NILL, O ADOTADO MERGULHANDO NAS MEMÓRIAS DE “REGINA”

Lançado no dia 24 de julho de 2017, o disco “Regina” é uma obra bibliográfica do paulista Davi, conhecido como niLL que convoca seu pseudônimo O Adotado – responsável por toda produção do álbum, para transcrever momentos. Seja através do barulho do vídeo game, áudio do WhatsApp e ruídos da cidade todos os elementos nos levam para um único caminho: seus mais profundos pensamentos.

Amores passageiros; conflitos; relações alimentadas pela tela do celular; família e muitos sonhos foram descritos. Não estranhe se ao finalizar o álbum você sentir que estava em uma conversa é proposital. niLL rima nas batidas uma carta aberta para sua falecida mãe, a Regina, com todo carinho e descrição que gostaria de vivenciar. Assinado pela Soundfood Gang o disco conta com a presença de Albano 6C, Estranho, Reptil, Yung Buda, Makalister, Victor Xamã, Ogi e De Leve. Após cinco anos é perceptível como o disco virou o jogo, se preparem para revistar as memórias de Regina com seu criador.

Foto: Isa Hansen

Brasa: O álbum “Regina” me faz lembrar de essência, mas quero que você me conte, como você estava naquela época?

niLL: Lembro que estava em jornada tripla e assim trampava em uma barbearia com meu parceiro, era meio que social media da barbearia… eu tirava foto, postava as paradas. Tinha um estúdio bem longe de casa e a gente ia para lá gravava as coisas assim. Lembro que não tinha internet lá então trazia as coisas, baixava em casa e ia pra lá usar e tals. Era uma época muito conturbada assim porque acontecia muitas coisas ao mesmo tempo né, tanto na vida social, como na vida amorosa também e a música ali era o foco desse tornado ai sabe. Então tudo que acontecia alterava a forma de fazer música ou aparecia alguma letra, até o detalhe pequeno por exemplo, o lance do caminhão passar na rua e derrubar o fio.

Lembro também cara que era uma época de decisão, porque vinha preparando este álbum desde de 2016, isso dai que fez ter novas perspectivas de vida. Ainda passava por um pensamento meio triste de porra vou ter que abandonar o meu amigo meu parceiro e tal, trabalhava com ele além de ser um trampo era um baguio de parceria né mano, de ajudar o amigo a construir o sonho dele e tal, eu tinha que pegar outra pessoa, ai eu fui e coloquei o Buda no meu lugar.

Brasa: E foi depois você se mudou para São Paulo, como foi este processo?

niLL: Então , ai cara eu vim pra Sampa e porra eu vim pra cá e já fui fazer conexões com alguns amigos. Fui ai pra leste também na caso do meu parceiro, fiquei um tempo na Black Pipe. Lembro que quando tava com o disco pronto eu postei uma foto e ai na legenda eu coloque assim é  “a cara de quem nunca vai precisar mais entregar currículo”.

Brasa: Tipo assim na sua visão “Regina” era meio  que um vai ou racha na questão da música?

niLL: Não não é um vai ou racha, era um tipo assim é um vai, ta ligado, porque não via as partes negativas, não via como dar errado aquilo, aquilo era tipo: Porra tô com ouro na mão, daqui pode fazer muita coisa acontecer! Então eu preciso me concentrar e preparar para o que vai vir. Lembro que quando eu lancei o baguio começou a andar assim e tipo no começo as pessoas não entendiam, nas primeiras semanas a pessoas não entendiam.

Brasa: Era 2017, dentro da cena era mais comum álbuns que retratavam uma vivência sob a ótica de questões sociais e políticas. Você explorou sua realidade através de questões pessoais.

niLL: Correto Karol, você me fez lembrar o meu albúm foi um grito mais era um grito sobre os meus problemas, sobre o que estava acontecendo. Quando estava fazendo o disco falava assim: Eu quero transmitir todos os sentimentos de tudo o que está passando, como se eu fosse contar para minha mãe sabe, por isso o disco leva o nome dela. Quando aconteceu da minha mãe falecer foi muito difícil porque ela, a mãe é o pilar da família da casa, então muitas coisas acabam desabando assim sabe.

