O uso do atabaque na criação do tamborzão

Comunicação também é sobre ancestralidade e ritmo. Ela existe na música, através da cadência daquela batida de pé marcando o tempo de algo que você nem sabe o que é, nem de onde veio. Isso se estende para o dia a dia, para aquilo que é escutado nos fones, passando por gêneros variados. E um dos melhores exemplos para explicar um pouco sobre tudo isso é o tamborzão.

Os caminhos das musicalidade brasileira

“A música brasileira tem o tambor como centro, a música dos norte americanos tem a voz como centro” é a fala do Emicida na sua participação no podcast Mano a Mano, o que coloca o tambor como uma forma de comunicação que se estende para aquilo que é produzido atualmente.

Durante o período escravagista, os instrumentos de percussão sobrevivem no Brasil de uma maneira indireta. Através do sincretismo e pela ausência de leis que proibissem de fato os tambores, mesmo que isso não aplacasse grandes perseguições contra aqueles que batessem o ritmo que alinha-se com o coração, como iria acontecer no samba e nos terreiros após abolição.

Já nos Estados Unidos, leis como Negro Law of South Carolina proibiam qualquer item de percussão, assim como manifestações culturais vindas de pessoas negras e até plantio dos próprios alimentos. A ausência de tambores contribuiu uma musicalidade pautada em instrumentos de corda e sopro.

Dos batuques das crianças à pedagogia dos tambores

O funk, nasce de pessoas marginalizadas que vivem nas periferias e favelas. Nesses ambientes a presença neopentecostal é uma constante, mas a presença das religiões de matriz africana permanece — e resiste.

Em “O corpo encantado das ruas” o escritor, compositor, professor e babalaô Luis Antonio Simas discorre sobre a vida das ruas, como elas abrigam entidades afro-ameríndias e sobre suas sonoridades. Também traz o ponto da didática dos tambores e como os atabaques são educacionais nos terreiros e no samba.

Aqui abro minha própria linha de pensamento: a musicalidade brasileira é interseccional; é impossível falar de rap e funk sem falar sobre samba. E onde esses três grandes gêneros, que atuam como instituições sociais de identidade, se encontram?

Luciano Oliveira: da curiosidade à visibilidade

O tamborzão é um ritmo característico do funk carioca que surge no final dos anos 90 quando o ex-locutor, dj e produtor Luciano Oliveira, que depois ficaria conhecido como Mc Sabãozinho, buscava acrescentar mais percussão nas batidas eletrônicas que eram tão características no funk (até porque o funk é a música eletrônica brasileira e já começamos esse papo, hein).

Um trabalho que busca inovação é feito através de muita pesquisa e experimentação, e era isso que Luciano estava fazendo na sua bateria eletrônica Roland R-8 MK II, onde testava os beats de diferentes instrumentos até se deparar com uma batida grave de um atabaque.

As Cores do Sagrado (por Carybé)

O instrumento provavelmente foi trazido por sudaneses ou bantus escravizados e são usados em rituais religiosos Yorubás, o que dá características ao candomblé – onde cada Orixá tem seu toque e preparação específica – e na capoeira. As variações de nomes mudam de região para região.

O produtor fez um loop daquele som e nomeou aquela nova batida que além de passar a circular em 129mpb (até então o comum eram 120mpb) também era um misto de Miami Bass mergulhado no samba carioca de atabacão.

Depois de devidamente nomeado, sua primeira produção foi em 1998 no Rap da Vila Comadri de Tito e Xandão na coleção DJ Lugarino apresenta os melhores da Zona Oeste, o que mostra mais uma vez como ambos os gêneros, e arrisco dizer movimentos, andam lado a lado.

A batida ficou famosa mesmo quando o Dj Everton Cabide, integrante da equipe de som de “A Gota”, vendo o potencial dançante do som recheado de contratempos, produziu uma montagem muito conhecida. Foi nesse momento que a cena nacional do funk começou a ganhar mais visibilidade, pois a montagem foi parar na famosa rádio carioca Rádio Imprensa.

Mas o atabacão só passou a ser chamado de tamborzão durante o Festival de Galera Coroados que acontecia em meados dos anos 2000 na Cidade de Deus, graças ao público que estava lá presente para ver os shows.

Por mais que nosso entendimento sobre tecnologia esteja atrelado a equipamentos eletrônicos, como computadores e celular, ela vai muito além. Conhecimento é sinônimo de tecnologia, logo a comunicação e recursos, como o atabaque, são uma aplicação prática desse conhecimento.

Os tambores se fazem presente em todos esses significados, funcionando como a representação física da intersecção, pois são eles que unem universos e vivências. Esses instrumentos que carregam tantos significados ditam o ritmo da vida de pessoas pretas, fazendo seus corpos dançarem há séculos.

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