As mudanças de Pele de N.I.N.A

N.I.N.A na procura de uma conversa honesta sobre si, desabafa de forma íntima sobre a realidade de habitar a sua Pele em seu primeiro álbum

N.I.N.A pra muitos, Anna Ruth pra poucos. A verdade é que a persona N.I.N.A faz parte da história de Anna, verdadeiro nome da artista, há muito tempo, desde que tinha cerca de 12 a 13 anos para ser mais específica, enquanto andava de skate com amigos em Cabuçu, cidade no interior da Bahia. Ela conta que as pessoas começaram a chamá-la assim naturalmente; foi pegando e ficou. Contudo, adotou o apelido como nome artístico porque, para ela, ele o remete a uma fase de descoberta e construção de si enquanto pessoa. A artista detalha:

“Eu costumo dizer que a Anna é aquela que supre as expectativas da família e a N.I.N.A é aquela que eu quero realmente ser’’. Mas a Anna tem a essência dela. A essência que vem de berço, que ninguém tira e que faz total diferença na sua construção e na construção da N.I.N.A.

Entre Anna e N.I.N.A

foto por: MAR+VIN

N.I.N.A divide bem suas personas, colocando Anna na esfera sentimental e e seu nome artístico no racional. ‘’A N.I.N.A é a que toma as decisões, aquela que pensa meticulosamente em cada passo que vai dar. É aquela que sabe onde quer chegar. Já a Anna é aquela que ainda procura colo quando as coisas apertam, enquanto a N.I.N.A, não, diz ‘vambora’ e foda-se”, setoriza.

Como costuma dizer, N.I.N.A é a sua potência. Mas pra ela nada tem sido melhor do que chegar em casa após uma viagem e deitar no sofá com o seu gato; algo que tem se tornado uma verdadeira terapia real, por considerar um momento em que pode se permitir se perceber cansada. É um momento de sensibilidade ao seu redor, com pessoas que te ouçam e entendam. Ela vai além:

‘’As pessoas enxergam ‘O artista’, mas elas não veem a pessoa que tem por trás. E quando a gente fala disso, a gente fala, tipo assim: eu sou uma mina que sai de dentro da Mangueira (bairro do Rio de Janeiro), uma casa com sala. quarto, cozinha e banheiro, no alto do morro, pra fazer viagens, ficar hospedada em hotéis e depois voltar para a casa de quarto, sala, cozinha e banheiro dentro do morro. E às vezes não encontrar luz, não encontrar água… E isso acaba mexendo muito comigo. Saber separar a N.I.N.A da Anna me fez não ficar fora da casinha e entender que eu sou artista, mas que continuo a mesma mina’. ’

O surgimento de  A Bruta, A Braba, A Forte

A participação da N.I.N.A no Brasil Grime Show foi a guinada principal para desenvolver a sua carreira como MC

N.I.N.A sempre se identificou com a musicalidade negra. Começou a sua carreira musical como DJ, trabalhando com funk, trap, bossa nova e reggaeton. Mas o trabalho enquanto N.I.N.A surgiu de uma necessidade: ’A Bruta, A Braba, A Forte surgiu quando eu percebi que nada do que eu escutava me contemplava”, situa, antes de prosseguir: ”Não é como se não houvessem meninas boas na cena, existem. Mas elas não dialogavam comigo da maneira que eu precisava escutar. Eu precisava escutar uma mina falar tipo assim — ‘Mano, tu não vai ficar tirando onda com a minha cara não. Se tu pintar comigo eu vou te atravessar na porrada, tá ligado?!’, e as minas, até então, estavam falando sobre sofrer, sentir…entende? De uma maneira que era um sentir que os homens esperavam que a gente cantasse, e eu queria que eles entendessem que o meu sentir é “meu amor, tu é um vacilão. eu vou dar pro seu melhor amigo e foda-se’, tá ligada? Quando eu percebi que não tinha isso, precisei fazer’’, declara.

