Os caminhos de Elniño

Por: Ariene Leite e Gabrielle Neves.

Depois de perceber que tendia a ser agressivo em alguns momentos e leve em outros ao se apresentar nas batalhas de rima, Thiago resolveu trocar o Miranda de batismo por Elniño. Assim como o fenômeno climático, ele resumiria a instabilidade de temperamento nos palcos. O sentimento iria prevalecer até mesmo nas suas produções, que costumam provocar diferentes sensações em quem escuta: ora calmaria e paz, ora revolta e força.

Hoje o carioca de 35 anos, que começou a fazer sua arte com apenas 15, é referência quando se trata de músicas essencialmente verdadeiras e condizentes com a sua trajetória. Para entendermos Thiago Elniño e o trabalho que ele entrega, é preciso entender de onde ele veio e o que fez chegar até aqui.

Além de rapper, Elniño é pedagogo e educador popular. Em “Pedagoginga”, uma de suas canções mais conhecidas, ele chega dizendo “Eu não quero mais estudar na sua escola que não conta a minha história/ Na verdade, me mata por dentro”, e nos mostra como o papel que exerce enquanto educador é exatamente esse: dizer, através da arte, o que não é explicado sobre a cultura preta nas escolas. Todas essas funções que carrega em si ajudam na construção do artista que é. Elas se fundem para que a arte sobre o povo preto possa ser criada, e o Hip Hop vira a ferramenta para realizar essa missão.

Foto: Divulgação

Nesse leque de temas que dialogam com a comunidade preta, Thiago tem a espiritualidade como um dos principais. Basta uma ouvida em algum dos seus sons para perceber que a ligação com as religiões de matriz africana é peça fundamental em sua vida e obra.

Em conversa que teve conosco, da Brasa Mag, ele explica que depois que compreendeu o quão forte e positivo o culto aos orixás era, passou a compartilhar esse conhecimento e sentimento com todos.

Para muitos, Elniño é a grande referência nesse nicho, mas ele reconhece que antes de fazer o que faz, existiam outros que também trabalhavam a espiritualidade em suas letras.

“A forma com a qual eu fiz, que foi algo bem mais que [apenas] citar, fez com que meu trabalho ocupasse esse lugar de referência no trato dessa pauta, sim, muito também por eu ser um dos MCs que aparecem naquele bom período de exposição do Ano Lírico. Mas existia gente fazendo antes, tipo o Opanijé, de Salvador, e contemporâneos fazendo de forma tão bonita quanto, como a Bia Doxum!”, diz.

“Correnteza” (2021), seu álbum mais recente, traz faixas que exploram essa questão não só nas letras como também na sonoridade. O uso de atabaque, agogô, xequerê (instrumentos que são vistos com frequência em terreiros e casas de umbanda e candomblé) remetem a esse espaço que é importantíssimo para quem é do axé. Ele utiliza todos esses elementos sem deixar de trazer a atualidade na produção.

E se você tinha curiosidade em saber como ele compõe essas canções com tanta fluidez e naturalidade, ele compartilhou com a gente um pouco desse processo que se baseia em deixar o beat rolar em loop ao fundo, quase como um transe, para que assim ele possa fazer freestyles estando mais vulnerável. “Acredito muito que dou acesso para as entidades que acredito fazerem parte do processo de criação de uma forma mais direta!”, completa.

Foto: Divulgação

Seu segundo álbum de estúdio, “Pedras, Flechas, Lanças, Espadas e Espelhos” (2019), que teve a capa assinada pelo artista visual Robinho Santana, mergulha nas mesmas questões, mas, claro, com outra roupagem e outras mensagens. Aqui você encontra a relação do rapper com o mar/oceano (Atlântico), críticas pesadas e necessárias (Pretos Novos) e verdadeiras rezas (Nova Oração). Tudo isso com o acompanhamento de parcerias de peso como Luedji Luna, Ricardo Aleixo, Rincon Sapiência e Tássia Reis.

Acho que já deu para perceber que Thiago tem preferência em produzir obras completas, dando menos atenção para músicas soltas e singles, não é? Ele mesmo confirmou para gente esse desejo. “Gosto mais de produzir músicas como parte de um corpo de trabalho maior, quando é assim, a vida traz o tema e o conceito sempre é completado com qual a sonoridade, a cor, e que Orixá rege a energia e linguagem do trabalho.”

Quando perguntado sobre a origem do Samba, naturalmente conectada com a espiritualidade de matriz africana, e se ele via que isso acontecia também com o Hip Hop, o artista afirmou que enxerga que, a origem do Rap, tem, sim, uma relação com a espiritualidade, mas por ser uma música mais processada, isso se dá de uma forma menos direta que o samba.

“Como diria o recentemente falecido maestro Letieres Leite, quase tudo que temos de música popular no Brasil tem origem nas sonoridades dos terreiros de candomblé. O Rap, como música mais processada, tem sua base em outros ritmos, é como Exú, a boca que tudo come. E quase tudo que ele comeu em seus samplers e influências foram músicas que tinham base em músicas vinda de espaços de fé de matrizes africanas. Talvez por isso comunique tanto.”

Thiago é um grande exemplo de artista que – ao mergulhar nas suas questões, entender a sua potência e expressar tudo isso através da musicalidade – acaba sendo um representante e educador para os seus. Também nos lembra de como há potência e força na fé e na espiritualidade, e como é importante que pessoas pretas a acessem e a utilizem como ferramenta de cura e mudança.

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