Mu540, o matemático

Produtor musical há mais de uma década, Murillo calcula hertz e é um guia para quem sai da vida do crime buscando recuperação através da música.

Por Julia Reis

Era 2010 quando Murillo Oliveira Santos, 25, resolveu comprar um computador para se aventurar na produção de beats de funk. Como o cria do Jardim Melvi, bairro de Praia Grande, São Paulo, era o nerd da turma, seu plano foi mexer com música para se enturmar com os moleques da escola. “Pra eu não apanhar na escola, tinha que colar com esses mano, que já eram os moleques que traficavam, roubavam”, relembra.

Ao mesmo tempo em que Murillo misturava as batidas do baile com os sons de free step, ele e seus amigos preocupavam os professores com os papos, bagunças e planos para o futuro. Foi aí que o menino da baixada virou filho de consideração do professor de matemática. Abreu ligava quase todas as noites perguntando se Murillo apareceria na aula no dia seguinte. Ao desligar, ficava algumas horas em claro pensando em formas de fazer o aluno se interessar pelas matérias. De repente, Abreu conseguiu.

Em uma aula sobre sobre função tangente, o aluno desafiou o professor. “Onde eu vou usar isso aí?”, perguntou em tom de deboche. “Mano, isso aqui é uma propriedade que você vai usar em muito lugar. Espaço, amplitude. Mas…você gosta de música?”, provocou de volta. “Tá vendo essa onda aqui? Isso se chama senoide. Isso a 40 hertz é o batidão do funk. É o grave do funk.”

“Eu relacionei os bagulho, fiquei idiota. Só isso que ele falou já quebrou minha cabeça”, conta Mu540 para a Brasa Magazine. Depois daquela aula, Murillo passou semanas pesquisando tudo sobre a oscilação repetitiva das ondas contínuas e entendeu que a música era feita de cálculos matemáticos. Seu mundo mudou quando entendeu o papo de Pitágoras.

“Meu vulgo é Mu540 porque estou a 180° de todo mundo que está a 360°”
Foto: Midi / Brasa Magazine; Tratamento de imagem: Gabrielle Neves / Brasa Magazine

Bebendo uma cerveja no quintal da Ceia, selo de rap ao qual pertence atualmente, o DJ e produtor explica que, na dimensão em que vivemos, somos um círculo que totaliza os 360°. Como 180° forma numa reta, ele está sempre à frente.

“Pra mim não existe gênero, não existe música, só barulho e nóis bota em ordem, porque tudo é vibração. Eu uso esse bagulho porque é o DNA da música, parça.”

Desde que entendeu os sons que manipula com destreza no computador, o praiagrandense procura vozes para encaixar em suas produções. “Eu não ia correr atrás de cantor famoso, sabe?”, provoca. “Mano, eu sou muito fã de funk da baixada e os caras estão do meu lado, então pensei: vários moleques aqui que só se fode e eu poderia fazer uns beat pra eles”.

A primeira parceria foi com Larisson. O MC conheceu Japa, um amigo do DJ, na cadeia. Antes de sair, Japa falou que se Larisson quisesse voltar a cantar, era só passar no Melvi e encontrar o Mu540. Após passar as coordenadas e obter sucesso, os caras começaram a falar do produtor dentro do sistema. Depois de pagar seus dias no cárcere, todos que tinham o sonho de ser MC procuravam Murillo.

“Ele fez cinco músicas comigo e várias intros. Inclusive, fez a intro do ‘DJ Musão, manda pra elas seu filha da puta’. Aí comecei a andar com ele e conhecer outros MCs”, conta o produtor. Foi assim que Mu540 conheceu DJ Toddy, com quem fundou o Favela Records. A ideia de todas as investidas sempre foi empoderar os caras e dar um apoio para a cultura da baixada.

“Minha narrativa sempre foi essa: roubar tudo que os cara tem de fora e fazer aqui, que nem eles fazem com a gente no futebol, na soja, na laranja e vendem muito mais caro pra gente. Quero pegar de lá e vender muito mais caro pra eles. Igual eu que fiz o Drill agora e estou vendendo muito mais caro pra eles.”

O encontro com Kyan e Lucas Zetre
Foto: Midi / Brasa Magazine; Tratamento de imagem: Gabrielle Neves / Brasa Magazine

Mu540 diz que as coisas começaram a conspirar a seu favor desde a chegada do Funk Megatron. Porém, o DJ só teve a certeza da caminhada depois da amiga Mc Tha jogar um tarot e assegurar de que ele estava escrevendo a história certa.

Nesse corre, Mu540 foi apresentado para MC Renan, hoje conhecido como Kyan. “Quem gostava de Funk conhecia ele. Funkeiro de verdade já conhecia ele. Tava há muito tempo batalhando.”

Murillo foi ver o Renan cantar no estúdio de um DJ famoso na sua quebrada. Ficou tanto tempo que perdeu o horário da condução e teve que voltar de carona com Kyan, Lucas Zetre e Pedrinho Jr.. Depois de muita troca de ideia, Renan quis apostar no Trap, o que concretizou o primeiro trabalho em parceria.

A primeira música, “Mandrake”, foi produzida pelo Mu540 já com as referências que ele carregava por todo esse tempo — especialista em Trap, Funk e música eletrônica. Em uma semana, o single bateu 100 mil visualizações. E o mundo virou em 180º, mais uma vez. O DJ, já conhecido e respeitado por quem estava dentro da cena musical, virou referência para os fãs de Rap.

“Eu vi que o brasileiro estava percebendo as skills de produção e eu já tinha isso porque eu tinha um PC muito bosta, então tinha que ter muita habilidade para diminuir processamento.”

Para Murillo, a matemática é uma ferramenta essencial. E versátil: os cálculos servem tanto para produzir uma melodia agradável quanto para descobrir a nota das músicas manualmente; além disso, é a visão de progressão aritmética que o produtor usa para diminuir o processamento do computador. Hoje, Mu540 tem um equipamento novo para suas produções, mas sua fórmula para o sucesso se mantém intacta: fazer um trabalho personalizado para cada artista e apostar na ciência exata. Segundo ele, o papo antes da produção é tipo terapia. “Quero que seja o melhor som da vida do cara”, diz. A ambição, como tudo que atravessa Murillo, é uma questão de lógica: “Se eu só fizer os melhores sons da vida de todo mundo, eu vou vender muito mais.”

Seu desejo de distribuir renda na cena musical continua. A equação do futuro é trabalhar nos bastidores justamente para possibilitar novos horizontes para artistas independentes. “Se eu ficar rico em cinco anos a ponto de fazer isso, tô feito”, dispara Mu540. “Não preciso de mais nada. Posso morrer no ano seguinte.”

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5 comentários em “Mu540, o matemático”

  1. orra, achei muito foda.
    não conhecia muito do DJ Mu540 além de algumas músicas, com certeza fiquei mais interessada no trampo dele e no site de vcs pela ótima entrevista e presteza nas infos!

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