Porque a versatilidade em Lady Leste gera tanto choque?

Após cinco anos de espera, em fevereiro de 2022, fomos apresentados ao segundo álbum de estúdio de Gloria Groove, “Lady Leste”.

Seu lançamento chamou a atenção da imprensa através da versatilidade do compositor, dublador, ator e cantor Daniel Garcia, que lança hit atrás de hit desde 2016 na persona drag, nossa amada GG.

Mesmo concordando que flexibilidade, personalidade e referências sejam os três pilares principais do álbum, fico me perguntando porque a pluralidade de corpos periféricos ainda gera tanto choque no mainstream?

Foto: Rodolfo Magalhães

Lady Leste expõe para o público as diversas camadas que compõem quem de fato é a Gloria, isso vai desde referenciar as mulheres que são sua referência, como Lady Gaga e sua mãe, até os variados gêneros musicais, como o pagode em uma vibe anos 90 que marcou a infância de várias crianças.

Todas essas nuances não deveriam gerar tanto choque, visto que as periferias são polos culturais em sua mais pura essência.

São nessas áreas, e nas favelas, das cidades do Brasil que em uma única rua escutamos os hinos que são entoados nas igrejas evangélicas, uma festa de família ao som de Sorriso Maroto e Zeca Pagodinho, um bar tocando forró no talo e um carro passando tocando um funk tão alto que faz janelas tremerem quase simultaneamente.

É nessa realidade plural que inúmeras mentes criativas nascem e transformam suas vivências em meios para não só sobreviver nesse mundo mas também viver.

Foto: Rodolfo Magalhães

Nesse projeto, podemos ver um arco narrativo que vai do mandelão ao rock em uma pegada neopentecostal que também auto referencia alguns antigos hits da artista enquanto comunica sobre seus medos, realidades e sonhos. Sendo quase um ode a sua existência.

Por mais que apresentar tudo isso para um público que não vive essa realidade seja algo necessário e que levanta discussões necessárias, a surpresa ainda choca. Principalmente porque além de estarmos vivendo momentos onde a realidade é cada vez mais visível, as próprias entrevistas e conversas de Gloria, como no episódio do Podcast Mano a Mano, sempre evidenciaram sua potência artística e do que ela é feita.

Lady é sobre quem ela quer ser e Leste da onde ela veio, tudo que já passou, e juntos, esses dois nomes funcionam como uma ponte que liga passado e presente.

Gloria Groove é somente um dos milhares de nomes que saem da periferia mas um dos poucos com o reconhecimento que merece. Quebrar essas barreiras é necessário, assim como reconhecer que muito ainda precisa ser feito para que a existência, potencial e pluralidade dessas pessoas pare de causar espanto, como se fossem seres exóticos capazes de produzir beleza, capazes de produzir arte.

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