Entre Deus e o Rap existe o amor: Com os três pilares, o duo Yoùn trilha seu caminho para o futuro

O amor é um sentimento lembrado com frequência nas composições artísticas e manifestações culturais que visam expressar os bons sentimentos de quem o produz ou causar boas sensações no receptor da mensagem. Embora possa dar margem para uma discussão filosófica, o amor é sentindo por pessoas em suas mais variadas percepções e conceitos. Com o lançamento realizado no meio da caos, o amor se faz presente ainda mais, a Brasa Magazine bateu um papo para compreender a obra.

A dupla YOÙN começou a trilhar seu caminho nas linhas de trens do Rio de Janeiro, mas a história dos músicos Shuna e Gian Pedro, crias de Nova Iguaçu (RJ), se iniciam com um roteiro parecido. Ambos floresceram da mesma base musical. Eram “levitas” das suas respectivas igrejas e o envolvimento com a música chegou enquanto pequenos. Suas referências sempre andaram de mãos dadas com o Gospel, Jazz, Blues e R&B. O resultado desta comunhão está em destaque no álbum de estreia da dupla. Com 12 faixas, “BXD In Jazz” traz toda interação dos gêneros originários da cultura preta, com letras que destrincham o amor em suas variantes. O álbum é um grito que marca a presença desses artistas que já chamam atenção na cena.

O disco constrói uma linha narrativa baseada na história de dois jovens pretos, que estão inseridos no mesmo contexto que milhares de brasileiros vivenciam. Com letras impactantes, as faixas dialogam entre si, criando uma espécie de recipiente que transborda sentimentos. Seja ele o amor, o medo, a incerteza, a raiva, o desconforto, a saudade ou o ato de conhecer suas movimentações.

Foto: Pedro Napolinário

A produção musical é de Júlio Raposo, Lux Ferreira e Thiago Dom. O disco também conta com a coprodução da equipe JOINT – Carlos do Complexo, Dudu Kaplan e Junior Neves. A direção musical é de Júlio Raposo em parceria com os artistas Shuna e Gian Pedro. Já a produção executiva fica na mão do selo carioca JOINT e Pedro Bonn. Saca só:

A construção musical

Foto: Guto Brown

Gian Pedro: Meu primeiro contato com a música, foi na igreja de ambos na verdade, na Assembléia de Deus. Estávamos ali aprendendo muito sobre música. Meus familiares me ensinaram bastante desde pequeno, sempre tive essa paixão por tocar e saber o que era música. Então sempre estava me envolvendo com a música, falando sobre música toda hora.

Shuna: Comigo não foi diferente. Minha família é musical, minha tia tocava acordeom, meu avô do violão, meu tio toca trompete e minha mãe clarinete. Todo mundo, de certa forma, foi induzido a fazer música. Eu estudei música antes de tocar nos instrumentos, porque para a minha avó não importava. Eu precisava estudar música primeiro.

Brasa Mag: A música então foi levada à sério dentro da casa de vocês, tudo ligado ao contexto religioso ou a curva era diferente?

Gian Pedro: A música sempre foi levada a sério dentro de casa, só não tinha este olhar para a arte. A arte era outra parada assim, viver da arte era outra coisa. A gente recebeu muito esse olhar, tipo: fazer música é importante, mas você precisa fazer música para Deus e, dentro da igreja ainda.

Shuna: Acredito que isto esbarra um pouco no cristianismo, porque na cabeça das pessoas estar na igreja não é fazer arte, é louvar a Deus. Então muitas pessoas não se consideram artistas, os caras tocam, compõem, fazem arranjos, mas eu sou só um levita. Não sou um artista, como se levar o nome “artista” viessem com uma conotação de soberba e negativa.

Foto: Guto Brown

BM: Como aconteceu a virada de chave de adoradores para artistas?

Gian Pedro: Eu sempre acreditei. A real é que eu estava na igreja e conheci um pouco do clima do erudito, do eu lírico, fui conhecendo um pouco do popular, entendendo um pouco da música e fui conhecendo o rap, fui abrindo a minha mente cada vez mais. Entendendo que música era o tipo de coisa que eu queria viver. Então o adorar a Deus não é só cantar o gospel, existem diversas formas para adorá-lo. E com essa visão entendi que tinha que fazer música, comecei escrever as minhas paradas, comecei a mostrar para ele e entrei nessa onda de: Bora lançar uma música? Vamos viver dessa parada, mesmo sem ver uma coisa concreta ou alguém próximo que deu certo.

Shuna: Vou ser sincero, na minha cabeça tipo assim, iria fazer música no “mundo” e depois de um tempo teria que voltar para a igreja, porque eu quero ir para o céu! Então tipo assim: Do que adianta ficar um tempão no mundo, fazendo música e depois largar tudo para poder voltar para igreja? Na minha cabeça largar tudo e abrir mão de tudo é muita coisa. Abrir mão da sua grana, da sua construção, então me bloqueei muito sobre isso. Não levava tanta fé, estudava para tocar na igreja. Se fizesse uma carreira, seria gospel. Já o Gian tinha uma visão diferente, ele me chamava para gravar rap, ele possui sons lançados, já eu não tenho música solo. Daí você percebe como eu tinha medo de colocar meu coração em algo e depois precisar voltar para o inicio. Depois entendi que viver é adorar a Deus.

Vou ser sincero, na minha cabeça tipo assim, iria fazer música no “mundo” e depois de um tempo teria que voltar para a igreja, porque eu quero ir para o céu!

