O pixo e o direito à cidade

O primeiro registro de pixação no Brasil foi documentado nos anos 60. O “Abaixo a Ditadura” de preto fosco representava a repulsa ao golpe e o desejo de liberdade em meio a Ditadura Militar.

“Abaixo a Ditadura” é considerada a primeira pixação brasileira. Foto: Reprodução.

Com o passar dos anos os pixos se apresentavam não apenas em muros e monumentos, mas também em prédios, viadutos e em todos os espaços urbanos comuns passíveis de serem rabiscados. Carlos Alberto Teixeira, o dono da frase “Celacanto provoca maremoto”, iniciou o movimento nos anos 70 no Rio de Janeiro depois de assistir um episódio da série japonesa “National Kid”. O jovem começou rabiscando quadro, depois partiu pros pilotos, até tomar coragem pra comprar a lata e sair em bando com amigos pela rua escrevendo a frase que o tornou referência no “xarpi” carioca.

Apesar da frase legível, a partir de 1980 no Rio de Janeiro as assinaturas ou nomes do “xarpi” – como são chamadas as pixações no Rio – não necessariamente começaram a ser de fácil entendimento: os pichadores nem sempre deixam recados, eles pixam para serem notados por outros pichadores. Na cena paulista o movimento se organiza em bondes que pixam juntos sua assinatura, enquanto no Rio cada assinatura é individual mas existem as chamadas “famílias”.

Essas organizações não impedem que frases de cunho político, humorístico e até afetuoso sejam incorporadas no movimento. Trocamos ideia com um pixador ativo e um “parado”, ambos do Rio de Janeiro, sobre arte, ocupação da cidade e significados.

“O xarpi é uma forma de visibilidade pra quem não tem voz! Uma forma de ser visto e também mostrar o seu melhor, mostrar onde sua criatividade pode te levar… tem muita gente que disputa o visual, já eu faço porque eu gosto de ver meu nome”, conta GKing, pixador carioca.

A pixação em São Paulo também se inicia em 1980, com referências de bandas de punk e heavy metal. A identidade desses grupos tinham inspiração nas runas anglo-saxônicas e no alfabeto dos povos germânicos e escandinavos. A estética acabou sendo aprimorada na pixação paulista, tornando-se, enfim, o alfabeto da rua.

Pixo feito no Terminal Bandeira em São Paulo. Foto: Vaidapé

A cidade

Leandro Lopes, NUNO DV, se denomina “pixador parado”. O carioca pixou entre 1990-1992, 1995-1997 e 2007-2009, e em conversa com a Brasa Mag conta que o nome na parede soa como um grito escrito que diz “eu estou aqui, a cidade vai e vem, mas eu estou aqui. Você gostando ou não, entendendo ou não, aceitando ou não… Eu estou aqui”.

A cidade é um direito de todos. Ou deveria ser. Ao pixar, se assume um alter ego de rebeldia. O crime instituído na Lei Federal de Crimes Ambientais nº 9.605 Art. 65 de 12 de Fevereiro de 1998, tem como pena a detenção de 3 meses a 1 ano e o pagamento de multa. Caso a instalação tenha valor artístico, arqueológico ou histórico, a pena vai para 6 meses a 1 ano de detenção, junto da multa. Indo além dos termos da lei, essa proibição está ligada a manutenção da beleza da cidade, o pixo é visto como “sujo”, como contribuição visual negativa na cidade. E é a proibição que causa a adrenalina.

O vício me consome, eu vou admitir/ Boto nome todo dia, eu sou viciado em xarpi/ Não tem como fugir, nem fingir que esqueci/ Posso dar um tempo, mas logo depois eu volto a agir/ (…) Pra mim já virou rotina essa adrenalina (“Leonel”, Rap do Xarpi nº. 7).

O pertencimento não encontrado na cidade é encontrado dentro da comunidade do xarpi. As reuniões são encontros periódicos onde os rebeldes silenciosos da rua usam de seu tempo para trocar experiências, assinar cadernos e interagir dentro de seu mundo. A noite e as ruas se tornam o palco desse show e ali as pixadoras e pixadores viram os donos da cidade.

King ou Gking, pixador carioca na ativa, diz que desde 1994 pixa. Quando perguntamos porque pixa, diz “eu boto nome desde 1994, gosto do cheiro da tinta. Gosto de viajar, levar uma tinta, botar uns nomes onde vou pra amanhã ou depois passar de novo e ver minha arte”.

Na pixação, é interessante quando encontramos as semelhanças das cenas locais em cada cidade do Brasil, mas o mais interessante é pensar culturalmente nessa relação não apenas dos pixadores com a cidade, mas com eles mesmos e outros do meio. É arte, intervenção, mas pode ser rebeldia, estilo de vida, pode ser aprendizado, e pode ser até vício.

”Já foi válvula de escape, já foi rebeldia, já foi alimento pro ego. Hoje vejo que foi uma base que ajudou a construir quem eu sou, não pixo mais com tinta, mas escrevo sobre Xarpi, participo de eventos e debates. Continuo porém sem tinta, então vejo como algo que fez, faz e sempre fará parte de minha vida, seja para os prós ou para os contras”, diz NUNO DV.

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