Posteriormente, quando começou a pesquisar sobre música para desenvolver a rima, se deparou com o crescimento do trap. Entretanto, não se acostumou com o estilo. ‘’Eu precisava conversar com as crias de favela, tá ligado? Não é sobre dizer que está com ‘glock’, com isso, com aquilo, etc. É sobre dizer ‘Meu amor, você não está entendendo quem eu sou”, diferencia. Até que se deparou com o grime e o drill, e foi amor à primeira vista. O beat sombrio com as rimas pesadas e assertivas só poderiam entregar um trabalho de qualidade.

foto por: MAR+VIN

PELE

Após o sucesso de singles como ‘Contramão’ e  ‘A Bruta, A Braba, A Forte’, N.I.N.A lançou neste primeiro semestre seu álbum de estreia: ‘Pele’. Com 8 faixas e cerca de 21 minutos de duração, a obra inicia a partir da descoberta de sentimentos como luxúria, passando pela culpa, chegando à perda e ao aprendizado. N.I.N.A conta como é estar em sua ‘Pele’:

‘’’Pele’ surgiu muito de uma ideia de mostrar pras pessoas de que eu sou ‘A Bruta, A Braba, A Forte’, mas eu também sou uma pessoa, ser humano. Não é sobre ser peito de aço ou imparável, é sobre você ser certa de quem você é”, pondera. A artista quer é abraçar quem é, por inteira, sem ocultar contradições ou defeitos. O primeiro single da carreira, deu a identidade, enquanto o primeiro álbum a revela pro mundo. N.I.N.A destrincha:

“’Pele’ veio da necessidade de mostrar quem eu era. Mas acima de tudo de fazer as pessoas entenderem que por trás da N.I.N.A existe uma mulher preta, gorda, favelada, bi e que tem vários problemas, que passou por muita coisa, que sente muita coisa ainda, que tem seus medos ainda…mas que ela vai com medo mesmo”.

Sentimentos, expressões e essência

A mensagem de N.I.N.A é minuciosa, em uma capa cheia de elementos simbólicos: “Vermelho. Essa é uma cor que eu estudei na cromoterapia quando eu fui fazer ‘A Bruta, A Braba, A Forte’; porque eu não queria que a capa fosse o meu rosto. Queria que fosse aquela silhueta com as duas cobras, e que tivesse uma identidade visual agressiva, e a minha identidade visual é o vermelho. Vermelho é uma cor que causa uma sensação de agressividade e fome. Ou seja, é algo que faz você procurar, procurar e procurar, entende? É algo que intimida. Meu melhor é a minha identidade visual”, arremata. A capa de ‘Pele’ é a capa de ‘A Bruta, A Braba, A Forte’ dentro da essência da Anna mostrando que ela se tornou a N.I.N.A.

A artista também compartilha que a capa foi minuciosamente pensada, desde o fato de não ter optado pelo uso de uma fotografia sua até a simbologia e escolha de referências. ”Já não é mais a silhueta, é um desenho, eu também não queria que fosse uma foto”, pontua. Ela explica a simbologia das cobras para si: ‘’A capa fala muito sobre isso da cobra ,de que eu já não sou mais aquela que se inspira nas cobras à minha volta, eu sou a própria cobra. Eu troquei de pele e essa é a minha real essência, está ligado? A minha aparência mudou, mas eu continuo sendo a mesma”, conclui.

A contracapa referencia a famosa obra de Michelangelo, o Dedo de Deus, onde, de um lado, você encontra a mão de N.I.NA com uma cobra enrolada, remetendo a sua essência; do outro, a gente tem o julgamento. ‘’Quando a gente fala sobre assumir quem você é, a gente sabe o que a gente recebe. Desde que eu falei que seria a N.I.N.A, recebi julgamento de pessoas que falavam que torciam por mim, me apoiaram, até pessoas que nunca me viram na vida e acharam que poderiam falar algo sobre mim, sabe? E essa capa diz que o julgamento é um reflexo da essência. A essência é o reflexo do julgamento. E eu basicamente não estou me importando mais com porra nenhuma. Eu sou certa de quem eu sou’’.

