Nebulosa Selo: poeira cósmica que dilata

Entre conceitos de física e a obstinação por uma verdadeira valorização da música brasileira, artistas paulistas se unem em selo musical que pretende se tornar gravadora.

Por Aimmeé Araújo

Na ciência, nebulosas são nuvens formadas por poeira cósmica, hidrogênio e gases ionizados a partir de restos de estrelas que se desagregaram. A ação gravitacional pode fazer a poeira cósmica que compõe esses corpos celestes se aglutinar e, assim, formar uma nebulosa, a qual, por sua vez, pode dar origem a uma estrela. Já no cenário musical paulistano, Nebulosa é um selo, uma possível futura gravadora, um sonho, mas, sobretudo, uma digital brasileiríssima. “Nebulosa nasceu já com a intenção de carimbar uma identidade sonora”, conta Levi Keniata.

É este fenômeno de reinvenção orgânica que rendeu reconhecimento aos integrantes do Nebulosa, selo musical concebido em 2018. Numa constante busca por inovação das operações e estéticas que envolvem a música brasileira, o grupo realiza trabalhos em conjunto com artistas que buscam explorar suas possibilidades dentro do Samba-Rock, Balanço ou Funk. Mas, toda essa história começa com Levi Keniata, 27 anos, produtor musical, arranjador, compositor paulistano e idealizador da investida, com o objetivo inicial de difundir seu próprio trabalho.

“Escolhemos esse nome principalmente por ser onde as estrelas explodem e existe uma névoa de poeira para que elas possam nascer novamente. Então, nebulosa é um berço de estrelas, em que elas precisam morrer para renascer. E isso tem tudo a ver com o processo criativo da música: derrubar e começar tudo de novo.”

Foto: Divulgação

Levi teve contato com a música desde muito cedo. A primeira aproximação se deu através de sua mãe, que é cantora da igreja. Depois, a fanfarra da escola lhe deu a oportunidade de explorar seus estudos musicais. Já na adolescência, o jovem da região do ABC paulista se apaixonou pelo Funk, momento decisivo em que percebeu novas possibilidades criativas em outros espaços, além dos religiosos. “Eu trabalho com música profissionalmente há uns 5 anos, mais ou menos”, conta o artista, “Em um primeiro momento, o selo serviu para carimbar a forma sonora que eu trampo, no sentido de arranjo e composição. Com o passar do tempo, eu tive contato com o Ôbigo, que foi a primeira pessoa com quem eu fiz música junto, conheci o Marabu e nesse processo começamos a construir uma rede com outros profissionais.”

Agora, o produtor musical se vê diante de um novo desafio. “Meu selo nem era necessariamente um selo, era um carimbo de sonoridade, mas recentemente decidimos nos tornar uma gravadora”, conta Levi, “Então, estamos saindo desse processo de selo, que é atuar somente em uma frente, como só gravar ou só distribuir, e estamos partindo para o processo de sermos responsáveis pela música enquanto um todo: gravação, distribuição, comunicação, venda de show, enfim, uma gravadora de fato.” Os artistas pretendem anunciar a transição esse ano, com editorial dedicado a apresentar o elenco da aventura Nebulosa.

Marabu / Foto: Lucas Loureno Lukknha

Qual é a identidade do selo?

Quando eu decidi que não queria mais trabalhar com Rap, comecei a me questionar qual é a sonoridade que faz sentido pra mim. Porque eu saía na rua e os moleques estavam escutando Funk; ia para perto da minha casa, no bar e estava tocando Funk. É claro, eu gostava da batida desde pivete e tudo mais… E, ao mesmo tempo, eu entendo que o gênero musical que é a grande fonte da vida para a gente entender como viver nesse país tão treta, tão difícil é o Samba. O Samba é uma linguagem que faz você aprender a viver a vida, sabe? É muita coisa de você aprender e dizer: pô, mano, eu preciso viver assim; ou, o bagulho tá osso, mas eu vou dar a volta por cima. Samba é o famoso axé que a gente encontra só nas linguagens culturais pretas e brasileiras, desde o candomblé ao maracatu.

E aí tem uma peculiaridade de que São Paulo é o berço do Samba-Rock, que é o Samba em outra perspectiva musical, o Samba que introduz outros instrumentos, como guitarra e sintetizadores. Então, o Samba e o Pagode da década de 1980 abriram uma prerrogativa para a gente continuar na busca por novas sonoridades dentro do Samba, que é um gênero de uma família gigantesca, desde desde o Samba Choro a Bossa Nova, de Partido Alto a Samba de Umbigada e por aí vai.

Então, a gente está em São Paulo, a gente gosta muito de Samba-Rock, alguém sempre pega um pandeiro, um cavaquinho e toca — por que a gente tem que ficar negando o que a gente gosta, o que a gente é? Sabe essa coisa de artista que quando entra em estúdio se torna um personagem? A pessoa fica o final de semana inteiro escutando Barões da Pisadinha, mas quando entra para fazer um disco, finge que mora em Los Angeles, tá ligado? Esse processo de negação dos seus fundamentos, das raízes musicais que estão presentes onde a gente vive…o que seu pai e sua mãe dela gostam de escutar. Assim, eu não estou dizendo que a gente tem que necessariamente fazer o que os nossos pais e avós gostam, mas eu acredito que a gente só vai conseguir entender como se deve viver a vida nesse país se a gente compreender como é que eles viveram, os nossos nego veio e nega véia. Isso que é a nossa proposta: dar continuidade. A gente não tá criando a roda, a gente só tá continuando.

