Os caminhos da liberdade de Monna Brutal para Brasa Magazine

Através da autenticidade, a rapper paulistana mostra que seu talento é marca registrada para o caminho da autodeterminação.

Por Juliana Wanderley

Entre batalhas de rima e produções agressivas, Monna Brutal, rapper nascida nas periferias paulistas, ocupa a cena do hip hop independente há mais de uma década. Com uma extensa bagagem na cultura de rua paulista, a artista sempre encarou a música e dança como ferramentas de aquilombamento. E era dentro do seu espaço e coletividade que Monna experimentava a liberdade de ser; foi influenciada por diversas expressões artísticas, desde o forró ao break. A Bixa Papão criada em Jova Rural, zona norte de São Paulo, moldou-se como uma rapper que não cerceia seu talento. Parcerias destacam isso, como com Tássia Reis em “Dollar Euro”. Mas antes disso, a artista já demonstrava coragem para ousar em suas composições. Em 2018, ela lançou seu primeiro álbum, entitulado “9/11”, em que fala bastante sobre a força e a luta das pretas transsexuais.

Foto: Gabrielle Neves

Para ser livre, a negritude precisou enfrentar diásporas e genocídios. A resiliência contra uma estrutura opressora que cala pretos persiste até hoje. Seja na Idade Moderna ou no cenário da atualidade, os fenômenos de resposta à branquitude são brutais. Hoje, Monna Brutal entrega o ápice de seu instinto libertário e único: “2.0.2.1” (Lado A). É curioso, no entanto, observar como as criações da artista aspiram a liberdade sem que, na realidade, a sua história não permita que seja livre. “É muito difícil falar sobre liberdade justamente porque é muito necessário a gente falar da atual situação e de onde ela brota. E a gente está aqui. Nós fomos meio que deixados à margem após esse processo colonial não deu certo, não houve nenhum reparo em grande escala, tanto hoje quanto ontem”, afirma Monna. Em suas rimas, a artista mostra que as fronteiras estabelecidas na realidade de negros e pessoas LGBTQIA+ fazem parte de um passado colonizatório e genocida. A partir do século XVI, as fronteiras foram o núcleo dos demais acontecimentos na história. Os atritos entre as potências europeias giraram em torno da demarcação de terras. Através de uma estruturação, a liberdade acabou se tornando privada em vários sentidos.

O que para alguns pode ser sobre liberdade, para outros pode ser simplesmente uma questão de sobreviver naquele espaço. “É muito doido falar de liberdade dentro da nossa possibilidade escassa de vivência na cidade, porque a cidade é justamente esse espaço onde deixa a gente com o peso da senzala nas costas. Eu falo bastante assim, que quando eu saio do quilombo, da minha quebrada para ir para ao centro da cidade, eu sinto o mega peso da senzala nas minhas costas. Porque em vários aspectos a cidade está aí, desde a sua engenharia até os seus costumes, nos lembrando que a liberdade foi uma coisa que foi e é privada para a gente”.

Foto: Gabrielle Neves

“É muito doido falar de liberdade dentro da nossa possibilidade escassa de vivência na cidade, porque a cidade é justamente esse espaço onde deixa a gente com o peso da senzala nas costas.

Monna brutal

Observando o espectro coletivo de público e privado ao qual se insere Monna e cerca de 109 milhões de cidadãos que se identificam como pretos ou pardos no Brasil, a liberdade pode – e precisa – ter vários significados. Afinal, é o conceito de ser livre, tão intrínseco à singularidade da vida, que o permite estar presente em diversos episódios da história. Porém, o direito à liberdade, previsto no artigo 5° da Constituição Federal, quando aplicado na pele dessas figuras, acaba por ser utópico. O embate, a luta, a batalha por ser livre sempre fizeram parte da socialização da negritude perante a população.

“Vômito” foi um dos singles de seu primeiro álbum lançado há três anos. Nele, Monna traz o voo como representação individual de um caminho libertário. Entretanto, ao aprofundar-se no seu imaginário, a cantora retrata esse processo como algo muito individual. “Vai muito sobre o senso de cada pessoa sobre o que é a liberdade. (…) Para mim, (a liberdade) fala muito sobre mundo, sobre terra, sobre planeta. E essa liberdade é inalcançável, né? Ela beira a utopia. A gente tem aí as fronteiras, só que elas são validadas a partir de processo de colonização, porque o que antecede isso, em fronteira nenhuma foi respeitada”.

Toda ação dentro da música, para mim, tem um tom muito maior de embate.

Outras artistas esbarram na mesma perspectiva, como a Elza Soares. Em “O Que Se Cala”, Elza narra um grande ode à liberdade de expressão, através da voz como ferramenta. Monna é a representação da desse direito democrático. Mas, mais do que isso, liberdade de reação. Reagir, revidar, responder. Se tais tarefas exigem coragem para serem postas em prática, para Monna Brutal, o revide é respiro. O que cabe, por fim, é renovar o corpo, a matéria, o singular. Assim, para ela, é perceber o que vem de si e como que expressamos isso dentro da nossa voz. “A cada 11 minutos uma voz nova, pois a cada 11 minutos um preto é tombado no asfalto, e cada dia vozes novas que são vítimas da transfobia de um puto covarde” (verso de Submarino, canção do Rap Plus Size com participação da Monna Brutal).

Monna discute em seus versos a liberdade por retomada. Ao observar tudo o que a trouxe até aqui, é nítido: se sobrevive conquistando o direito de ser e transitar. Se não for assim, os rótulos estabelecidos pela branquitude te cerceiam e engolem sua liberdade. Seja nas ruas ou nos estúdios, é o mesmo game que estabelece quais são as fronteiras.

Foto: Gabrielle Neves

“Eu acho que o racismo estrutural bate forte na indústria fonográfica. Quanto mais branca você for na sua atitude, quanto maior a branquitude que você manifestar nas suas letras, mais rentabilidade e recebimento mais amplo dos ouvintes. Acho que é isso independente da vertente musical que o artista esteja. […] Tem uma questão do privilégio da beleza, o “pretty privillege” do babado (sic) que é o que bate muito na indústria, inclusive enquanto estética. Isso para mulheres pretas, homens pretos, pessoas não-binárias, enfim. Afinal de contas, não dá para falar de nada sem falar de racialidade. É um close (sic). No nosso caso, falando referente à feminilidade, é uma coisa de quanto mais harmônica você for esteticamente, mais você pode ser aceita, mais você pode ser recebida, mais você pode ser incluída dentro desse algoritmo racista. Isso é um fato”.

Para existir, é preciso resistir dentro dessa esfera de poder. Os caminhos da liberdade são mútuos, mas intransigentes; acabam guiando pretos para caixas confortáveis ao sistema, confortáveis o suficiente para que ele consiga lidar com a potência representada pela cultura e arte negra, que se libertam em artistas como Monna Brutal.

Foto: Gabrielle Neves

São muitas variedades de expressões – e talvez possa ser esse o grande encanto de ser livre. É sobre ser por si só, antes de tudo, e ter coragem para retomar o direito disso. Monna, da sua perspectiva para o mundo, ensina em cada criação. Uma exímia libertária, Brutal é leve nos movimentos, mas dura no golpe.

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