As origens de Delacruz, o último romântico

Desconstruí a persona musical de Delacruz para entender sua paixão por música, versatilidade e o novo som, Romântico 90, com MC Marcinho.

Por Gabriella Barros

Delacruz é a cara do Rio de Janeiro. Cria de Vigário Geral, Daniel Cruz, 24 anos, é neto de letrista de escola de Samba e filho de mãe artista. Toda a sua vida foi atravessada pela música de diferentes formas.

Acostumado a ouvir diversos ritmos musicais na família, o artista cresceu na época em que os grupos de Funk faziam sucesso no Rio de Janeiro. “Vem Quicando”, dos Havaianos, e “Sou Foda”, do grupo Os Avassaladores, eram hits que marcavam presença nas esquinas das periferias do Rio, e que motivaram o cantor à montar um grupo com amigos aos 11 anos de idade. Em conversa com a Brasa Mag, Delacruz brinca com a sua disposição atual na dança. Segundo o cantor, ele não teria mais o mesmo pique para fazer todas as dancinhas da época. O terror das festinhas de rua? Era ele! Quebrava tudo!

Falando sobre sonhos, vida e oportunidades, Delacruz reconhece sua exceção ao sair da periferia. Evidenciamos no nosso papo o quanto as oportunidades para quem vem da favela são cerceadas em meio a tanto talento.

Nem tô reclamando de nada, me queixando de nada. Foi muito tranquilo pra mim ter pai, mãe, avô, família unida. Mesmo sendo de família humilde, eu tive privilégio de ter nascido branco e nunca ter sofrido racismo, preconceito. É muito doido o buraco em que falamos, as pessoas que têm mais oportunidade fazem quem tem menos oportunidade acreditarem que elas tem zero. Vi na minha família.

foto © Vincent Rosenblatt

Com o nascimento do seu primeiro filho, Delacruz precisou administrar a paixão pela música entre os corres. Enquanto trabalhava numa loja de shopping, tinha a certeza de que queria viver de música e iria em busca de realizar esse desejo.

Foi um tempo trabalhando pra outras pessoas em que eu vi não era aquilo que eu queria fazer, tá entendendo? Pensava que ou eu ia viver de música ou eu ia viver de música, meu irmão. Esquece. Ali eu tive certeza que eu queria fazer música. Pensava que não ia passar o resto da minha vida ralando, sendo mandado e tendo que engolir sapo.

O berço artístico

Vindo de uma família de artistas talentosos que não conseguiram lucrar com a arte, o receio existia na mente de Daniel. A mãe de Delacruz, ex-dançarina de jazz, precisou privar alguns sonhos para seguir a vida, principalmente após o nascimento do filho.

Ela teve o sonho dela assassinado. Essa ferida, essa marca, ficou para todo sempre. Quando chegou a minha vez, ela de primeira não acreditou, porque fizeram ela desacreditar do sonho dela, cê tá entendendo? Minha mãe é manicure. Então, pô, imagina, quantos filhos de manicure de fato fazem sucesso e mudam a situação de vida? Falando de dinheiro com arte, com música.

Delacruz transparece tranquilidade com sua trajetória, pela serenidade da família e feliz com a história que constrói ao lado de sua esposa e filhos. Ao falar de sonhos, ele os enxerga por uma perspectiva coletiva e fala com seriedade: “Gabi, meu sonho não tem muito a ver comigo. Existe um buraco imenso, muito grande, um desequilíbrio gigantesco. Eu acho que meu sonho, de fato, é ver essa balança aí equilibrada, né? Falando de música especificamente. Que os artistas talentosos que venham de onde eu vim, de Vigário, que venham de Nova Iguaçu, tenham mais oportunidades. Tenham mais espaço, novos projetos, onde eles consigam entrar com facilidade, tenham pessoas ali pra encaminhá-los no destino deles, pra se tornarem profissionais de música.”

