Anime DICRIA: Ed Cura e a importância dos animes na periferia

Por: Paula Silva e Gabrielle Neves

“Não quero fazer um bagulho voltado pra rapper americano, eu quero fazer voltado pra minha realidade”, Ed Cura para Brasa Mag

O Hip Hop é múltiplo; como um universo em constante expansão, ele se conecta com diversas culturas e realidades. Se você acompanha a Brasa no instagram (@brasamag), com certeza nos viu falar sobre a influência das artes marciais no hip hop, fruto da conexão entre pessoas negras e o leste asiático. Hoje aprofundamos esse papo em entrevista com Ed Cura, criador do Anime Dicria, sobre o impacto dos animes na vida de pessoas periféricas.

Créditos: @animedicria/Reprodução.

Quando a pandemia de Covid-19 estava no seu auge, Ed, que é fotógrafo e designer, viu a falta de grana o assombrar. Foi “criando arte em meio ao caos” que ele resolveu dar vida ao perfil Anime Dicria (@animedicria) no Instagram, onde coloca personagens de animes e mangás nas reais ruas do Rio de Janeiro por meio de colagens. Semanalmente, ele faz o “Jornal Dicria”, um resumo ilustrado do que rolou na semana nos grandes jornais. Ele conta um pouco sobre a inspiração do projeto:

“Eu já tinha algumas referências desse tipo de conteúdo, tipo Tumblr há muitos anos, onde eu já via uma galera misturar rappers com personagens de Sailor Moon, achava muito foda.”

Anime Dicria não é um nome ao acaso. Ed contou que, quando a ideia da página surgiu, seu primeiro pensamento foi o de fazer algo voltado para a sua realidade. Isso abriu uma porta de conexão, afinal, só quem cresceu assistindo animes como Naruto, Dragon Ball Z, Pokémon, Cavaleiros do Zodíaco e alguns outros sabe como aquelas histórias carregadas de ensinamentos eram inspiradoras. Ou melhor, ainda podem ser. Ed diz:

“Cara, é muito louco como uma parada que tá do outro lado do mundo consegue representar as pessoas periféricas de uma forma tão nítida. Eu falo muito do exemplo do Naruto: tem vários Narutos aqui no morro. São vários moleques que vivem sem pai e sem mãe, que às vezes tá sendo cuidado por um tio ou por um avô. São crianças vistas como demônios desde o momento que nasceram. São crianças desacreditadas o tempo inteiro.”

Créditos: @animedicria/Reprodução.

Além da página, ele toca um projeto incrível: a “Mangateca Comunitária Dicria”, uma biblioteca comunitária com um acervo de mangás e HQs doados por seguidores e outros parceiros, que foi inaugurada no dia 9 de abril no Morro do Fallet, em Santa Teresa, Rio de Janeiro. O objetivo é estimular o hábito de leitura nas crianças e adolescentes da comunidade através da aproximação com a cultura otaku, mas não somente isso.

Ed comenta que a ideia é criar um espaço seguro para que crianças consigam existir e ter momentos de alegria, assim como os animes foram um resgate para ele em meio ao caos para o começo da trajetória. Ele traz ainda a reflexão sobre a carência cultural que vem do abandono e do descaso governamental em relação às periferias do Brasil:

“Os animes e mangás populares na grande maioria são shonens com heróis e tal, então esse lance social tem muito a ver com o fato de, tipo, ser um herói mesmo, tipo o lance de Boku no Hero, ali com o Deku, que é de tentar salvar as pessoas. O lance social é isso. A mangateca é totalmente sobre isso. Ela é um sonho de criança […]”.

Crianças da comunidade do Fallet em Santa Teresa, Rio de Janeiro. Créditos: @orpamelaph/Reprodução

O Hip Hop é sobre ruas, sobre realidade, sobre dores e alegrias. Por isso se conecta de maneira tão intrínseca com os animes e mangás. Arriscamos dizer que inúmeros trabalhos funcionam como grandes shonens – como Good Kid Maad City (2012), de Kendrick Lamar, e Para Quem Já Mordeu Um Cachorro Por Comida Até Que Eu Cheguei Longe (2009), de Emicida.

Ah, e temos indicações para você, otakinho! Fala aí, Ed:

“Cara, anime eu vou indicar um da temporada passada que se chama Ousama Ranking, que tem como protagonista uma criança com deficiência. Pô, esse é muito foda. Acho que é um anime muito importante e muito foda pra galera que já consome desenho tipo cartoon, porque os traços são bem parecidos. E é uma história muito chocante, uma aventura ali com drama que eu, particularmente, de 23 episódios chorei uns 20 fácil. Agora mangá… eu vou indicar um que é um pouco mais adulto e que é recente, se chama Dandadan, que eu acho muito foda, muito legal, mas que ainda não chegou no Brasil.”

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