O legado diverso que Rihanna quer deixar com A Savage X Fenty

Por Juliana Wanderley e Paula Silva

Não faz muito tempo desde que Rihanna passou a traçar seus caminhos para além da musicalidade. Desde 2017, com o nascimento da Fenty Beauty, a artista passou a apresentar suas multifaces com muita naturalidade ao público, sem levar em conta a pressão do queremos-disco-novo. Alguns desavisados até insistem na pergunta, quando mal percebem o óbvio: Rihanna passou a se traduzir muito mais nos corpos do que no som.

Um cenário abstrato, daqueles que não dá para perceber onde começa ou termina, ambienta os desfiles do Savage x Fenty Show, que possui dois volumes (ambos disponíveis na Amazon Prime). Sentir e tocar a pele. O show de RiRi nos chama para uma experiência visual que nos arrepia como um toque — o que parece ser uma adaptação bastante inteligente a esses tempos sombrios de pandemia, em que “tocar” ultrapassa os limites do perigo. O espetáculo envolve o público nas curvas de dançarinas que representam o real feminino, sem firulas ou anúncios. A unicidade de todo esse universo não vem somente das mãos da artista, mas também de como o público interpreta e absorve suas criações. E o que ela entrega é fruto de uma percepção da inspiração sendo onipresente, podendo ser encontrada em diversas culturas, vivências que não são descritas, mas sentidas.

Desde a criação do império, RiRi vem mostrando aos seus fãs e ao mundo seu lado criador acompanhado de sua energia camaleoa. “É tudo uma questão de humor”, ela lembra, referindo-se aos inúmeros e icônicos looks flagrados pelos paparazzis de plantão. Ela faz questão de mostrar suas “mudanças de humor” nos desfiles da Savage X Fenty, e é inevitável não pensar nos paralelos que ela mesma faz com suas próprias fases musicais. É só reparar nas três partes das apresentações da segunda edição da Savage X Fenty Show, onde duas delas se destacam: a primeira, mais dark, sensual e intimista, nos remete a sobriedade de “Rated R” (2009) e de “Anti” (2016), último álbum lançado antes de se tornar uma business woman; e a segunda parte, colorida, florida e etérea, traz uma vaga (e boa!) lembrança dos tempos de “LOUD” (2010). Rihanna quer mostrar toda a sua excelência, adquirida em anos dentro de estúdios e vestindo as mais badaladas grifes do mundo.

Detalhismo, precisão, refinamento. Rihanna afirma a sua necessidade em tocar, sentir e experimentar um tecido antes de escolhê-lo para estar ali ambientando a sua marca. A paleta de cores fluida, que delicadamente abraça o olhar, reforça um íntimo despido de filtros do Instagram. É ver dezenas de corpos se movimentando e encarando a realidade deles. Tudo é tão dinâmico, cada passo é tão sincronizado, que o espectador consegue sentir a perfeição por trás de um trabalho tão bem lapidado. E é isso que Rihanna nos faz concluir: o “perfeito” é tão somente uma sensação. Leve, sutil, mas forte. Ainda bem.

A parte criativa da marca conta muito com o toque pessoal de Rihanna. Cada peça carrega experiências de seu passado, quando ainda mexia e remexia em suas próprias roupas antes da fama como cantora. Os bastidores da última edição do Savage X Fenty Show nos mostram uma Robyn Fenty cuidadosa, exigente e comprometida com sua marca e a responsabilidade que ela carrega. Ela escolhe os tecidos, as texturas, verifica medidas, as cores usadas. Mas ela não faz tudo isso sozinha. Seu time, diverso como os desfiles de sua marca, sempre está junto, dando pitacos, anotando e providenciando tudo em nome de uma revolução avassaladora no mundo da moda. A inclusão é uma pauta inegociável para Rihanna. Ela quer todo mundo envolvido. Ela quer todo mundo usando suas lingeries.

“Eu quero fazer coisas que eu possa ver nas pessoas que conheço, e elas vêm em todas as formas, tamanhos, raças e religiões diferentes”

Ela quer que você também faça parte disso. Que você desperte sua mais bela e real sexualidade, que você também se desprenda dos padrões idealizados pela sociedade. Isso é inexplicavelmente delicioso de se ver e sentir.

A trilha sonora, como esperada, é bem savage. A trilha sonora dos dois desfiles agitam essa celebração à corporeidade e a sensualidade, dando aquele toque especial de diversão e distração. Você não conseguiu tirar os olhos dos diversos corpos dançantes embalados por hits que vão desde Beatles até Ludmilla e MC Lan graças ao trabalho do time de som, composto por Susan Pelino, Ryan Schumer e um veterano da produção musical, Jamar Jones, que já trabalhou na trilha sonora de grandes premiações como o BET Awards e até o Oscar.

Para além do que é visto, mas também dito, Savage x Fenty é um sonho multifacetado. Apesar de irônico, visto que sonhos são movidos pelo que temos de mais irreal em nosso íntimo, Rihanna consegue compor uma realidade nua e crua, sem enfeitar nada. É isso e ponto. Foda-se. Em um delicioso gerúndio, o desfile vai experimentando, explorando, sentindo em cada corpo o que há de excepcional, com presenças icônicas como Jaida Essence Hall, Normani, Bella Haddid e Shea Coulée. As faces, gostos, estilos, defeitos, se esbarram até se misturar. O resultado acaba sendo infinito; é uma constante evolução de Rihanna e todos que a acompanham a marca.

Todo o show nos dá um breve panorama do que será o futuro dos desfiles e festivais de moda daqui para frente. Com ou sem pandemia, o streaming ditará o ritmo das experiências audiovisuais, especialmente no universo da moda, costumeiramente apelativo ao olhar. Em dezembro do ano passado, Saint Laurent e Bottega Veneta transmitiram pela internet suas coleções para o verão de 2021, esse ano de esperança em meio a tantas incertezas que ainda permeiam o mundo. Rihanna ainda veio antes com seu show ultra colorido gravado em setembro e disponível no mês seguinte na Amazon Prime Video – como a boa lançadora de tendências que ela é.

Inevitável não pensar no legado que Rihanna deixa para a gente. Essa herança, que vai muito além dos 115 milhões de dólares de avaliação de mercado segundo a Forbes, possui um valor inestimável em termos de inclusão, diversidade e reafirmação: Rihanna obrigou a indústria da moda e da beleza a finalmente enxergarem pessoas negras e com deficiência como potenciais consumidores de seus produtos; ao colocar uma mulher negra grávida para desfilar na primeira edição do Savage X Fenty Show, Rihanna foi lá e jogou na cara de todo mundo a necessidade de incluir as mulheres grávidas nesse movimento de empoderamento, sobretudo no mercado de trabalho; e a participação da comunidade LGBTQIA+ em seus rolês é uma bandeira que ela faz questão de levantar, seja ao patrocinar concursos de beleza negra e queer (como o icônico “Return Of Porcelain”), ou ao incluir drag queens e pessoas trans em seu rol de supermodelos dos desfiles da marca. O recado de RiRi é claro: “Olha como não é difícil incluir todo mundo”.

Rihanna é uma mulher negra que dobrou ao meio as elites brancas da música e da moda com suas opiniões ácidas e necessárias, e seu desejo de ver pessoas reais fazendo parte de seu sonho. A Fenty, hoje, é o seu palco principal, e ela quer que você, com sua real beleza, seja a estrela principal.

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1 comentário em “O legado diverso que Rihanna quer deixar com A Savage X Fenty”

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