A amizade com Gu$t e o nascimento de Delacruz

Na transição da escola pública para particular, Delacruz teve a oportunidade de expandir seu repertório para ritmos além do Funk, Hip Hop, Samba e Pagode. Ele começou a se aproximar do Pop Rock, som que nas periferias não era o mais tocado. Nesse novo encontro musical, Gustavo, DJ Gust (hoje Gu$t), também surge como uma importante peça nesse jogo construtivo.

Daniel e Gustavo são amigos de escola. O atual produtor foi quem ensinou Delacruz a tocar violão. Depois disso, resolveram criar um grupo de Pop Rock, ritmo que a dupla ouvia com frequência. Conforme o tempo foi passando, a onda do Hip Hop nacional abraçava a juventude. E consequentemente, Gu$t e Delacruz resolveram se aventurar nas rimas.

Enquanto o cantor aprimorava sua métrica, Gu$t mergulhava nos programas de produção musical e era orientado por tutoriais online e equipamentos de produção. Nesse momento, as influências foram primordiais na construção do Delacruz. Nas produções, os dois faziam questão de depositar referências musicais diversas, o que resultou num som melódico, carioca e popularmente brasileiro.

A cada som novo, a paixão crescia, mas as dificuldades também eram presentes. No tempo em que a dupla morou num estúdio, perceberam que precisavam dar “200%” nesse sonho que se projeta numa estrada cheia de incertezas, segundo o cantor.

Entre o desejo e insistência em ser notado, os resultados começaram a aparecer. A música “Gaviões” se transformou na “Sobre Nós”, hit do projeto Poesia Acústica 2, em 2017, que abriu as portas para o cantor. Enfim, o momento tão esperado se aproximava: Delacruz era um sucesso, e conseguia guiar seu destino com a grana que era fruto do som que fazia. E o Gu$t, claro, junto dele.

O bagulho é música

Influenciado pelo que consome e sempre aberto para novas referências musicais, o seu trabalho é marcado por batidas, instrumentos, melodia, muita voz e sentimento. No nosso papo, eu – que amo bandas – precisei levantar essa ideia. Daniel fala com orgulho da mãe, fã de Anderson Paak e outros artistas da atual geração.

A favor do som orgânico, Delacruz analisa: “A mão humana tem uma coisa que a máquina não tem, que é sentimento, que é fazer uma reprodução de acordo com a energia que tá ali naquele momento.” Quando temos a possibilidade de unir e expandir experiências, musicalmente falando, é bonito de se ouvir e fazer, resultando em uma experimentação coletiva.

Mesmo com sua sensibilidade, Delacruz conta que sentiu a necessidade de estabelecer um terreno seguro e estável para lançar seus trabalho. “Romântico 90”, música lançada com MC Marcinho recentemente, já estava pronta há dois anos, só aguardando uma oportunidade de ganhar vida na voz do funkeiro.

Eu diria que sou bom em escrever [sobre] sentimentos. Sempre escrevi sobre amor, já me arrisquei em composições de cunho político, mas me acho bem melhor falando sobre isso. Até porque tem gente com mais propriedade pra falar sobre isso [política], e que fala muito bem.

Foto por Vincent Rosenblatt

Delacruz e sua mãe são fãs de Marcinho. Através de um cover feito pelo cantor, ele viu a oportunidade de uma colaboração com o ídolo.

Essa realização foi a oportunidade de unir grandes nomes do Funk no clipe dirigido por Sandiego Fernandes. O trabalho contou com Veronica Costa, a Mãe Loira, e as duplas Cidinho & Doca e William & Duda. A presença ilustre da mãe, que atuou na figuração do ballet, foi um ponto focal para Delacruz.

“Ver a reviravolta da vida e ela agora participar do meu clipe com a galera da geração dela… Tenho certeza que ela se sentiu representada. Maravilhoso. E, pô, conseguimos resgatar essa veia artística dela, tava ali no rosto dela o quanto tava feliz.”

Com “Romântico 90”, Delacruz consegue resgatar suas primeiras referências musicais e assina a marca artística multifacetada, que consegue tocar corações de uma forma especial.

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