Foto: Thalita Guimarães

Desde as duas músicas que já saíram antes do lançamento de Fundamento (2020), Negócios e Boa Sorte, a gente já estava nesse movimento de levar o Funk para uma outra linguagem. Quando chegamos em Fundamento foi quando se materializou essa proposta: a gente entendeu que o Funk e o Samba são duas culturas que são derivadas do povo banto, que é fundamento da Angola — tanto que a gente vai ver essa clave do Samba já no Cabula.

Queremos continuar com um núcleo pequeno, contido, mas com uma concepção conceitual e artística muito forte. Para o pessoal olhar para a Nebulosa e entender que na Nebulosa a gente trata o Funk, Samba e Pagode como o ápice da nossa música.

De onde surgiu a necessidade musical de dar continuidade?

A juventude tá vindo com propostas musicais que não olham para isso com carinho, não entendem como uma herança musical e, se não der continuidade para as coisas, elas morrem. Então, vamos supor que se ninguém desejasse aprender a tocar Samba? Se ninguém aprendesse a tocar pandeiro, reco reco, surdo, cavaquinho; o que iria acontecer? A cultura iria morrer. E o que a branquitude mais quer é o extermínio da cultura preta. Mais um problema é que, pelo Estados Unidos ser um país tão imperialista, a cultura preta de lá costuma se expandir para todos os países e é muito bacana o Jazz, Blues, R&B, Soul, mas se todos nós fizéssemos a linguagem igual a deles a nossa própria linguagem deixaria de existir. Então, a gente quer reinventar: manter a roda girando com uma nova estética, sintetizadores e baterias eletrônicas dialogando com instrumentos analógicos, como surdo, curica, cavaquinho.

Como você imagina o ponto alto do Nebulosa?

É curioso porque como o nome é Nebulosa, eu nem posso falar que o céu é o limite porque Nebulosa está no céu, né?! (risos) A ideia em primeiro momento é dar continuidade ao que é a nossa música preta, brasileira de fato — isso já é uma grande vitória. Mas, acredito muito em construir uma cena com uma perspectiva diferente sobre Funk, dar continuidade ao Samba-Rock e ao Pagode que foi feito na década de 1990. Não acreditamos que temos limites, que a gravadora vai chegar até aqui e parou, sabe? A gente tem um núcleo de artistas geniais e não queremos expandir essa gravadora para, sei lá, 100 artistas. Queremos continuar com um núcleo pequeno, contido, mas com uma concepção conceitual e artística muito forte. Para o pessoal olhar para a Nebulosa e entender que na Nebulosa a gente trata o Funk, Samba e Pagode como o ápice da nossa música.

Foto: Thalita Guimarães

A gente nota que existe toda uma especulação, apreciação e degustação musical para linguagens que são estrangeiras. Tipo, o Rap tem bastante visibilidade, portais culturais que estão sempre dissecando o material, tentando entender a poesia e as batidas. A gente está no movimento inverso de mostrar como o Funk é versátil, como ele é uma música crítica, mas também de diversão, alegria, festa, amor e neurose. É uma música como qualquer outra música, então todo sentimento que a gente tiver, vamos expressar pelo Funk. Queremos que o Funk seja visto como algo cultural, genuinamente cultural e rico, e que possa receber todo o tipo de experimentação musical que é permitida. Queremos que as pessoas percebam que existe a GR6, Kondzilla e Nebulosa — e entendam quem somos nós. Queremos subir o nível para o buraco ficar mais embaixo. Engrossar o caldo.

Estrela-chave

No dicionário, fundamento é o conjunto de regras básicas de organização e funcionamento de uma instituição. Esse foi o nome escolhido para o primeiro disco de Matheus de Oliveira Santos, também conhecido como Marabu, lançado pelo Selo Nebulosa. Fundamento (2020) é uma obra marcada pelo Funk e que flerta com o Samba em uma atmosfera noturna, caótica, de ao mesmo tempo malícia e reflexão. “A gente quer contar uma história, dividida entre presente e futuro”, diz o artista paulistano de 24 anos, “Eu fico puto quando pensam nosso futuro como o filme do Pantera Negra, parça, a gente não fala inglês. O nosso futuro não é carro voador e não tem que ter esse som. Na nossa perspectiva, quando sentamos pra criar o disco, o nosso futuro tem som de berimbau, pandeiro, tambor — e o nosso presente já tem esse som.”

Não tem erro: quem ouviu Fundamento (2020) sentiu. A sonoridade, inquestionavelmente nacional, traz à tona nossa cultura em uma mistura harmoniosa de gêneros musicais. Essa sensação de pertencimento ao universo apresentado no disco vem com fluidez e deixa a nossa guarda mais baixa para a produção musical, assinada por Levi, bater em cheio várias vezes a cada faixa. “Eu sei que tem muita influência do Rap no que eu faço, mas não era exatamente o Rap que eu queria”, conta Marabu.

“A gente tem sempre essa brisa de que o Rap abraça todas as possibilidades de ideias, posicionamentos e expressão, o que é firmeza, mas fui entendendo também que nós, juventude preta, temos a necessidade de povoar outros gêneros musicais também, de colocar o pé e as mãos em outros estilos, sabe? Não só samplear um Pagode, colocar em um Rap e, a partir disso, achar que está fazendo um pagode — existe um jeito de se fazer Pagode. Se é um Funk, não é só colocar um sample da batida, existe um cantar como Funk e uma forma de fazer Funk. Foi esse processo de descoberta que me encantou e me encanta até hoje. Eu encontro na Nebulosa a possibilidade de construir com outras pessoas essa perspectiva para a música brasileira.”

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