Blaxploitation, horrorcore e o hip hop

Por Gabrielle Neves

O cinema é um das principais ferramentas de influência social e manipulação de informações que possuímos pois afeta, transforma e cria – através da construção imagética – crenças, medos e percepções. É através do entretenimento que estereótipos são criados e o racismo é alimentado.

A década de 30 marcou o fim a era do filmes mudos (1800-1920) pois finalmente imagens em movimento foram unidas à um sistema de som sincronizado e marcou o inicio da conhecida era de ouro de Hollywood.

Nesse momento ocorreram diversas produções que além de popularizar o cinema ao redor do globo também mostravam a grandiosidade do audiovisual. Entretanto, desde 1895 já existiam filmes mudos e curtas, entre muitas aspas, antropológicos que geraram um ciclo de representações desumanas de pessoas não-brancas e suas culturas.

São nos filmes que conceitos sociopolíticos de raça, como a demonização de práticas culturais que fogem da branquitude cristã, são trabalhados. Neles as dinâmicas raciais evidenciadas a partir da visão racista do homem branco – o bicho papão preto (O nascimento de uma nação, 1915), sexualidade animalesca, de mulheres negras (Ingagi, 1930), o homem negro como predador sexual insaciável e agressivo (King Kong, 1933), superioridade racial branca (Planeta dos macacos, 1968), religiões “nativas” como sinônimos de degradação (Coração Satânico, 1987) e a constante ameaça contra mulheres brancas (Candyman, 1992).

Dentro desse contexto, o cinema negro emerge como um fenômeno autossuficiente que visa a retomada de narrativa e representatividade, utilizando-se das tradições culturais e normas expressivas da própria comunidade negra.

Para conversar sobre os temas rolou uma entrevista com a escritora nacional Naiara Medeiros. A autora do livro Onde as Velas Incendeiam nasceu em São Carlos, no interior de São Paulo, é graduanda em Letras, professora de inglês e uma pessoa que tem muito a falar sobre blaxploitation, horrorcore e hip hop.

Blaxploitation

Hollywood sempre estava produzindo filmes para entreter a população e gerar lucro, então simultaneamente as grandes produções milionárias existiam, aquelas feitas com baixo investimento, totalmente nichadas, de baixa qualidade e um conteúdo apelativo.

Dessas produções recorrentes nasceu o gênero exploitation que durou do final da década de 60 até o final da década de 80.

Um dos subgêneros do exploitation é o blaxploitation, voltado para a comunidade urbana afro-americana, que tem seu nome a partir da junção da palavra “black” somado ao nome do gênero.

Blaxploitation ganhou mais visibilidade nos anos 70, onde a luta pelos direitos civis berrava em pleno pulmões, por ser um meio onde artistas negros podiam fazer seu ativismo através de suas artes.

Entretanto, o gênero é extremamente criticado por diversos lideres do Movimento Negro que alegavam um reprodução desenfreada de estereótipos sem nenhum real intuído a não ser a monetização. Naiara fala sobre de maneira pontual: “[…] Por ser um gênero que tinha como intuito centralizar os negros em suas histórias, assim como abordar situações do dia a dia com ironia, humor ácido e colocando personagens brancos como secundários nas narrativas, por mais que o blaxploitation tenha sido, por vezes, controverso e criticado por outros líderes negros é inegável que esse movimento trouxe consigo uma herança que não pode ser contida nem apagada, onde tanto personagens quanto criadores negros, não só podem como devem construir suas narrativas e redigi-las para muito além de um olhar branco e reducionista.

Um dos marcos do gênero é a retomada de narrativa ao trazer heróis e antiherois negros, vilões brancos e contextos que o público branco nunca entenderia, isso sem mencionar as trilhas sonoras que foram produzidas por legendários artistas de funk, R&B e soul.

A fórmula mágica das trilhas sonoras

Os anos 70 foram marcados por diversos acontecimentos significativos pois além do surgimento do blaxploitation, a batalha dos movimentos políticos em busca dos direitos civis ocorria e o hip hop nascia.

Sweet Sweetback’s Baadasssss Song (1971) de Melvin Van Peebles carrega o título de primeiro filme a ser classificado como blaxploitation mas foi Shaft (1971) que marca a conexão do gênero cinematográfico com o hip hop.

Shaft foi dirigido pelo fotógrafo Gordon Parks, que retratava a comunidade negra estadunidense durante a luta pelos direitos civis nos anos sessenta – o trabalho de Gordon foi usado como referência por Kendrick Lamar para ilustrar “ELEMENT.” – e a trilha sonora ficou por conta de Isaac Hayes, nada mais nada menos do que um dos maiores artistas da época.