foto por: MAR+VIN

Abaixo, confira o faixa a faixa exclusivo de “Pele”, de N.I.N.A para Brasa Mag

  1. ANNA”

‘’É uma música que fala sobre os piores períodos da minha vida. E que foi bom que eu entendi foi meu despertar para me tornar mulher, entende? Quando você deixa de ser uma menina, você se torna uma mulher. Eu fui forçado a crescer com a morte da minha mãe. E foi a parada que impactou tanto na minha vida que veio reverberando até hoje. Anna fala sobre meu processo de amadurecer; de sofrer e entender que isto não devia me matar. Não devia tirar a minha força, não devia tirar a minha potência. Que na verdade isso poderia, sim, ser um aprendizado. Não que eu esteja romantizando dor. A gente não é obrigado a sofrer. Ninguém é fadado a sofrer e a gente não nasceu pra sofrimento. Mas no meio disso tudo ainda há algo que a gente consegue aproveitar e entender. Então, tipo assim, quando a gente fala da formação de uma artista, que no caso é a Anna, e quando a gente fala da N.I.N.A, que é onde eu cheguei e eu quero chegar, a gente não pode esquecer que as inseguranças permanecem ali, e elas só mudam’.’

‘‘18 anos

Puta que pariu eu sou tão nova e já nem consigo esquecer os danos

Quem era aquele mano?

Melhor falar que não rolou nada e deixar isso debaixo dos panos..’’

ANNA

‘’Se você prestar atenção nas letras, Anna, ela fala sobre todas as inseguranças e problemas que eu tive, e a N.I.N.A sobre todos os problemas e questionamentos que eu passei a ter”.

2. 10X Melhor

A canção interlúdio do disco retrata o esforço que é necessário ser 10x mais para ocupar o espaço de ascensão. Mas um detalhe muito precioso para além da letra é um áudio que emociona N.I.N.A enviado por seu irmão mais velho. É ela quem conta:

‘’Esse áudio veio quando ele (seu irmão) descobriu que eu estou em um projeto que eu também não posso falar, mas que eu sou a única mulher. A primeira coisa que ele falou pra mim foi isso, ele é uma pessoa que desde o começo se eu falasse ‘Misael eu quero vender bala’, ele falava ‘’você vai vender a melhor bala do Rio de Janeiro porque você é a vendedora, a mais ‘pica’.’’ E tipo assim, ele sempre me jogou muito pra cima. Quando eu falo que ‘eu lembrei do papo reto, daquele meu nego’ é o meu irmão. Sempre que o meu irmão sempre ele me via muito mal, ele falava pra mim ‘Cara vai virar, vai vingar, vai melhorar’, que é tipo assim: tem muita coisa ainda, tu tem teus santos, tem seus orixás por você, não perde a sua fé, você está de pé graças a isso. Vai na raça mesmo. Está com medo, vai com medo mesmo, você não está sozinha, pode contar comigo pra tudo.

E porra, isso me deu tanta força que é o que eu levo hoje como mantra até na hora de me colocar em prática dentro da cena do Drill. Porque é isso, eu não sou abraçada. São poucas as pessoas que me abraçam, pouquíssimas mesmo, e tipo assim, foi uma parada que foi conquistado na garra. É uma coisa que não vou dizer que todo mundo acreditou em mim porque não foi assim, eu tive que provar mesmo e não que eu tivesse me provado pra alguém, mas eles entenderam que eu não ia parar e não dava mais pra ignorar.

Então é complicado porque várias vezes tem silenciamento, várias vezes as pessoas duvidam do seu potencial, várias vezes as pessoas desejam a sua ruína. Parece que não é fácil para eles ver uma mulher fazendo barulho dentro do Drill. Eu vejo isso num cumprimento, no aperto de mão e uma troca de olhares.

Só que o meu vulgo ele não é à toa. Uma parada que eu sempre falo é: Vai tentar me dar uma banda? Vai tentar quebrar minhas pernas? Tu esquece que cobra rasteja. Está ligado? Tipo assim tu vai tentar me derrubar tu se prepara. Que quando eu armar meu bote, que eu fizer o que que eu tenho que fazer, fodeu. Tenta.”

foto por: MAR+VIN

Luxúria

‘’Luxúria  é uma música que fala muito sobre o vislumbre que a gente tem quando sai da favela. E encontra um universo artístico muito grande e simplesmente esquece que a gente continua a gente.

