Como o rap de 2pac absorveu a filosofia de Maquiavel

Analisamos os conceitos e trajetória do rapper até o álbum “The Don Killuminati: The 7 Day Theory” onde o artista havia assumido a persona de ‘Makaveli’

Por: Carol Brito e Mari Paulino

A vontade de escrever esse texto surgiu após uma conversa com um amigo que é muito fã de 2pac e que por isso resolveu iniciar a leitura do livro O príncipe, de Maquiavel. Essa inspiração está  presente no álbum The Don Killuminati: The 7 Day Theory (1996)

O rap sempre trouxe letras, filosofias e apresentou grandes pensadores para o público. Além de tudo isso, ainda tirava onda e mandava aquele recado para os seus rivais. 2pac era o rei da caneta, em duas semanas escreveu o primeiro álbum duplo da história do rap, All Eyez On Me (1996).

Desde os primeiros passos de sua carreira ele sempre passou a visão sobre violência policial, sobre mulheres negras, drogas e todas as mazelas que estão presentes no cotidiano dos pretos, mas ele elevou o nível do game com diversas teorias conspiratórias em suas músicas.

Em suas múltiplas faces, o rap tem uma característica (das que achamos mais geniais) que é de se apropriar de conceitos complexos em suas letras. Isso é importante demais, já que o estilo, para muitos de nós, é o despertar pro mundo. Um exemplo: os Racionais Mc’s contavam para a periferia o que era viver nas periferias do Brasil nos anos 1990, com um vocabulário “de irmão pra irmão”, mas enriquecido por ideias que geralmente são estudadas pelas Ciências Sociais, como genocídio, holocausto e diversas outras.

A partir dessa linha de pensamento, fomos atrás das referências que 2Pac usou no seu último álbum e construímos esse texto que conta quem foi Maquiavel e 2PAc, e tenta decifrar, a partir da nossa interpretação pessoal, como surgiu Makaveli e qual a mensagem de The Don Killuminati: The 7 Day Theory.

Maquiavel , o cenário

O filósofo italiano, Maquiavel (1469 – 1527), produziu uma obra tão  marcante que tornou-se adjetivo: Maquiavélico. Nascido em Florença, capital da região Toscana, na Itália,  em 3 de maio de 1469, filho de legislador, teve contato com a política ainda na infância. O contexto social em que viveu, durante a sua vida, refletiu diretamente na sua produção intelectual. Falando do lado cultural, era o período denominado Renascimento (séculos XV e XVI), onde artistas e estudiosos tentaram redirecionar o que entendiam como saber.

Ao mesmo tempo, a Itália passava por agitações entre os agentes públicos, devido a conspirações e conflitos com a França e a Espanha. O território italiano não era uma nação unificada, eram diversas repúblicas ou principados comandados por governantes que oscilavam entre a manutenção da paz ou da guerra. Foi nessa época também que a igreja e o Estado começaram a se unir.

Maquiavel foi nomeado para um importante cargo público aos 29 anos, chanceler da república de Florença, que, futuramente, lhe renderia uma prisão por suspeita de conspiração contra o governo dos Médicis. Lá, foi preso e torturado. Após isso, o filósofo, que até então, era somente um diplomata, é exilado e começa a escrever suas obras. Ao longo de sua vida, Maquiavel foi, além de filósofo e diplomata, historiador e dramaturgo, isso mesmo, ele escreveu algumas peças de teatro, A mandrágora é a mais famosa de todas. Entre as suas publicações mais populares, estão A Arte da Guerra (1517 a 1520) e O Príncipe (1532), que é fundamental para a construção desse texto, jaja você vai entender o motivo.

Quem já tentou ler alguma coisa de Maquiavel, percebeu o quanto é difícil entender alguns conceitos, ou trechos, daí surgem as soluções: ter um dicionário ao alcance das mãos, consultar resenhas e por aí vai. Do livro “O Príncipe”, é importante você entender, de forma curta e grossa, que a essência é sobre unificar um território que estava dividido e assim derrotar o inimigo comum, que eram as forças de fora. Em uma das traduções da publicação, Maquiavel é descrito como alguém que utilizou sua experiência prática (lembra que ele teve um cargo público?) e criou o que pode ser interpretado, entre outras, como um manual de como fazer política, focado na legitimação do governante.

