Do Cybergótico aos Mandrakes: os caminhos do funk

Por: Gabrielle Neves e Paula Silva

Nos últimos anos, o TikTok se tornou uma vitrine dos jovens mais “descolados”. Nem é preciso ser um usuário assíduo do app de vídeos para constatar esse fenômeno: os cabelos coloridos, as roupas e acessórios da Shein, os tênis e sapatos de marcas populares entre a molecada da Geração Z marcam presença em vários picos fora das telas dos smartphones. O TikTok, assim como as revistas teen de antigamente, emergem as chamadas “subculturas” às superfícies da opinião pública e das tendências de moda e comportamento.

E o que seriam essas “subculturas”?

Primeiramente, é preciso entender o seu conceito. Segundo o dicionário Michaelis: “cultura oriunda de uma outra”, ou seja, um conjunto de comportamentos, crenças e ideologias que representam uma subdivisão de culturas dominantes em suas respectivas comunidades. Nesse sentido, é importante entender também o que é “cultura” —  que nada mais é do que um apanhado de tradições, costumes, valores e normas que fazem parte da construção moral e social do ser humano. Cultura também é sobre identidades construídas em determinados contextos e locais.

Então, resumidamente: subcultura é um grupo diferenciado dentro de uma cultura. Quer um exemplo? Vamos falar do Cybergoth (ou simplesmente Cibergótico).

Os “góticos” da música eletrônica

O Cybergoth é uma subcultura que nasceu de outras culturas que todo mundo conhece: o cyberpunk, o gótico, o raver/clubber e o rivethead (uma galera que é fã de música industrial, gênero musical que reúne estilos experimentais de música eletrônica e seus derivados). O termo Cybergoth surgiu em 1988, no Reino Unido, em um jogo de RPG chamado Dark Future, da Games Workshop Group PLC, uma importante produtora de jogos eletrônicos, mas ele só pegou mesmo no rolê da moda.

Visualmente, os Cibergóticos são uma mistura de góticos com ravers/clubbers, sempre usando roupas pretas contrastando com acessórios em tons neon de verde, azul, vermelho e rosa. Rosto e cabelos ganham padrões cibernéticos: maquiagem carregada de preto e neon, máscaras de gás, óculos estilo aviador ou steampunk, mechas coloridas e dreads feitos de cabelo sintético (os chamados dread falls, que aqui se apresentam em outros formatos, como “CyberLox” (feito com um material conhecido como “Tubular Crin” e fiações elétricas) e “FoamFalls” (feitos com EVA). Basicamente, são uma versão dark dos clubbers.

Reprodução/Bibi Babydoll – YouTube

Como quase toda subcultura, o Cibergótico também se caracteriza por sua música, que gira em torno de gêneros eletrônicos, como Synthpop, Darkwave, Futurepop e EBM (Electronic Body Music, gênero resultante da fusão do Synthpop dos anos 80 com a música industrial). A cena tem festas e encontros em clubes e outros espaços mais underground.

O que nos leva a outro gênero musical — o funk. Não, você não leu errado. Na real, o funk pode não ter muita coisa em comum com o cibergótico, mas carrega uma das principais essências dele: a música eletrônica.

Funk: um dos filhos da música eletrônica

Mas antes, vamos voltar e falar um pouco sobre o surgimento do gênero. Em 1948, o músico francês Pierre Schaeffer pegou um toca-discos e reuniu diferentes instrumentos e melodias para formar uma única música, uma mixagem.

Foi na Alemanha, em 1951, que a música eletrônica passou a ganhar as ruas do país. Ali surgiu o primeiro estúdio totalmente focado nesse até então estilo sonoro, onde os irmãos Werner Meyer-Eppler, Hebert Eimer e Robert Beyer, donos do local, utilizam osciladores elétricos em suas criações.

Com o surgimento dos sintetizadores digitais, softwares e mais acessos a computadores popularizou o gênero, isso acarretou em vários subgêneros: house, trance, harcore, break, techno e funk. Cada um deles bebe de referências e contextos próprios, mas nascem do mesmo local: a cultura negra. Esses estilos vem de opressões, necessidades de libertação e da busca pela inovação.

Com todo esse contexto fica claro que o funk pode ser entendido como a música eletrônica brasileira, principalmente aquele que é produzido por pessoas pretas e periféricas. Essa conversa conta com diversas camadas e aceitação não costuma ser uma delas, um grande exemplo disso foi quando o Dj Americano SethTroxler tocou “Se Tá Solteira” no festival alemão de música eletrônica TimeWarp e a grande maioria dos comentários eram negativos, alguns até diziam que era uma pena um festival do gênero estar tocando funk, porque não era isso que as pessoas pagavam para escutar.

Universos nem tão distantes assim

O funk e o cibergótico ocupam duas pontas distintas do universo eletrônico, mas ambos apresentam pontos de conexão. Os dois possuem estéticas únicas – mandrakes e cybers – que vão muito além de um estilo. São formas de expressão que transmitem vivências, geram identificação, externalizam indignações e simbolizam atos de contracultura.

Por mais que existam reproduções vindas de pessoas que tentam se apropriar como se fosse só uma maneira de se vestir – não é atoa que alguns testes online com a chamada qual tipo de mandrake você é se popularizaram de maneira surreal – existem situações que não podem ser retratadas de uma maneira simples.

Por mais que exista uma admiração, popularização devido a plataformas como o Tiktok e um olhar artístico, é preciso achar um ponto de equilíbrio, visto que o diálogo são sobre movimentos específicos de realidades não tão agradáveis.

Autenticidade e vivências não podem ser copiadas.

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