“Foi bem na hora que eu olhei pro lado e falei – Não o baguio está tudo caindo tá tudo ruindo o que eu vou fazer? Então depois de tudo comecei a criar este álbum e ele acabou depois erguendo essa estrutura. E isso que foi louco porque a gente fez uma homenagem pra ela, uma parada pra ela, conversando com ela, e ao mesmo tempo reclamando por ela ter indo embora, deixado tanto B.O pra trás vamos dizer assim , mas depois rendeu e arrumou tudo isto sabe, então graças a esse disco conseguir ajudar o pessoal da minha casa. Quando paro pra pensar nesse ponto fico horas assim refletindo é cara, era como se tivesse mandado de volta uma resposta né, então por isso que pra mim é tão especial esse disco. “

Brasa: É o mais especial pra você?

niLL: Eu digo que sim , é o mais especial nesse sentido. Até por isso que não me atrevo  e também não quero fazer algo igual a ele.

Brasa: É porque a galera pede  né o Regina 2.0, o que você acha disso?

niLL: Não eu não quero, não gosto de repetir a mesma fórmula mais uma vez, todos os discos eles são únicos, eles são feitos pra ser únicos e por mais que tenham franquias, por exemplo, Good Smell, tem o um tem o dois, vai ter o três enfim, esses dai podem ter semelhanças porque é um projeto. Mas quando se fala de álbum cada um é particular de um jeito, cada um conta uma história é alguns tem personagem outros eu sou o personagem sabe.

Brasa: Agora falando sobre expectativa, quando que você sentiu que conquistou o que queria com Regina?

niLL: No final de 2017 pro  ano seguinte, foi quando comecei a fazer os show também e sei lá acho que eu fui sentindo mesmo muito depois, quando eu comecei a ouvir da boca dos ídolos sobre o baguio. Eu ia fazendo… fazendo…. fazendo, sabe então nesse momento quando eu comecei a me deparar com  valor do clássico né mano, ouvindo através dos meus ídolos eu comecei a tipo a pegar essa visão

Brasa: Ai logo na sua primeira rima você fala que você leva as coisa um pouco a sério demais em Regina a gente viu um NiLL mais impulsivo, você era tipo levava tudo a sériâo, como que era ? E como você esta hoje?

niLL: Nessa época realmente acho que esse sentimento de levar as coisas pro mais sérias demais acabou sendo uma parte da minha personalidade, porque até hoje é natural isso dai, vem de mim desse jeito, mas em questão de criação e como uma pessoa artística, agente pode encontrar pra essa época um niLL mais jovial assim, mais novo e até mais inconsciente também, que vive fazendo as coisas mais por instinto, um niLL mais técnico. A gente pega desde a identidade visual até sonoridade então acho que na construção desse álbum aí era algo como um experimento sabe, experimento livre então por isso que eu tinha  essa energia mais jovial.

Brasa: Não sei se você vai conseguir lembrar como sua mente fez isso na época, mas eu sempre quis te perguntar isto, como O Adotado chegou a essa construção dentro da produção Regina?

niLL: Eu precisava fazer como se fosse alguma cola pra grudar todos os elementos, todas as músicas, é as coisas assim por exemplo, os barulhos cotidianos. A gente teve numa dessas sessões dai de mix e master, estava mixando a música e falei não mano precisava ter alguma coisa para ambientar, e ai a ideia do microondas foi porque é uma parada caseira né, poucos discos tava feito numa forma caseira também, uma sensação mais de lar, de estar no lar e tal, então tipo , elementos que ajudavam lembrar mais, então por exemplo o  amarelo clarinho, também é isto amarelo clarinho, foi na intenção de deixar esse negócio mais familiar, isso também foi usado como curadoria para os samples.

Foto: Rafael Barra (Going To Crash)

Brasa: Após 5 anos do seu primeiro álbum completo, o que você pensa hoje sobre legado?

niLL: Eu pego muito o Naruto como exemplo é uma obra que cresceu comigo, continuou me acompanhando ele cresceu também, eu continuo assistindo e ele tem filho agora, acompanhei fases. Meus filhos provavelmente irão assistir e é muito difícil fazer algo eterno, mas quando acordei para essa percepção que a gente conseguiria fazer algo a mais na música todo dia penso nisso. O que eu vou fazer é baseado nisso sabe? As vezes a gente trabalha na vida pensando em deixar algo para a sociedade, não para a gente.

Acho que a minha contribuição musical e da SooundFoodGang é um legado que quero deixar. O meu foco mesmo é mudar o máximo a música brasileira, deixando o mais versátil possível. Para que as pessoas não se assustem com o novo, como foi comigo. O plano é a gente evitar o efeito cartola.

Brasa: Agora trazendo para os dia atuais, qual frase do dia representaria o álbum Regina?

niLL: Para definir esse disco precisaria mais de uma frase, mas acho que alguma frase de agradecimento… de incentivo… Algo como: “Servir sempre para ser servido”. “Confie no seu instinto”.

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