O autor foge das ideias tradicionais nas ciências políticas  de pensadores como Platão e Aristóteles, e foca em possibilidades mais realistas. As propostas de Maquiavel são possíveis de  adaptar para diferentes realidades, na ordem e na barbárie e também para diferentes perfis de líderes, justos ou tiranos. Essa fluidez é uma das revoluções da obra.

De 2pac a Makaveli

2pac nasceu com nome de guerreiro. Filho de um casal de Panteras Negras, Tupac Amaru Shakur veio ao mundo em 16 de junho de 1971 em Nova York, um mês após Afeni Shakur ter sido absolvida da acusação de “conspiração” contra o governo americano. Ainda pequeno, seus pais se separaram e ele ficou viajando pelo país com sua mãe até chegar em sua amada “California Love”. Até os 17 anos, Pac pode estudar em boas escolas de arte, teve muitos acessos ao mundo diferente do qual ele havia nascido. Conheceu sobre arte, jazz, Shakespeare, balé… tudo o que um garoto branco tem direito. Dentre toda sua vivência, dor, paranoias, êxito, 2pac usou sua arte com maestria. Levou seu conhecimento para os seus. Transformou vidas, começando pela dele.

Sua evolução, conforme ia se firmando na cena do rap gangsta dos anos 1990, foi notável. Sempre trazendo pautas importantes, sua mente funcionava como uma máquina. Em sua curta jornada na terra ele nos deixou de herança 5 álbuns em vida, 8 álbuns póstumos, 15 filmes e inúmeros conhecimentos que renderam diversos documentários, curtas, séries e filmes.

Com uma mente tão brilhante e a frente do seu tempo, vem um preço muito alto. Uma grande cobrança interna misturadas com conflitos raciais, violência e muito ego em uma cena corroída por um rivalidade de gangues onde negros matavam negros, algo muito diferente do ambiente de um Pantera Negra.

Pac deixou um lado desse conflito ganhar após ser baleado pela primeira vez, mas nos perguntamos: e quem não? A paranoia entrou e mesmo assim continuou fazendo músicas geniais, mas dessa vez com muito mais agressividade e era isso que o público gostava. Essa canalização de sentimentos ruins e muito talento com todo o cenário das periferias americanas criaram o Makaveli.

Mergulho em The Don Killuminati

O álbum The Don Killuminati: The 7 Day Theory foi lançado em novembro de 1996, dois meses após o assassinato de 2pac, é o quinto da carreira do artista e tornou-se um dos trinta mais vendidos da história do rap. O trabalho impactou o público desde a capa. 2Pac, agora, Makaveli, aparece sendo crucificado o projeto foi materializado pelo artista nascido em Compton,  Ronald “Riskie” Brent, que era contratado da gravadora Death Row. Um ponto interessante é que foi durante a construção desse álbum que Pac começou a se aventurar e a participar do processo de produção musical.

Em algumas entrevistas, é possível perceber o quanto o rapper se sentia incomodado com as pressões e julgamentos da imprensa é isso que a cruz representa. A rivalidade entre a Costa Oeste e a Costa Leste estão simbolizadas na bússola desenhada no topo da cruz. É possível identificar os nomes de algumas cidades, que fazem referência aos guetos dos Estados Unidos. A ilustração traz também algumas marcas de tiro lembrando o atentado que 2Pac sofreu em novembro de 1994, quando levou cinco tiros em um assalto.  Um elemento importante na capa é a bandana na cabeça, que virou símbolo do rapper.

The Don Killuminati é descrito por alguns como um trabalho “sombrio”, leitura compreensível, mas para além das percepções sobre violência que algumas letras trazem, 2Pac mantém o diálogo com as mulheres negras que está presente desde os seus primeiros trabalhos. Durante os onze meses em que esteve na cadeia, ele também teve contato com escritos de Maya Angelou (1924-2014) e Sister Souljah, duas autoras negras, essenciais para as interpretações que ele fez do mundo nas doze faixas do álbum.

