Elas decidem: a histórica presença das mulheres negras na política

Por Camila Soares e Paula Silva


Marielle Franco era uma das 32 vereadoras negras eleitas no Brasil em 2016 quando foi assassinada a tiros junto de seu motorista, Anderson Gomes, em 2018. Quatro anos se passaram, e até hoje a gente se faz a mesma incômoda pergunta: Quem mandou matar Marielle e Anderson? E por quê?

Algumas hipóteses pairam em nosso pensamento, levando em conta o cenário político no qual vivemos há tantos anos. A mais óbvia é a de que, simplesmente, não nos querem lá, nas cadeiras do Legislativo. A presença daqueles que representam a maioria da população brasileira incomoda, e muito, a elite branca que insiste em controlar a máquina do Estado.

No entanto, a luta secular por direitos é a força motriz que impulsiona mulheres negras a ocuparem os espaços políticos que lhes foram negados por tanto tempo e resistindo às violentas tentativas de silenciamento e exclusão.

Nossos passos vieram de longe: as pioneiras

Desde o Brasil colônia as mulheres negras tomam à frente em vários contextos sociais e políticos. Apesar do epistemicídio e do apagamento histórico, a luta pelo resgate de seus direitos, de sua cidadania e, acima de tudo, de sua humanidade, pavimentou todo um caminho fundamental para os passos largos das próximas gerações pretas.

A seguir, conheça cinco pretas brasileiras que fizeram história e levaram a luta do povo negro para os espaços institucionais de poder do país:

Almerinda Farias Gama, a primeira mulher negra a votar numa Assembleia Constituinte

Nascida em Maceió em maio de 1899, Almerinda Farias Gama era advogada, sindicalista, jornalista e tradutora. Era alagoana de nascença, mas foi viver no Pará ainda muito pequena. Trabalhou como datilógrafa, logo depois indo escrever para jornais e revistas da época. Após se mudar para o Rio de Janeiro, Almerinda se filiou à Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher (FBPM), que na época era presidido por Bertha Lutz (1894–1976), uma das grandes expoentes do movimento sufragista no Brasil. Junto de Bertha, fundou o Sindicato dos Datilógrafas e Taquígrafas, sendo nomeada a primeira presidente.

Em 20 de julho de 1933, Almerinda foi a primeira (e única) mulher negra a votar representando o próprio sindicato na escolha da bancada classista para a Assembleia Nacional Constituinte de 1934. Pela primeira vez, uma mulher negra participava ativamente da política brasileira.

Nos anos seguintes, Almerinda continuou se envolvendo na política, lutando pelos direitos da mulher e da classe trabalhadora. Em 1934, co-fundou o Partido Socialista Proletário do Brasil, e se candidatou à deputada federal pela legenda “Decreto do Direito ao Trabalho, Congresso Master”. Não foi eleita, mas ficou na política enquanto presidente do partido até 1937, ano em que foi extinto com o golpe do Estado Novo.

Almerinda acabou se afastando da política com o passar dos anos, dedicando-se ao trabalho de jornalista, poetisa e tradutora, até seu falecimento, em 31 de maio de 1999.

Antonieta de Barros, a primeira mulher negra eleita Deputada Estadual

Antonieta de Barros nasceu em 1901, em Florianópolis, Santa Catarina. Foi criada pela mãe, Catarina Waltrich, escravizada liberta que trabalhava como lavadeira. Aos 17 anos, formou-se no Ensino Médio, sendo a primeira da família a concluir os estudos. Sempre levantando a bandeira do acesso à educação para todos, fundou, em 1922, o Curso Particular Antonieta de Barros, dedicado à alfabetização de adultos que viviam em vulnerabilidade social. Virou professora, e mais tarde, cronista, escrevendo para várias publicações. Como jornalista, escreveu mais de mil artigos em oito veículos e criou a revista Vida Ilhoa.

Em 1934, foi eleita a primeira Deputada Estadual negra do Brasil. Também foi a primeira deputada mulher no Parlamento Catarinense e a primeira representante feminina negra no Poder Legislativo na América Latina. Antonieta foi eleita menos de meio século após a abolição do regime escravagista e apenas dois do sufrágio feminino, que garantiu às mulheres o direito ao voto, em 1932. Ela também foi a autora da Lei 145/48 que instituiu o 15 de outubro como o Dia dos Professores.