Theme from Shaft” tornou Hayes o primeiro negro a ganhar o Oscar de Melhor Música Original, o impacto da música fez com que seus elementos fossem sampleados por grandes nomes do rap, como Ja Rule, Jay-Z, Big Daddy Kane, N.W.A, Public Enemy, LL Cool J e Wu-Tang Clan.

Após o Oscar de Isaac diversos diretores de filmes começaram a chamar nomes conhecidos para cuidarem de suas trilhas sonoras pois entenderam a importância da música em suas produções, como foi pontuado pela escritora: “[…] Para além disso, nas produções audiovisuais é inegável que uma boa escolha de músicas faz toda diferença para a atmosfera que será criada em uma cena, pra coerência da produção e também pra identidade de um todo ou de uma personagem em especial. Na minha opinião, escrita, música e cinema sempre andam juntos

Em 1972, Trouble Man trouxe Robert Hooks para dar vida a Mr.T e Marvin Gaye para dar vida a trilha sonora do filme.

O disco recebe o mesmo nome do filme e foi um marco na carreira de Gaye, diversas músicas do álbum foram usadas posteriormente no hip hop internacional, como “Poor Abbey Walsh” sampleada em “Tô Ouvindo Alguém me Chamar” do Racionais MC’s.

Também em 72, Across 110th Street foi lançado e sua música tema, de mesmo nome, ficou em 19º na Billboard – sendo reutilizada na homenagem de Quentin Tarantino ao blaxploitation no filme Jackie Brown estrelado por nada mais nada menos do que Pam Grier, protagonista de Coffy, um dos maiores nomes do gênero.

Across 110th Street foi sampleada mais de 30 vezes somente nos anos 90, passando por grandes nomes como Big K.R.I.T e Raekwon.

Também naquele ano, Super Fly foi um enorme sucesso e teve sua trilha sonora feita por Curtis Mayfield, sendo uma das trilhas mais sampleada na história do hip hop.

Influências

No blaxploitation a maioria dos personagens icônicos são antiheróis, a construção dessas personas é feita para gerar fascínio através da conexão com a realidade das comunidades locais, por exemplo, esses personagens não utilizavam os meios legais para atingir seus objetivos, alcançar vingança ou de proteger aqueles com que se importavam.

Essa fórmula cinematográfica foi usada por diversos diretores como Quentin Tarantino, que além de ****utilizar majoritariamente música preta em seus filmes também colocou diversos atores negros em evidência através de papeis que fugissem de estereótipos, como Samuel L. Jackson.

Blaxploitation mostra como a cultura pop e o hip hop sempre andaram de mãos dadas, pois a sua influência em filmes e séries atuais, como Luke Cage, tem o rap em suas trilhas sonoras e isso faz com que diversos cantores sejam colocados em evidência.

Além disso o gênero gerou uma influência estética onde seus personagens são usados nas personas e no eu lírico de diversos rappers. Os discos Twelve Reasons to Die do Ghostface Killah com Adrian Younge, carregam um sentimento setentista clássico do blaxploitation e a estética de 50cent é baseada em Priest, personagem principal de Super Fly.

So Many Pros do Snoop Dogg recria capas dos maiores filmes do gênero em seu clipe.

O blaxploitation é extremamente amplo pois também possui obras voltadas para o terror e esse terror cinematográfico também gerou influências no meio musical. Um dos maiores exemplos é o clássico clipe, quase um curta, Triller de Michael Jackson que bebe dessa fonte.

Filmes de terror blaxploitation foram decisivos na criação da estética que permeou um novo subgênero do rap: o horrorcore

Horrorcore: o terror no hiphop

Dentre todos os gêneros, é no terror que questões raciais são um dos principais focos de debate. Ele tem seus filmes classificados como “filmes B” (de baixo orçamento) pois existe um senso comum que o gênero se alimenta do caráter apelativo voltado à sanguinolência através de produções de baixo orçamento.

Entretanto, esse entendimento ocorre como uma maneira d as evidências da dicotomia do gênero, de um lado temos o terror que introduz a noção da negritude como algo monstruoso a ser temido e/ou combativo e do outro existe o terror que foi revelador na infinidade de tópicos sobre a negritude.

Dentro desse entendimento, nos anos 80 faixas como “Nightmare On My Street” de Jazzy Jeff & The Fresh Prince, “Nightmares” de Dana Dane e “Adventures of a Super Rhyme” de Jimmy Spicer começam a trilhar o caminho do horror rap mais conhecido como horrorcore.