Uma característica fundamental no álbum são as citações.  White man’z world, por exemplo, encerra com algumas palavras do ativista Malcolm X. Hail Mary (que cá entre nós, tem um dos refrões mais marcantes de todos os tempos), inicia com um diálogo na prisão sobre vingança e remorso, que antecede as batidas de uma das músicas que se tornaria um dos grandes hits de Makaveli, nesse som há uma presença muito forte da fé cristã. Essa música serviu de inspiração para samples de J. Cole e Lil Wayne, e tem até um cover feito pelos brasileiros ADL (Além Da Loucura), Djonga e Leal.

Me and My Girlfriend, que foi sampleada por Jay-Z e Beyoncé, Eminem e Mariah Carey, e Just Like Daddy são duas love songs que quebram um pouco a atmosfera furiosa de The Don Killuminati. Em To Live & Die in L.A,  Makaveli homenageia sua quebrada querida, em um dos versos o rapper faz referência a influência dos mexicanos na cultura Hip Hop da Costa Oeste, pouco se fala sobre esse legado.

Makaveli, O Príncipe

A partir das falas de 2Pac, é possível perceber que  o atentado,  somado à prisão são os pontos chave para o nascimento de Makaveli: “Eles atiraram em mim. Antes disso eu pensava que nenhuma pessoa negra iria atirar em mim. Eu os representava. Eu acreditava que eu não devia temer a minha própria comunidade. (…) Mas isso não é verdade, eu sou apenas um homem, então eu comecei a pensar como eu mudaria e o que faria. Como eu faria com que eles se arrependessem de ter feito isso para mim. como eu poderia voltar 50 vezes mais forte e melhor.”

Quando ele foi questionado durante uma entrevista para o Vibe por que ele se renomeou Makaveli, Pac respondeu: “Foi isso que me trouxe aqui, minha leitura. Não é como se eu idolatrasse esse cara, Maquiavel. Eu idolatra esse tipo de pensamento em que você faz o que quer que o faça atingir seu objetivo.” Uma síntese do pensamento de Maquiavel, é a ideia de que os “fins justificam os meios”. 2Pac tatuou a palavra “Makavelly” no pescoço.

A partir da nossa interpretação, uma das ideias de “O Príncipe” que o rapper mais  expressou nas letras de The Don Killuminati foi a que está descrita no capítulo XVII, “Sobre crueldade, clemência e se é melhor ser amado ou temido”. Foi nessa parte do livro, que Maquiavel soltou a famosa frase: “Se é melhor ser amado que temido , ou temido do que amado. A resposta poderia ser que se deve querer as duas coisas, mas, como é difícil reuni-las, em tendo que faltar uma das duas é muito mais seguro ser temido do que amado.”

Essa opinião é talvez a responsável pelo surgimento do adjetivo Maquiavélico, que significa: “Que é ardiloso, astuto, velhaco, ou que é falso, desleal, pérfido”, segundo o Michaelis Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa.

Após ser alvejado por cinco tiros e um estúdio em Nova York, 2Pac estava atento, pois o laço de confiança que ele achou que tinha criado com os seus “irmãos” não era tão forte assim, ser amado não foi suficiente, por isso ele adotou uma postura mais combativa.

A letra de Bomb First, música de abertura de The Don Killuminati, fala sobre o poder de ser temido. Ele começa mandando um recado para os rappers Nas, Notorious B.I.G e Jay-Z, aquela treta da Costa Oeste vs Costa Leste (que vocês conhecem bem). 2Pac chegou  a culpar B.I.G pelo atentado de 1994.

Life of an Outlaw, sexta faixa do álbum, segue a mesma linha de The Bomb First. Em um dos versos Makaveli diz “eu sou um assassino, foda-se o mundo porque é assim que eles me deixaram, com cicatrizes, mas ainda respirando, acredite em mim”, mostrando que o rancor da sua nova personalidade nada mais era do que uma resposta a como o mundo o tratou até então.

Segundo as “teorias da conspiração” a partir de toda essa leitura de Maquiavel e o histórico de Pac, a solução teria sido forjar a própria morte. O álbum “R U Still Down? (Remember Me)”, que foi lançado em 1997, levantou bastante essa questão. Esse trampo que vem como uma voz do além de 2pac dizendo “Achou que eu morri? Então vai vendo”.

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