Corre de Rua: Atleta do mundo

Se você cresceu em alguma quebrada, na sua memória devem existir lembranças de pessoas “cyclonadas” da cabeça aos pés, usando tênis Mizuno ou de grupos usando bonés, camisas e óculos Juliet, tudo da Oakley. Uma identidade visual que de forma natural foi apropriada pelo Funk Ostentação, vertente do Funk que tornou São Paulo a “capital das notas de cem”, no começo da década passada e que falava sobre dinheiro, carros e roupas ganhou espaço em todo o Brasil. O gênero foi fundamental para o surgimento da indústria do audiovisual voltada para o estilo. Um universo que influenciou Fernanda Souza a se tornar a multiartista criativa que é hoje.

Foto: Fernanda Souza (@correrua_).

“Eu era uma menina que andava com muitos meninos no ensino médio então eu já falava muito sobre isso. Por isso que manjo muito de um universo que é muito masculino, que são as “relíquias” e que geralmente são feitas para meninos. Hoje tem as minas que também puxam isso, mas antes era muito um universo mais masculino”, conta Fernanda. Relíquia, no dialeto paulista, quando relacionada à moda, refere-se justamente aos itens que eram usados antigamente pelos jovens das favelas.

No corre por todas as possibilidades que a criatividade abre, Fernanda Souza (@correrrua_) inspira. Ela é diretora de arte; consultora; fotógrafa; estilista; jornalista e bateu um papo com a Brasa sobre sua trajetória, formação, inspirações e sobre debates atuais da moda de rua.

Foto: Fernanda Souza (@correrua_)

A profissionalização na moda

A inspiração para trabalhar com moda não vieram só do Funk, mas também do Hip Hop. Fernanda recorda a importância de Dapper Dan, o estilista nova iorquino que teve a visão de unir as marcas de luxo com o Hip Hop, e os videoclipes que assistia foram fundamentais para direcionar sua carreira.

A migração do Grajaú para o centro da cidade de São Paulo foi essencial para direcionar sua carreira: “Eu comecei a pirar e compreender os clipes, as estéticas. Comecei a consumir essas coisas que não chegavam onde eu estava, comecei a me interessar mais e querer trazer isso pro funk. Principalmente quando eu vi que poderia ser possível. Quando também a Kondzilla começou a fazer clipes, eu pensava: mano os clipes podiam ser mais chave, podia ter muito mais o rolê de moda, podia ter editorial essas coisas.”

Apesar das referências e intertextualidades, Fernanda explica que a chave para quem quer ser criativo, seja na fotografia, na consultoria, no jornalismo ou no Funk, é a autenticidade e saber lidar com a própria humanização. “A diferença é encontrar sua estética. Um exemplo disso é a minha fotografia analógica nos bailes funk. Eu comecei a fotografar elementos da moda por meio da câmera analógica. E com isso eu trouxe a minha estética: ‘Pô, a CorreRua pega uma câmera analógica e vai pro baile funk fotografar os kit e falar de moda’. Então eu busquei uma estética e eu recomendo que também busque e que se dedique. Nós temos que nos dedicar, então não foque sem bochicho, foque nos trampo e marcha que o bagulho dá certo. É como dizem  a Tasha e a Tracie, foco no progresso que o meu robozão não dá ré”, aconselha.

Foto: Fernanda Souza (@correrua_)

Autodidata, contou que se profissionalizou sozinha, acompanhou e seguiu pessoas que já estavam na caminhada e que tinham sonhos parecidos com os dela e estudou marcas como a Palace e a Supreme. Ela cita as assistências que tem feito para pessoas que já estão na moda como fundamentais para o aprimoramento da sua arte. “Essas pessoas e algumas são incríveis comigo, me dão espaço pra fazer assistência e por meio dessas assistências que eu tenho feito, que enfim, não é valor de mercado de quem assina, mas é muito importante pra mim, porque eu acabo pegando noções que eu não tinha, não tinha, porque eu não tive acesso, não tinha, porque eu não tenho a profissionalização. Então é um corre de tipo assim, se vira, vambora”, destaca.

Essas são as meninas que os meninos gosta

Em dezembro de 2021, Fernanda lançou o editorial Essas São as Meninas que os Menino Gosta 011, o qual assinou a direção de criativa, a arte e o stylist. O trabalho foi feito ao lado de uma equipe majoritariamente feminina que colocou no centro a diversidade de mulheres que frequentam os bailes funk. E carrega a essência do funk no nome, “Essas são as meninas que os meninos gostam” faz referência a uma faixa da MC Menorzinha.