Esse subgênero do rap que tem suas raízes no gangsta rap e no hip hop hardcore, o eu lírico baseado em filmes de horror/terror e uma espinha dorsal fomentada na ultraviolência. Sua sonoridade bebe de diversas fontes como o techno e screamo.

Um dos grandes nomes do gênero é o grupo Geto Boys que influenciou todos aqueles que vieram depois. O marco do horrorcore começa em 1988, com a faixa “Assassins” do Geto Boys que tem sua narrativa baseada nas histórias de vingança do gangsta rap para construir a história de um serial killer.

Depois de Assassins diversos outros artistas nasceram no horrorcore e outros se inspiraram no gênero para produzir diversos trabalhos como: DMX, The Game, Denzel Curry e Tyler, the Creator.

“Quanto ao Horrorcore […] é outra proposta que muito me atrai. Primeiro, por unir duas coisas que eu amo, segundo, por potencializar um lado do rap que pode até não ser considerado muito comum e terceiro, pela incrível habilidade de conseguir um storytelling que para além da letra musical ainda consegue se centrar na construção do horror e/ou o horror cantado. Também acho muito interessante pensar que o horror é tão presente em diferentes estilos musicais […] A narrativa de horror e a música se mostram amplamente conectadas em diferentes épocas e a diferenciação entre as visões sobre a realidade e sua conjunção ao insólito só enriquecem ambos os gêneros. A música é cíclica. O horror é cíclico. E é incrível e ao mesmo tempo aterrorizante que em todos esses períodos ainda há o que se criar em torno dos medos reais e dos medos fantásticos.”

Para escutar todos os sons citados nessa matéria é só conferir nossa playlist:

Confira na integra a entrevista completa com Naiara Medeiros

E ai, me fala um pouco de como surgiu seu interesse na escrita

Eu sempre costumo dizer que não consigo me lembrar de uma época onde não estive interessada na escrita e creio que é isso que acontece quando você não se vê fazendo outra coisa. Gostava muito de escrever desde criança e isso se aflorou ainda mais quando eu tinha mais ou menos uns 10 anos e, ao longo da vida escolar, era notável que as partes do currículo que mais me interessavam eram as partes de escrita e linguagens. Atualmente, aos 22 anos, para além da escrita, ainda sou professora de Inglês e Graduanda em Letras (duas áreas que ainda me fazem escrever bastante), entretanto, a escrita continua sendo a parte mais interessante da minha vida, por mais que eu ainda não tenha condições de me dedicar unicamente a ela.

O que te atrai no terror e no horror? E como isso se relaciona com a sua vida?

“Eu fui criada no meio de dois irmãos bem mais velhos, então, assistir filmes de terror sempre foi um eixo de ligação entre eu e eles na minha casa, ainda que a maioria dos filmes fossem totalmente contraindicados para a minha idade. Cresci consumindo muita coisa desse meio desde os filmes sobre possessões até os filmes mais gore cheios de sangue, tripas caindo e os afins mais sórdidos possíveis. No começo, o que mais me atraía no terror/horror era a presença do susto, do sobrenatural e como tudo aquilo muitas vezes balançava a minha fé nas mais diversas coisas e me trazia os questionamentos sobre o que era real, se Deus ainda nos protegia e quais as possibilidades de estarmos frente a frente ao mal nas suas diversas formas. Com o passar dos anos e das novas produções e uma representação negra nesse gênero muito mais coesa, interessante e multifacetada, o horror me pareceu um solo extremamente fértil para se falar sobre medos reais e as mais diversas problemáticas sociais que nos assolam feito qualquer outro demônio. Ademais, creio que uma das coisas que mais me atrai no horror é a possibilidade de lidar com as minhas próprias feras e também criar as contra narrativas que nem sempre são possíveis dentro de uma realidade”

Qual a importância da música, mais precisamente o hip hop, na sua vida?

“A música foi um dos motivos de eu começar escrever. As primeiras histórias que comecei a postar na internet eram fanfics, então, há intrinsecamente uma conexão entre música e a minha escrita. Apesar do hip hop e o r&b terem sido muito presentes na minha infância, posso dizer que o hip hop se tornou muito mais importante na minha vida nos últimos 5 anos mais ou menos. Eu era uma assídua fã de rock na pré-adolescência/adolescência (sou até hoje), então, isso acabava me distanciando do hip hop por sentir que nada conseguia me alcançar tanto quanto as minhas bandas favoritas. E, óbvio, quando se é adolescente ou você é do pop, ou do rap, ou do funk e eu, decisivamente, achava que seria só do rock n’ roll. As coisas mudaram muito ao longo que fui crescendo e o hip hop se fez um dos meus maiores suportes diante do meu reconhecimento como uma mina preta, o que também recaiu sobre minha forma de ver o mundo e escrever. Dessa forma, eu posso afirmar que se não fosse pelo hip hop eu não teria me descoberto mais a fundo e nem entenderia muita coisa até hoje”

Como escritora e uma mina que consome diversos tipos de produções audiovisuais, como você enxerga a importância da música nesses roles?