Foto: Guto Brown

O start nas ruas

Shuna: O despertar mesmo para arte, foi no trem. Porque até então, ele fazia as coisas dele e tínhamos um feedback local, não era Rio de Janeiro. Quando a gente foi para o trem literalmente dávamos um role pelo Rio, da baixada até o centro. Nesse role começamos receber muito feedback: “Nossa!”; “Caralho que som!”.[…] O diferencial era que sempre trouxemos a música para a gente, para os nossos arranjos, nosso jeito de reproduzir aquele gênero. Então, quando chegávamos no trem com violino, cajon tocando um Pagode com R&B, tocando música clássica com Jazz, a galera vibrava.

Gian Pedro: Depois disso vários convites começaram acontecer. Foi fazendo o nosso sonho fazer sentido. Os feedbacks foram importantes para sentir que era real saca? De 2017 à 2019 ficamos nos apresentando nos trens. A gente já tinha algumas músicas na pista e, a rotina estava cansando a nossa voz, um cansaço mental que só quem viveu sabe.

BM: Vocês começaram nos trens cariocas, então vocês sabem muito bem como a arte sempre dá um jeito de sobreviver, como foi esta experiência?

Shuna: Costumo dizer que muitos artistas poderiam passar por ali, não ficar, vai lá um dia para você ver, lá não é um cartaz aonde todo mundo foi no teu show te ver, te adorar, lá não. Tipo assim, a rua ela é um lugar que surgem críticas de uma forma incrível, não é igual ser famoso. No trem o feedback é instantâneo, o chapéu não pinga se você não tocar bem. Você precisa chegar direito para fazer sua apresentação. Então preparou a gente, morríamos de vergonha, mas foi uma experiência que mudou a minha vida.

Foto: Pedro Napolinário

A rua é um lugar que surgem críticas de uma forma incrível, não é igual ser famoso.

Dentro do álbum

BM: Ouvindo as faixas é muito louco para mim, como mulher, ver vocês contando sobre o amor em sua diversas formas, seja romântica, seja o amor próprio, seja amar e lutar pelas suas ambições. Como foi a construção de amor de vocês?

Shuna: Sempre fui apaixonado. A igreja fala muito sobre amor e perdão é uma das questões que regem o nosso desenvolvimento. Nossas referências também falam muito sobre amor, do começo ao fim de uma música sem se quer usar a palavra: amor. Se você reparar as pessoas buscam isso, se você entra em uma rede social as pessoas estão querendo sorrir, demonstrar que estão felizes e, isso tudo é uma forma de amor. Pagode fala sobre amor, o Jazz fala sobre o amor, não tem como nós não falarmos sobre o amor.

Gian Pedro: Sobre essa parada, a gente vive amando as pessoas, a gente vive amando. A real é que desde novo a gente tem esse toque do amor, que veio da igreja que aborda muito o que é amar. Não tinha como não passar isso nas músicas, não tinha como. A gente sempre ficou impactado com esse dialeto de falar sobre amor sem cansar e destrinchá-lo de diversas formas.

BM: Na intro vocês falam “o Blues e o Jazz se encontram no mesmo lugar e eu me encontro aqui.” Não é novidade para nenhum ouvinte que vocês sempre priorizaram por se expressarem através de gêneros originários dos pretos, mas com esta intro, consigo sentir um resgate deste lugar. Conta um pouco pra gente sobre isso?

Shuna: Então, essa frase nasceu de forma inesperada, depois que ela vem você procura entender o que ela significa para você mesmo antes de passar para frente. Esse lance do Jazz, Rock e Blues se encontrarem no mesmo lugar e eu me encontro aqui, é sobre resgatar ritmos construídos pelos nosso povo. E por muitas vezes não temos o mérito e atenção como deveríamos ter, “eu me encontro aqui” está tudo difundido no álbum. O Jazz, o Rock, o Blues estão aqui, quer dizer o “eu” como se fosse um gênero musical também. Somos um só. Não o gênero como conhecemos, mas a entidade de música preta.

Foto: Guto Brown

BM: Qual a importância de lançar este trabalho no meio de uma pandemia, onde muitas pessoas perderam amigos, famílias. Como é fazer música neste período?

Gian Pedro: O processo criativo do álbum era o que estávamos precisando, estávamos necessitando de criar, porque estavam acontecendo muitas coisas dentro desse cenário caótico. A gente entrou no estúdio, as nossas músicas não foram escritas durante a pandemia, mas a gravação e toda produção aconteceu nesse período. O álbum passa por todas nossas fases, estamos escrevendo ele desde do dia que nos conhecemos, até trabalharmos no trem, até chegar aqui.

Shuna: Estava conversando com ele esses dias, é assustador lançar um álbum em uma época que não podemos fazer shows. Como vou mostrar o álbum para as pessoas? Como vai ser não ter tocado o álbum na rua? Daqui a pouco vem outro álbum, esse ano iremos tocar alguns projetos. A gente quer ver nos olhos das pessoas o que fizemos, queremos ver o efeito musical presencialmente. Olho no olho.

O álbum passa por todas nossas fases, estamos escrevendo ele desde do dia que nos conhecemos, até trabalharmos no trem, até chegar aqui.

Foto: Guto Brown

O futuro

Shuna: A gente quer comunicar diretamente com nosso povo, tem dialetos que usamos em nossas músicas que só quem é preto vai sacar de cara. Por isso, usamos a linguagem da rua, para poder ampliar os diálogos entre nós. Enquanto admirador de arte, sempre me questionei porque não executar determinada frequência, porque existe o medo de sentir? A gente quer comunicar com todos os pretos e juntar a nossa musicalidade seja com o gospel ou com toda percussão presente em religiões de matrizes africanas. A gente precisa fundir essa musicalidade.

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