Theodosina Rosário Ribeiro, a primeira mulher negra eleita vereadora

Theodosina (que, segundo ela, era pra ser Teodora, mas seu pai achava um nome “muito forte para uma criança” e por isso escolheu Theodosina) nasceu em Barretos, interior de São Paulo. Estudou Letras na Universidade de Mogi das Cruzes e foi para São Paulo ser professora. Lá, também se formou em Direito.

A vida política teve início em 1968, e anos mais tarde, em 1970, foi eleita a primeira vereadora negra da Câmara Municipal de São Paulo. Em 1974, fez história mais uma vez como a primeira mulher negra a ocupar uma vaga de Deputada Estadual na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). Theodosina se destacou na política lutando pelos direitos da população negra, até mesmo quando esteve afastada da vida pública, comparecendo em eventos e rodas de conversa organizados pela comunidade negra. Em seus últimos anos de vida, dedicou-se a um livro de memórias.

Benedita da Silva, primeira vereadora e governadora negra do Rio de Janeiro

Nascida na favela da Praia do Pinto, mas cria da favela do Chapéu Mangueira, Benedita Sousa da Silva Sampaio nasceu em 1942 no Rio de Janeiro. Filha do pedreiro José Tobias da Silva e da lavadeira Maria da Conceição Sousa da Silva entrou no movimento político na década de 1960 quando ela e uma amiga reuniram mulheres da sua comunidade para cobrar melhorias e fundaram o Departamento Feminino da Associação de Moradores de  Chapéu Mangueira.

Foi sob o slogan “Negra, mulher e favelada” que Bené venceu as eleições de 1982 e se elegeu a primeira vereadora negra do Rio de Janeiro. Nas eleições de outubro de 1994 foi eleita como senadora do Brasil pelo Estado do Rio de Janeiro e no exercício desse cargo em 1996 viu sua proposta de regulamentação do trabalho das empregadas domésticas ser aprovada.

Kátia Tapety, primeira vereadora travesti negra do Brasil

Nascida em Oeiras no Piauí, Kátia Nogueira Tapety foi a primeira travesti eleita para um cargo público na história do Brasil. Em 1992  foi eleita como vereadora de Colônia do Piauí quando o povoado passou a ser reconhecido como município, feito que se repetiu em 1996 e 2000 sempre eleita como a vereadora mais votada. Foi também presidenta da câmara municipal no biênio de 2001-2002 e vice-prefeita em 2004 também em Colônia.

Em 2013 foi lançado um documentário em longa metragem sobre a história dessa líder tão importante e que pavimentou a estrada para que hoje possamos vislumbrar outros caminhos na política. O filme dirigido por Karla Holanda acompanha vinte dias da vida de Kátia no sertão onde mora.

Esse ano foi lançada a Escola de Formação Política Kátia Tapety, iniciativa promovida pelo Instituto Internacional sobre raça, igualdade e direitos humanos e tem como objetivo a formação de mulheres negras e indígenas para a disputa do pleito tendo como foco a formação de mulheres trans, lésbicas e bissexuais. Além do cargo público que exerceu vários mandatos, também é, parteira, líder comunitária e agente de saúde.

A “onda negra” nas eleições de 2022

Pela primeira vez na história das eleições, o número de candidaturas negras superou o de candidaturas brancas, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgados em agosto — mês que foi estabelecido o prazo final para registros de candidatos à Justiça Eleitoral. De acordo com o tribunal, 14.015 candidaturas negras (49,57%) foram registradas contra 13.814 brancas (48,86%). Para você ter uma ideia do crescimento, em 2018 foram 13.543 negros e 15.241 brancos. E ainda quatro anos antes, em 2014, 11.579 candidatos negros e 14.377 brancos concorreram a cargos eletivos.