“Pra mim, um tipo de expressão artística quase sempre está ligada a outra. Música sempre foi essencial para o meu processo criativo e pra dentro das minhas histórias, eu gosto muito de dar referências musicais em quase tudo que escrevo. Para além disso, nas produções audiovisuais é inegável que uma boa escolha de músicas faz toda diferença para a atmosfera que será criada em uma cena, pra coerência da produção e também pra identidade de um todo ou de uma personagem em especial. Na minha opinião, escrita, música e cinema sempre andam juntos”

Queria saber um pouco mais da sua visão sobre o blaxploitation e o horrocore.

“Por mais que blaxploitation tenha tido seu apogeu e “declínio” tão rápido quanto a sua subida, seu legado dentro das produções negras é palpável e eu diria que, indiretamente, até mesmo o que eu escrevo tem sua influência. Por ser um gênero que tinha como intuito centralizar os negros em suas histórias, assim como abordar situações do dia a dia com ironia, humor ácido e colocando personagens brancos como secundários nas narrativas, por mais que o blaxploitation tenha sido, por vezes, controverso e criticado por outros líderes negros é inegável que esse movimento trouxe consigo uma herança que não pode ser contida nem apagada, onde tanto personagens quanto criadores negros, não só podem como devem construir suas narrativas e redigi-las para muito além de um olhar branco e reducionista. Por mais que não estejamos na “era do blaxploitation” as produções afrocentradas da atualidade tem cada vez mais resgatado a importância da pluralidade de narrativas sobre a negritude e a importância de nos subjetivar como donos de nossas próprias histórias, o blaxploitation dentre seus muitos intuitos teve uma pegada parecida nos anos 70 e espero que consigamos potencializar isso ao longo dos anos.

Quanto ao Horrorcore, também conhecido como horror rap, é outra proposta que muito me atrai. Primeiro, por unir duas coisas que eu amo, segundo, por potencializar um lado do rap que pode até não ser considerado muito comum e terceiro, pela incrível habilidade de conseguir um story-telling que para além da letra musical ainda consegue se centrar na construção do horror e/ou o horror cantado. Também acho muito interessante pensar que o horror é tão presente em diferentes estilos musicais, no final da década de 70 tivemos uma explosão do Horror Punk e daí veio uma das minhas bandas favoritas, Misfits e, como subgênero do Rap veio o Horrorcore no final da década de 80. A narrativa de horror e a música se mostram amplamente conectadas em diferentes épocas e a diferenciação entre as visões sobre a realidade e sua conjunção ao insólito só enriquecem ambos os gêneros. A música é cíclica. O horror é cíclico. E é incrível e ao mesmo tempo aterrorizante que em todos esses períodos ainda há o que se criar em torno dos medos reais e dos medos fantásticos.”

E como você vê o rap bebendo e alimentando esses meios?

“Pra falar sobre isso eu queria dar dois exemplos que eu acho sensacionais pra pensarmos na conexão da música com o horror e vice-versa. Na trilha sonora do filme US de Jordan Peele, I Got 5 On It é o tema principal, a música que, anteriormente, era um clássico moderno dos anos 90 feito pelo duo LUNIZ se tornou uma marca do horror atual e após ouvir esse som e ver o filme é impossível ouvir sua intro e não sentir a pele arrepiar, seja pela força do som ou pelo sentido que atribuímos a ela depois dessa produção audiovisual.

E, outro exemplo e indicação é o álbum TABOO (2018) do rapper Denzel Curry, o rapper bebe de diversas fontes do horror tanto na estética do álbum quanto nas letras fazendo referências de personagens criados por Stephen King, nome emblemático do horror. Nesses dois casos nota-se como o rap tanto bebe quanto alimenta esses meios e, com certeza, também quebra a ideia de que exista um gênero musical único capaz de combinar com o horror (que muitas vezes foi o rock ou aqueles instrumentais quase obsoletos feito para dar sustos quando a melodia atinge seu ápice) e ainda colabora positivamente para vermos que as referências dos rappers também estão além do nicho ou do status quo que se espera desses músicos na cena do hip hop.

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