas, sempre pintadas de dourado ou com as cores da bandeira dos Estados Unidos.

Foto de Reprodução/Divulgação

Antes das pistas de atletismo, Flo-Jo trabalhava em salões de beleza como manicure. A decisão de manter as unhas longas num contexto onde parece ser inviável usá-las pode ser vista como uma homenagem à profissão que a ajudava a pagar as contas antes de se tornar uma estrela do atletismo.

Sobre as críticas da imprensa em relação ao seu estilo, ela só achava graça e reafirmava sua identidade. “Eu só queria trazer minha personalidade e as coisas que eu usava fora da pista para a pista”, disse ela em entrevista à jornalista Ann Liguori em 1992.

Hip-Hop e unhas postiças: match perfeito

Nomes como Lil Kim e Missy Elliot foram essenciais para que a aplicação de unhas postiças grandes fossem mais valorizadas e cobiçadas. Ao utilizarem em 1990 e 2000 estariam cravando a arte das unhas na cultura Hip-Hop, o que influenciou outras mulheres negras a fazerem o mesmo.

Novas criações e pinturas com pedrarias e cores vibrantes, como a famosíssima nail art de dólares reais em acrílico usadas por Lil Kim e que foram parar até mesmo no Museum of Modern Art em Nova York anos depois, tomariam o lugar de cores neutras e básicas que costumavam aparecer na época.

A manicure responsável por esta unha icônica da Kim, Bernadette Thompson, revelou em entrevista para o The Washington Post que a ideia surgiu durante uma sessão de fotos. Como era preciso destacar a participação que a cantora teve no single “Get Money” de alguma forma, para aproveitar o lançamento do mesmo, Thompson logo tirou uma nota da carteira, cortou-a em alguns pedaços e aplicou milimetricamente na unha de acrílico.

Foto de Bernadette Thompson

Ela só não imaginaria que a ação provocaria um hype enorme com outras pessoas se inspirando na criação. Mesmo reconhecendo que não era a primeira a criar artes nas unhas, ela destaca que foi a “primeira a introduzir à moda.”

E com o passar do tempo essa moda realmente pegaria, atingindo o mainstream. O que significa que as pessoas brancas se apropriaram das ideias e do estilo que antes criticavam.

Comunidade queer e a relação com as unhas

O sentimento de empoderamento, para muitos, acabava tendo uma relação direta com as unhas grandes, servindo como uma extensão da personalidade de quem a aplicava.

Para a comunidade queer – em especial as drags queens que se montam por completo para aflorar essa outra personalidade – ter “unhonas” pode significar estar mais próximo da feminilidade e da expressão do verdadeiro eu.

Por outro lado, para muitos LGBTQIA+ ter unhas pintadas e bem trabalhadas garante que o estereótipo de “unhas podem ser usadas somente por mulheres héteros” seja descartado.

Aliás, no universo queer o tópico também não chegou agora. O modelo e apresentador RuPaul Andre Charles é um dos exemplos de figura queer importante que desde os anos 90 costuma pintar e usar unhas alongadas.

A força que o item tem para o mundo das drags queens já é um fato, no entanto, para as travestis e transexuais que decidem pintar ou usar alongamento a retaliação ainda acontece. Um item que ajudaria na melhora da autoestima e na construção da identidade é muitas vezes questionado e utilizado para reprimir e discriminar um grupo dentro da sociedade.

Basta checar os números para entender que o Brasil continua sendo o país que mais mata travestis e trans, pelo 13° ano consecutivo, e que o machismo e a transfobia acontecem diariamente.

Percebe como corpos marginalizados ainda precisam lutar para receber o mesmo tratamento que mulheres brancas que fazem uso das unhas e são vistas como pioneiras? Apesar da caminhada longa e de muitos passos dados para chegar até aqui, mulheres como Serena Williams, jogadora profissional de tênis, ainda precisam ouvir que suas unhas são exageradas demais para o esporte.

Mesmo que digam, mulheres negras de todo o mundo (e principalmente as daqui do Brasil) sabem a força e a relevância que um simples item pode ter na autoestima. Nomes como Kylie Jenner e Rosalía podem até ser as referências de muitos quando o assunto é alongamento de unhas, mas é preciso reverenciar e parabenizar aquelas que de fato estiveram envolvidas com o feito.

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