“Esse recorte de candidaturas é animador”, observa Tainá Pereira, coordenadora política do movimento Mulheres Negras Decidem e co-coordenadora geral do projeto Estamos Prontas — iniciativa que tem como objetivo o fortalecimento de mulheres negras em lideranças coletivas. “Por um lado, significa que há uma constância nesse crescimento do interesse e nas condições de possibilidades de pessoas negras participarem do processo de disputa eleitoral. De maneira geral, o ecossistema político está se avançando para se tornar efetivamente mais democrático para permitir a participação de outros setores da sociedade senão os tradicionais homens brancos de classe média alta.”

No entanto, o que ainda se vê são as candidaturas masculinas à frente desse movimento, sobrando pouco espaço para as mulheres negras. Ainda de acordo com os números do TSE, entre os negros foram registradas 9.163 candidaturas masculinas contra 4.890 femininas; e proporcionalmente, são mais homens pardos (6.919) do que mulheres pardas (3.187). O mesmo acontece entre os homens pretos (2.244) e as mulheres pretas (1.703).

Para Tainá, uma solução viável para esse problema seria garantir uma reserva de recursos destinados a candidaturas femininas “dentro do percentual obrigatório de investimento em quadros femininos dos partidos com recursos do fundo partidário”. Isso mudaria gradualmente o atual cenário de sub-representação e sub-financiamento que mulheres negras vivem dentro dos partidos.

Tainá ainda esclarece que o aumento de pretos e pretas se candidatando é animador, mas ainda não é o suficiente para mudar a mentalidade das siglas partidárias. “Esse é um processo importante, mas não é o mais fundamental para a garantia de candidaturas de pessoas negras no Brasil. O movimento Mulheres Negras Decidem vem pautando desde 2018 o índice de legibilidade, que é quanto essas candidaturas conseguem de fato serem revertidas em cargos ocupados”, diz.

Apesar dos percalços, é difícil esconder as altas expectativas vendo essa quantidade de pretos e pretas comprometidos com a agenda antirracista e outras pautas urgentes como os direitos das mulheres, saúde, educação, emprego e justiça socioambiental aparecendo nos horários políticos. Para a co-coordenadora do Estamos Prontas, as candidaturas negras, principalmente de mulheres negras, chegam mais preparadas para estas eleições — um processo que vêm ocorrendo desde 2018. Ela explica que o preparo dessas mulheres para enfrentarem a campanha eleitoral “se inicia com a participação muito próxima dos movimentos que elas compõem com outras lideranças de base” e outros movimentos associados. “De maneira geral, elas chegam muito mais fortalecidas tanto em habilidades específicas quanto em construção de poder”, afirma Tainá. “A expectativa é gigante em eleger bons quadros para os enfrentamentos que a próxima legislatura vai precisar fazer para recuperar os direitos que foram perdidos nos últimos quatro anos, e para fazer avançar ainda mais o alcance das políticas públicas principalmente para aquelas pessoas que mais precisam.”

As sementes de Marielle: lideranças negras para você conhecer

“Marielle virou semente”. Essa frase, repetida por muitas lideranças negras femininas, resume todo o movimento político de representatividade que vêm se fortalecendo desde aquele fatídico 14 de março de 2018. Nesses últimos quatro anos, o luto duradouro virou uma luta ininterrupta para que os tiros dos incomodados nunca mais encontrem corpos pretos.

A Brasa Mag, em parceria com o projeto Estamos Prontas, do movimento Mulheres Negras Decidem, apresenta uma lista de mulheres negras que estão prontas para mudarem o Brasil e fazer valer o legado daquelas que vieram antes:

Foto: Reprodução

Adriana Gerônimo (CE): Adriana é co-vereadora em Fortaleza, no Ceará. É assistente social, LGBTQIAP+, cofundadora da FavelAfro, cooperativa de mulheres periféricas do Lagamar. Integra o Grupo Jovens em Busca de Deus (JBD), a Frente de Luta por Moradia Digna, o Campo Popular do Plano Diretor e o Fórum Popular de Segurança Pública. Está candidata à Deputada Estadual no Ceará.

