Uma caverna vermelha em Duque de Caxias: conheça a Leigo Records

A gravadora independente é movida pela criatividade e a paixão pela música

“Selo criado dentro de um forno minúsculo no centro de Duque de Caxias”. É assim que a Leigo Records se define. O quarto de ANTCONSTANTINO, DJ, produtor e cabeça da gravadora, é provavelmente o local mais barulhento da casa. Além de servir de cenário para diversas produções, é o coração da Leigo, fundada neste ano pelo produtor, que deseja usar o espaço como experimento para todos os sons, sem limitação de gênero no processo criativo.

AKA AFK, ANTCONSTANTINO, MASKOTTE, Bruno Kroz, Maui, Bine Shaq e KBrum na gravação do último Purgatorium. Foto por Wander Scheeffer

A cena brasileira da produção de Grime, Drill, entre outros, é fruto da influência da imigração de países africanos e Jamaica para o Reino Unido. Nos bastidores, a cena fomenta trocas constantes e muito aprendizado. A rede que ANTCONSTANTINO construiu durante seus seis anos de correria fez com que os lançamentos da Leigo representassem um antro de criações musicais com produtores, intérpretes, designers, fotógrafo, videomaker e cineasta muito competentes, que entendiam o propósito do projeto. Wander Scheeffer, Diogo Queiroz, Cabra, Kbrum, Meio Feel, Enigma, Policarpo, AKA AFK, Chediak, RHR e Dona Lilian são nomes que se destacam na listinha de gratidão e de desenvolvimento da gravadora, fazendo a engrenagem funcionar.

“Por mais que eu seja sozinho e seja a cabeça por trás da Leigo, eu dependo de várias outras pessoas, tenho vários outros amigos que me ajudam e isso meio que cria uma corrente… Tem minha mãe que podia não entender esse trabalho, mas ela me apoia, apoia os barulhos lá em casa”, conta Antônio.

Fotos: Arquivo Pessoal

Após a saída do Brasil Grime Show, a desaceleração da rotina ocasionada pela pandemia e o interesse em começar a tocar em vinil, ANTCONSTANTINO enxergou a possiblidade de fundar um selo para vender discos LP de Grime, Dubstep e outros sons através da conexão que tinha em outros países. O que ele não esperava é que o primeiro lote de discos – que foram comprados sem código de rastreio – se perderiam pelo mundo e iriam parar em qualquer lugar, menos em Caxias, na Baixada Fluminense, zona periférica no Rio de Janeiro. O acontecido fez com o que produtor desanimasse, mas foi através do desejo de Oliver Twist, DJ e produtor britânico, lançar um som no Brasil, que a Leigo Records tomou forma de um jeito inesperado.

“Ele chegou pra mim um dia e falou: ‘cara, arruma um selo no Brasil que eu quero lançar música por aí e quero que você seja responsável.’ E eu pensei em vários selos pra lançar, mas falei: ‘eu vou lançar esse bagulho tá ligado? Eu vou dar meu pulo aqui e vou lançar.'” – ANTCONSTANTINO

O projeto focado na venda de vinis se transformou em um laboratório para Antônio e seus amigos explorarem o Grime, Garage, Jungle, Dubstep e o que mais seja possível mergulhar. Apesar do nome que foi escolhido para representar o constante aprendizado musical, a Leigo Records quer dar aulas em lançamentos e qualidade, desde a ideia do som até o momento em que ele vai pra pista, segundo o produtor.

“Ser leigo não é ser burro. Eu prefiro ser leigo e acertar as coisas do que pagar muito de esperto e não saber nada, acho muito mais maneiro. E minha mãe falava muito ‘leigo’ dentro de casa, fala ainda.”

Fotos: Arquivo Pessoal

Nessa construção inicial, os grupos que ANTCONSTANTINO observou ao decorrer da vida foram primordiais. Selos como Guadalupe Distro, Laja Records e H.M.R.C são para ele referência de qualidade e trabalhos consistentes. Essas inspirações só somaram com o que o produtor já tinha em mente: fazer tudo com sua essência, com muita batalha de MCs, clash, marcação 4×4 nas rimas de intérpretes e conexão com os sons jamaicanos.

O objetivo é fazer popular sem apagar a história. Com a Leigo Records, Antônio quer explorar tudo o que gosta e não vê sendo feito. A meta é lançar tudo o que o produtor se identificar, se tratando de gênero ou de artista. Não tem essa. Se der pra ajudar um ou uma artista que ele vê talento, essa ajuda vai rolar.

Fotos: Wander Scheeffer / Arquivo pessoal

“Eu não ligo pra isso de ser conhecido ou não, a parada é ter o trabalho que eu me identifico, eu não gosto de lançar coisas pra gente eu nem ligo muito, tipo, eu gosto de números, todo mundo gosta pra memorizar dinheiro, mas ao mesmo tempo eu não sou tão apegada a números, eu me apego a importância que aquilo vai ter, tá ligado? É lançar a música e saber que aquilo ali vai vai fazer parte duma história ou vai conectar alguém, isso é o que me pega.” ANTCONSTANTINO

Quando converso com ANTCONSTANTINO sobre futuro e propósito, a palavra “underground rentável” surge como uma meta. Existe a consciência de que o que o selo faz é único e autoral, e de que estão entrando em um terreno recente no Brasil, com disposições diferentes.

A partir disso, a Leigo Records se conecta com seus ouvintes através do papo reto nas lives musicais na Twitch, nos lambes que estampam os lançamentos na rua, nas capas, produções e feats bem articulados. Assim como toda ideia independente, a gravadora se desenvolve a partir da persistência de quem ama e acredita no que faz.

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