Beyoncé é rapper?

O não reconhecimento de mulheres negras como importantes ícones na história do Hip Hop ainda é uma realidade bem triste. Uma das grandes discussões sobre esse assunto na internet, é se a Beyoncé é ou não é rapper .

Uma das primeiras coisas que precisam ser faladas sobre esse assunto, é que sim, a Beyoncé é rapper mas também é uma cantora pop – e que cantora!

Para entender como ela pode ser as duas coisas, e considerada nenhuma delas ao mesmo tempo, precisamos voltar vários passos e entender uma outra problemática nesse tema.

Nos anos 90, quando rolou o boom do Rap no mundo, o Hip Hop se tornou um grande clube do bolinha, que envolvia desde o ouvinte até o empresário por trás das gravadoras e selos da época. A tática misógina era: empurrar as rappers para outros gêneros, normalmente o pop e o R&B, e no lugar delas, investir em um rapper masculino que fosse mais vendável para o público.

Ou seja: o boicote as carreiras femininas no Hip Hop acontece desde muito antes do que a gente imagina. Isso também explica porque entre os anos 90 e 2000, tivemos uma explosão de de cantoras e grupos de mulheres negras no pop e R&B, algumas que amamos até hoje, como Aaliyah, Ciara e, óbvio, as Destiny’s Child.

Em 1992, Beyoncé, LaTavia, Nina, Nikki, Kelly e Ashley apresentaram em um programa de tv americano chamado Star Search, marcando o começo da carreira pública das Destiny’s e da Queen B.

Na ocasião, elas foram apresentadas como um grupo de Hip Hop, e se chamavam Girls Tyme. Inclusive, essa apresentação está no início de **”*Flawless”, lançada no quarto álbum de estúdio da Bey.

A primeira aparição oficial da Beyoncé como A Beyoncé dentro do Rap foi em 2001, quando ela atuou na versão Hip Hop da ópera “Carmen” produzida pela MTV.

Bey Lançou um diálogo em rima com ninguém mais ninguém menos que o Mos Def, Wyclef Jean, Jermaine Dupri e Da Brat, chamado “If Looks Could Kill (You Would Be Dead)” e mostrou pro mundo a que veio: entregou flow, letra, ritmo e atuação em apenas 2 minutos de cena.

Depois disso, flertou muito com o Rap e o R&B, mas a primeira referência inegável role em 2006, no álbum B’Day, que teve como produtores o Neptunes e Swizz Bizz, dando uma lapidada no talento da rainha. Isso fica bem óbvio na música “Kitty Kat”. As punchlines, a marcação de tempo, a atitude e as rimas mostram por a+b que ela é bem mais que apenas uma cantora pop.

Todos os álbuns lançados por ela entre 2006 e 2013 tem pelo menos um rap. Mas, o que realmente quebrou paradigmas foi quando a B lançou “Bow Down/I Been On” no seu SoundCloud, uma demo que hoje conhecemos como parte da intro de ***Flawless”. E que carrega a mesma métrica de Houston que vemos em “Yoncé”, outro interlúdio do álbum “Beyoncé”.

A mistura de todas as influências do rap de Houston e todas essas vivências dela indo e vindo do rap como conhecemos, é vista claramente durante todo o álbum “Lemonade”, de 2016, mas principalmente em “Formation”.

Além de Beyoncé rimar acima do patamar, ela também saiu do lugar de diva intocável e gritou sobre o preconceito e violência policial vivida pelos negros americanos, inflamada por casos como o do George Floyd.

A mesma atitude, letras e talento de 2001, mas mais madura e lapidada.

Parando para olhar com calma toda sua trajetória até a artista que conhecemos hoje, é impossível não dizer que ela cantora E rapper. A grande questão é que ela, como a grande maioria das mulheres negras até hoje, sofreram um massivo boicote e foram empurradas para o pop e o R&B para darem lugares a homens.

E esse reconhecimento é tirado delas inclusive nas premiações. Ela, como a maioria dos artistas de Hip Hop, foi empurrada para categorias como “Música Urbana” ou “Cantora de R&B”, mesmo em produções que são claramente raps. Em 2017, o “Lemonade” ganhou prêmios na Billboard como “Melhor Álbum de R&B”, mesmo não sendo um. Curioso, né?

Disse tudo isso para apontar que: mesmo quando falamos de artistas gigantes, como a Beyoncé, mulheres negras ainda são contestadas em suas carreiras no rap. Mesmo depois de anos se dedicando a cultura, parece que nossos avanços nunca são o suficiente, a não ser quando estamos acompanhadas de homens com nomes importantes.

Compartilhe nas suas redes sociais

Share on facebook
Share on twitter

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Somos veículo de revolução