As Irmãs de Pau querem dignificar corpos trans no funk brasileiro

Em entrevista, Isma Almeida e Vita Pereira revelam suas ambições e contam da trajetória das Irmãs de Pau

Amigas desde o ensino médio Isma Almeida, 23 anos e Vita Pereira, 24 anos, se encontraram “nessa encruzilhada”, como descrevem. Antes de selarem a irmandade, a dupla protagonizou uma das maiores ocupações secundaristas em Barueri, construiu quilombos LGBTQIA+ e o próprio lugar de pertencimento ao identificarem que nenhum foi pensado para elas.

“Para além da arte, criamos meios de sobrevivência”, conta Vita. A funkeira, produtora e diretora foi quem acompanhou e encorajou o processo de transição da irmã. Juntas, elas organizavam “gaymada” de cropped, tranças e muito deboche em meio à transfobia dos espaços.

Após 10 anos de amizade, foi somente no período pandêmico que Vita e Isma viram a oportunidade de criarem um projeto em conjunto. “A gente nasce desse encontro de um amadurecimento das nossas artes para agora estarmos pronta para irmos juntas.”

Foto: Lucas Silvestre

Para elas, as Irmãs de Pau é um projeto musical que foi construído gradativamente e nasceu no tempo certo. A sonoridade e estética do funk se entrelaça nos trocadilhos e discursos. “Antes disso elas [as letras] eram roteiros de filmes, dramaturgias de teatro, desabafos que a gente transmutou para criar uma outra potência”, explica Isma.

“A gente queria muito uma coisa de gêmeas, na geometria e simetria. E propor outro tipo de produção e linguagem do funk […] Disputar a imagem da travesti, transexual, não só enquanto objeto. Agora a gente toma de assalto nossa narrativa e nosso truque nos colocando enquanto sujeito.”

A junção das bases academicista, artística e política das irmãs foi a fórmula perfeita para criar uma nova estética para o funk brasileiro. Em “Dotadas”, disco de estreia da dupla, elas trazem uma experiência cheia de sentimentos contraditórios. Te entretém, mas é reflexivo. Te faz rir, porém pode arrancar lágrimas. De forma poética, o trajeto simboliza os altos e baixos do cotidiano de pessoas trans.

“Eu acho que vem muito de ressignificar a própria violência que a gente sofre. A gente sempre andou belas, maravilhosas, mas sempre recebia chacota, violência de diversas formas. A gente vem de um lugar que exalta a quebrada, mas a quebrada pra gente foi um espaço muito violento”, explica Vita.

Foto: Lucas Silvestre

Além disso, as irmãs ressaltam a importância de pessoas ouvirem coisas que façam acreditar nelas mesmas. Talvez esse seja o maior poder da arte. “A gente não queria falar somente sobre dor. A gente já sabe que é o país que mais mata transexuais. Mas ao mesmo tempo não ignoramos essa violência.”

Com o visual divertido e debochado, a ambição das Irmãs de Pau é fazer a diferença ao normalizar corpos trans em um gênero musical que está longe de abraçar essa individualidade. Para elas, é necessário o outro entender que há dignidade e espaço para a felicidade na vida de pessoas travestis e transexuais.

“Queremos marcar a geração funkeira jovem e adolescente para que a gente consiga ver meninos jovens assumindo outras meninas travestis.”

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1 comentário em “As Irmãs de Pau querem dignificar corpos trans no funk brasileiro”

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