Eu vivi o início de uma ascensão artística que eu não sabia lidar porque eu ainda era uma mina que trabalhava de carteira assinada de segunda a sexta, às vezes até dia de sábado, para receber um salário que não dava nem pra sustentar meu aluguel e meu alimento dentro de casa. Então tipo assim, ao mesmo tempo que tudo isso estava acontecendo em casa, eu estava tendo acesso a lugares que eu nunca tive. Eu estava recebendo mensagens e reconhecimento de pessoas que pra mim eram intocáveis. E eu precisava mostrar isso pras pessoas, como isso impacta em mim, como isso mudou a Ana e transformou a N.I.N.A, tornou a N.I.N.A a N.I.N.A. Pra mim foi sobre entender que se eu não tiver o pé no chão, eu vou me afundar”.

‘’Adrenalina, notas, drogas

E eu no meio

O erro me atrai, é foda

Foda-se, eu tô vivendo

Vou multiplicando o dote

Essa porra é pior que veneno

O cheiro da luxúria tomando o espaço

Caralho, eu já nem tô me reconhecendo’’

  • Luxúria
  1. Culpa

Essa foi a última faixa escrita para o álbum e é uma das que a artista faz questão de conversar com público e se emocionar em seus shows.

‘’Ela veio em um momento que eu estava sofrendo muito por conta de julgamento e problemas pessoais de várias pessoas comigo. E no fim das contas isso falava muito sobre as pessoas e não sobre mim, sabe? Eu carregava algo que não que eu não precisava carregar que era essa culpa. E aí quando eu entendi que eu fiz o meu melhor e não preciso estar carregando essa culpa comigo. Não sou uma pessoa ruim, conheço o meu coração e minhas intenções, eu só não atingi expectativas alheias, foi a hora que eu falei ‘eu preciso comunicar as pessoas que eu não carrego mais essa culpa comigo’ que tipo assim, se você tem um problema comigo lide com ele você, porque eu já lidei da melhor maneira comigo. Culpa fala muito sobre isso é uma música que tem uma importância muito grande pra mim, foi uma música que me doeu muito e que me fez chorar horrores quando eu escrevi, mas que foi a música que me fez saber despertar para realmente ser quem eu sou sem me importar com absolutamente nada e não me sentir culpada por isso.’’

‘’Por que faz assim?

Se eu não tenho culpa, como posso ser ruim?

Eu já dei um basta, juro é por respeito a mim

Já quis ver sua queda, hoje quero ser feliz, viver por mim…’’

  • Culpa

4 e 5. A Matemática da Malícia

O álbum conta com faixas como Matemática e Malícia, músicas que se completam. N.I.N.A explica que Matemática é como se fosse uma crônica de uma experiência sexual vivida, como um storytelling. E em seguida inicia Malícia com uma descrição do que acontece no cenário narrado em Matemática. ‘’Malícia vem para explicar como esse ‘cálculo’ matemático foi feito.”

‘’E eu querendo um 69

Envolvida pelo sorriso do 157

Porra, descobri que ele só tem 19

Mó cara de tralha e eu ligadona que ele é 7

Meteu sério vem dar pro bandido de 18

E eu falando bofe, se liga, sou 22

Perguntou de onde eu era, eu falei do Corte 8

Liguei pra nada, deixa que resolvo depois’’

  • Matemática
  1. N.I.N.A

A faixa que fecha o disco remete a N.I.N.A um momento muito delicado da sua produção do disco. Foi um período de reabertura de cicatrizes, mas também de cura através do desabafo. Durante a sua fala é perceptível a emoção na voz.

‘’Ela me fez lembrar que eu sou a N.I.N.A, independente de eu me sentir como a Anna, sofrer como a Anna. Da Anna estar ali lembrando de onde eu vim, sim, eu lembro que onde eu vim, eu carrego isso comigo pra todo lugar que eu vou.  Mas eu tinha que lembrar da força que eu tinha, eu tinha que lembrar o que ‘A Bruta, A Braba, A Forte’ fez eu ser. De onde eu saí até onde eu queria chegar, e esse áudio me deu uma força surreal. Nina é uma música que fala sobre isso, como eu tirei força de onde eu não tinha pra conseguir chegar onde eu estou, e toda vez que eu vejo as minhas conquistas, vejo tudo que está acontecendo, principalmente, depois desse álbum sair, é uma coisa que me toca muito. Eu sempre vou escutar N.I.N.A porque ela me lembra que não foi em vão. Esse sofrimento todo não foi em vão”.

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