A multiartista criativa conta que a preparação para o ensaio foi sozinha: “Eu não fazia assistência pra ninguém. Foi tudo sozinha, estudando, vendo, me infiltrando, consumindo.” E escolheu esse como o momento mais importante da sua carreira. O editorial saiu na página da Lacoste, atingiu mais de 200 mil pessoas em sua página pessoal, além do engajamento auto na página das modelos. “Eu consegui bater no universo da galera do funk mesmo. Foi boom na quebrada mesmo, no nicho, não estou falando da galera desconstruída que ouve funk, eu estou falando de quem é do nicho. Bateu na galera da moda, bateu em artista, foi um marco pra mim porque bate todos os lugares e eu pude falar, ‘olha essa essa sou eu esse é meu trabalho, esse é o trabalho que a Correrrua desenrola.“.

Foto: Fernanda Souza (@correrua_)

Fernanda tem outros momentos incríveis na sua trajetória, um deles foi ter participado da série “Funkbol”, ao lado de nomes do funk como MC Hariel, MC Guime, MC Kekel, Livinho e astros do futebol como Gabigol, Guilherme Arana e outros, ela falou sobre a improtancia do estilo e do futebol para a moda e outras questões. Corre lá na Prime Vídeo pra dar um confere.

O processo de criação

Para Fernanda o processo de criação às vezes é complicado e pode demorar até dois anos entre a ideia e a execução: “Então eu tive ideia. Eu já queria fazer esse trabalho, só que depois que eu comecei a me jogar, a me inserir no meio do audiovisual, eu fui estudar sozinha pra entender. Estudei cor, estudei as identidades que eu queria trazer, então assim os grandes projetos que eu faço são trabalhos que demoram muito pra sair.” Sobre o editorial Essas São as Meninas que os Meninos Gosta 011.

Foto: Fernanda Souza (@correrua_)

Toda essa preparação é para garantir a qualidade do seu trabalho que descreve com orgulho como o trabalho de uma artista, mas sem se forçar a criar, deixando as coisas fluírem de forma natural. Nesse ponto, mais uma vez, Fernanda destacou a importância do seu trabalho autoral como cartão de visita para outras marcas  e, consequentemente, colocação no mercado.

“Eu tenho um processo criativo muito foda porque eu tenho mil ideias todos os dias. Eu crio coisas constantemente. Às vezes me falta tempo, verba, investimento. O meu processo criativo é aquele que eu consigo pesquisar, que eu consigo linkar, que eu consigo trazer propósito, por isso que eu acho que os meus editoriais autorais, os meus trabalhos autorais eles são muito melhores do que aqueles que são comerciais, porque eles são muito mais essência, muito mais pensado, muito mais tempo”, detalha Fernanda.

Foto: Fernanda Souza (@correrua_)

A importância do Funk pra estética BR

O Sportlife, diferente do que pode ser entendido pelo nome, não está relacionado com a prática esportiva em si, mas sim com a incorporação de roupas e acessórios criados para atletas por pessoas comuns. O estilo não se restringe apenas às camisas de seleções e times: corta vento, moletom, track pant, luva, balaclava e, obviamente, os tênis compõem o drip dos correria.

O Sportlife pegou elementos que já eram usados pelas periferias, como camisas de time e roupas esportivas e mesclou com  alguns life style de referência europeia. “Eu acho que bateu muito porque nós temos muito essa semelhança com o gueto europeu. E aí deu certo. O Sportfife aqui tem uma cara única porque ele meio que se mistura à unidade exclusiva do Funk, saca? Que é a Oakley, a Mizuno, então acabou ficando uma muito nossa cara”, descreve Fernanda. Ela explica que os precursores do estilo são meninos de São Paulo e que o principal expoente é o stylist Neguinho de Favela.

Foto: Fernanda Souza (@correrua_).

Por falar em roupa esportiva, nas periferias do Brasil, a camisa de time se tornou um dos itens que compõem a identidade, sobretudo, dos jovens e é utilizada no “corre” do dia a dia, antes mesmo do boom do Brazilcore que apareceu antes da Copa do Mundo 2022. Fernanda analisa que esse é apenas um nome que inventaram, “Se chegar no meu irmão falando de Brazilcore ele nem sabe pelo nome, ele só vai falar, que usa o bagulho do Brasil porque gosta. Porque o Brasil é muito ligado ao futebol e o futebol tem muito a ver com intercâmbio cultural”.

Foto: Fernanda Souza (@correrua_)

Fernanda destaca mais uma vez a importância do Funk para o streetwear brasileiro paulista e, consequentemente, para o Sportlife. “É cultura de rua, Mizuno, Mizuno é streetwear, streetwear de quebrada, é o tênis mais usado na favela, na rua de São Paulo. Cyclone é streetwear que é o estilo de rua da galera do funk de São Paulo. O funk é inegável, vai em uma quebrada, passa cinco minutos e conta quantos Mizuno você vai ver.”

Aperta o play

Corre de Rua contou pra gente as 3 músicas mais ouvidas da sua playlist. Se liga nessa seleção:

1- N.I.N.A – N.I.N.A, Terra, Kash

2-  Tropa do Mais Novo – Chefin e Vulgo FK

3- A Caminho do Bega – DJ Patrick Muniz

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