Como MV Bill fez o primeiro Grime brasileiro com Charlie Brown Jr. e DJ Luciano

Inspirado em Dizzee Rascal, “Cidadão Comum Refém” marcou o pioneirismo do gênero no Brasil e o MC nos conta como tudo rolou.

Por: Gabriella Barros e Julia Reis

“É bom fazer parte da história, ser pioneiro em algumas coisas e ter esse reconhecimento do pioneirismo.” Enquanto gravava “Declaração de Guerra”, professor Bill tinha uma inquietude e buscava sonoridades diferentes para auxiliar suas composições. Quando ganhou um CD do Dizzee Rascal, rapper e produtor musical britânico, ele entendeu onde poderia chegar. “Fui conhecendo um pouco mais e vi que a sonoridade, além do sotaque, era diferente. E descobri que o nome daquilo que eles estavam fazendo era Grime”, disse o MC com exclusividade à Brasa Mag.

MV Bill no SAE Institute UK, em 2005. Reprodução/ Instagram @funai_costa

Era 2001 quando, no estúdio com DJ Luciano, MV Bill aguardava ansiosamente pela chegada de Chorão para a construção de “Cidadão Comum Refém”. “Lembrei que o Grime era uma [sonoridade] que caberia bem no tipo de levada que eu estava fazendo, que hoje em dia se chama ‘speed flow’.” O produtor responsável pelos instrumentais de “Soldado do Morro” e “Só Deus Pode me Julgar” ouviu as linhas da bateria londrina e conseguiu desenrolar o beat com perfeição. Durante seis minutos, o ouvinte se diverte com as quebras e viradas características, que formam sonoramente uma disputa divertida e inesperada entre a caixa e o bass, a partir de referências da música eletrônica, UK Garage, Reggae, Dancehall, entre outros.

“Você tem que reverenciar quem tá vivo. Vários movimentos se perdem por não reverenciar sua raiz.”

Quando Chorão ouviu a música, começou a fazer scratches no toca discos, que quebrou posteriormente. Ao menos, rendeu as gravações para o som. “Os scratches da música parte foram feitos pelo Chorão e outra parte pelo Luciano”, relembra. Depois dessa construção de base, Bill recorda quando o vocalista do Charlie Brown Jr. teve a ideia de convocar Champignon para executar a linha de baixo da faixa que marcaria o pioneirismo do movimento no Brasil. Com Marcão na guitarra, a música foi composta e virou um terreno limpo para a troca sinérgica dos dois artistas, que há 20 anos atrás encaixavam suas letras em um gênero que só agora está em ascensão no país.

Reprodução: Twitter/@mvbill

“Na sequência eu tive a oportunidade de ir mais umas cinco ou seis vezes para Londres, e cada vez que eu ia ficava uma ou duas semanas. E aí conheci um pouco mais a cena. Dessa vez de perto, não só através da música, mas indo para shows, conhecendo alguns artistas.”

A parceria duradoura entre o produtor e o MC

DJ desde os sete anos de idade, o parceiro de Bill, Luciano Rocha, tem seu nome marcado na história do Hip Hop paulista. O nome do DJ é um dos principais na transição dos bailes funk e soul para as festas de Hip Hop nos anos 90, ambos promovidos pelas festas black.

Além de veterano na discotecagem, o DJ se destaca pelas produções com De Menos Crime, Nega Gizza e a trajetória de anos com MV Bill.

Ele marcou presença na produção de faixas em praticamente todos os trabalhos lançados pelo MC – desde o primeiro álbum, “Traficando Informação” (1999) até “Voando Baixo” (2021), na música “Rasante”. Para Bill, o som mais recente é uma alusão direta que complementa o conceito do disco.

“É como se eu tivesse passando de carro com microfone e alto-falantes atrás vendo as mazelas do Brasil na paisagem das favelas. No refrão, fui nos primórdios do Hip Hop. O DJ Luciano faz scratches com colagens de outras músicas minhas ao mesmo tempo dialogando com o que canto.”

Créditos: Thiago Lima

Em “Voando Baixo”, MV Bill lançou 12 faixas inéditas com crônicas de teor crítico, já marcante em sua escrita. O disco chega para despertar seus ouvintes sobre a realidade e o caos social brasileiro. “Mesmo de forma isolada eu quis estar mais próximo do dia a dia das pessoas comuns, e quando você dá um voo rasante, você fica conectado com a realidade delas”, declara o rapper.

Olhar sempre à frente é um dos pontos fortes do artista, que tem a inquietude como catalisadora na evolução de seu processo musical. “As pessoas em casa precisam de alento, que também pode vir da música. Talvez o conforto esteja no meu trabalho. Quero entregar uma experiência musical que possa mobilizar as pessoas para uma vida melhor”.

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