Foto: Divulgação

Ana Cleia Kika (TO): Mulher, Negra, feminista, ativista, pesquisadora, esposa, mãe do Samuel e do Matheus Felipe. Cientista Social. Mestranda em Comunicação e Sociedade/UFT. Defensora dos Direitos Humanos. Defensora Popular. Conselheira do Conselho Municipal da Juventude do Município de Porto Nacional. Militante do Movimento Negro Unificado/TO. Integrante do Coletivo de Mulheres em Movimento de Porto Nacional e do Movimento de Mulheres Negras e Populares. Participa do ALAGBARA, articulação de mulheres negras e quilombolas do Tocantins. Professora Convidada na UFT, no Campus de Porto Nacional no Curso de Ciências Sociais. Foi candidata a vereadora no Município de Porto Nacional em 2020. Atualmente é Presidenta do Partido dos Trabalhadores (PT) de Porto Nacional. Está candidata à Deputada Estadual no Tocantins.

Foto: Reprodução

Graciele Marques (MT): É vereadora de Sinop (MT), professora da Educação Básica e do Ensino Superior. Atuou em várias ações junto ao movimento negro, movimento de mulheres, movimentos de juventude, movimentos culturais, movimentos em prol da educação pública e gratuita, entre outros. Foi presidente do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UNEMAT. É sindicalizada ao Sindicato dos Profissionais da Educação de Mato Grosso-SINTEP e à Associação dos Docentes da Unemat — ADUNEMAT, faz parte do Coletivo Sinop Para Elas e através desses desempenha sua luta em favor da valorização e respeito às mulheres, em favor da educação de qualidade e em defesa das minorias. Em 2020 foi eleita vereadora de Sinop, com 1122 votos, tornando-se a única mulher a compor o legislativo para a legislatura 2021–2024. É Co-fundadora da Central Única das Favelas em Sinop. Atuou na criação do Centro de Referência de Direitos Humanos, coordenou um projeto chamado “Jovens Agentes de Direitos Humanos” e trabalhou por cinco anos no projeto “Sinop Para Elas”, para o acolhimento de mulheres que sofrem violência.

Foto: Acervo Pessoal

Lucilene Kalunga (GO): Se organizou em um primeiro momento no Grupo de Mulheres Negras Malunga, que trabalha com saúde da mulher, anemia falciforme e saúde reprodutiva. Bacharel em Turismo, começou a trabalhar no SEBRAE e liderou processo de organização do seu território para gerar desenvolvimento econômico através do turismo. Em 2004, o Quilombo Kalunga foi escolhido pelo então presidente Lula para lançar o projeto Brasil Quilombola. Foi Secretária Municipal de Igualdade Racial, Cavalcante — Goiás (2009–2010). Em 2010 fez o 1º Encontro de Cultura Negra Kalunga no município de Cavalcante. Trabalhou com a vereadora Cristina Lopes do PSDB. Foi coordenadora da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Goiânia. É coordenadora do Parlamento Jovem Brasileiro, programa da Câmara dos Deputados que tem como objetivo fomentar, entre os estudantes de Ensino Médio do Brasil, a discussão de temas como política, cidadania, participação popular e democracia representativa. Está candidata a Deputada Estadual em Goiás.

Foto: Lucas Leffa

Laura Sito (RS): Mãe do Pedro, filha de empregada doméstica e cria da periferia de Porto Alegre, começou a luta cedo, aos 13 anos, no movimento negro e no movimento estudantil. Foi Presidenta do Grêmio do Julinho, escola estadual com forte história política, e Diretora de Direitos Humanos da UNE, quando lutou pela efetivação das políticas de ação afirmativa e acompanhou a sua implementação no Brasil. Em 2016, concorreu a vereadora e ficou como suplente, tendo a oportunidade de apresentar Projetos de Lei voltados ao enfrentamento da violência contra as mulheres, à geração de renda para mulheres negras e ao acolhimento de crianças e adolescentes. Em 2020, foi eleita vereadora, sendo a mais jovem da Câmara Municipal e integrando a primeira bancada negra da cidade. Desde então já teve aprovado dois projetos: um que obriga as repartições públicas a oferecerem salas de aleitamento materno e outro que institui o Programa de Aquisição de Alimentos no Município de Porto Alegre, inserindo-se no tema do combate à fome, prioritário do mandato. Está candidata a Deputada Estadual do Rio Grande do Sul.

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