Outkast e o soul funk no Rap

Outkast é um dos grupos de hip hop mais famosos de todos os tempos. André 3000 e Big Boi venderam mais de 20 milhões de cópias dos seus sete discos, esgotaram ingressos e deixaram seu marco na cena. Você deve lembrar que entre 2003 e 2004 só se falava deles, tudo devido ao recorde que bateram dos Beatles: os caras manteram dois singles no primeiro lugar da Billboard Hot 100. Com “They Way You Move” e o grande hit de um dos refrões mais chicletes da história “Heeeeeey…. Yaaaaaaa. Heeeeyy Yaaa”, com claras referências à Aretha Franklin e a banda britânica.

Para refrescar sua memória o maior hit da dupla é do álbum Speakerboxxx/The Love Below que foi lançado como um álbum duplo, com 40 faixas totalizando mais de duas horas de duração. Enquanto Big Boi (Speakerboxxx) se manteve ao estilo Hip Hop feito no sul dos Estados Unidos, André (The Love Below) mergulhou em influências do Pop, Jazz e da Música Eletrônica.

Outkast com os troféus que levaram para casa no Grammy 2004.

Para falarmos sobre o barulho que OutKast fez, é necessário voltar algumas casas e compreender primeiramente quais gêneros foram explorados em suas canções para visualizarmos os caminhos que foram abertos. O Soul Music, ou apenas Soul, é um gênero que se originou (mais uma vez) na comunidade afro-americana dos Estados Unidos, nos anos de 1950 a 1960. Combinando elementos da música Gospel e Rhytm and Blues – o querido R&B somado aos acordes de Jazz.

É importante saber que o termo “soul” era usado como adjetivo em referência ao afro-americano. Este uso aparece justamente na época dos movimentos antiguerra e antirracista. Sendo assim, a música soul nada mais é que uma referência à música negra. Consolidando esse pensamento na década de 1960, o programa “Soul Train” apresentava os sucessos da música negra dos Estados Unidos, independente do gênero musical.

Com a Soul Music popular em todo o país graças à gravadoras como Atlantic Record,  o gênero começou a se fragmentar. No início da década de 1970, a música soul havia sido influenciada pelo Rock Psicodélico e outros gêneros, levando ao Soul Psicodélico. Os Estados Unidos assistiu ao desenvolvimento do Neo Soul por volta de 1994. Existem também vários outros subgêneros e ramificações da Soul music.

Quando que o Soul encontrou o Funk?

O Funk é um subgênero formado após a consolidação de outros, como Soul, Jazz e Rhythm and Blues. Também originários das comunidades afro-americanas na década de 1960 (é perceptivo como a música salvou nossos ancestrais). O Funk chegou para bagunçar a cabeça de todos, primeiro tirando a ênfase da melodia e harmonia – que eram pilares principais de qualquer ritmo, para trazer o groove forte de baixo elétrico e bateria ao fundo.

O padrinho dessa linda junção foi James Brown, na década de 1960, dando-lhe o nome de “The One” – ou seja, o apoio rítmico no primeiro tempo, a aplicação de semicolcheias ( figura musical) e a síncope (execução de som em um tempo fraco). Sua influência veio do rock de Sly and the Family Stone e Jimi Hendrix, promovendo a improvisação no Funk. Enquanto grande parte da história escrita do gênero se concentra nos homens, notáveis mulheres tiveram destaque, incluindo Chaka Khan, Labelle e Lyn Collins que também foram espelhos para o duo americano.

Apesar da ascensão de Outkast ter ocorrido nos anos 2000, a histórias dos rappers se cruzam em 1992 na Lenox Square Shopping, quando André Lauren Benjamin (André 3000) e Antwan André Patton (Big Boi) tinham seus 16 anos de idade. Os dois moravam em East Point, Atlanta e frequentavam a mesma escola. Foi lá que começaram a participar de batalhas de Rap no refeitório. Não demorou muito para serem notados – principalmente pelos flows diferenciados e seus conhecimentos musicais. Assim, assinaram com a LaFace Records em 1992.

O duo chamou atenção do hip hop por misturar elementos de diversos gêneros como de Dirty South,  Funk Soul, Electronica, Rock, Crunk, Jazz e Blues, tudo para construir o melhor ritmo para contar suas histórias. Suas linhas nunca ficaram para trás, seus discos abordam diversos temas como: política, cultura negra, paternidade, sexualidade e autoconhecimento.

Em um dos primeiros discursos na premiação Source Awards de 1995, na qual levaram para casa o troféu “Grupo Revelação”, eles foram vaiados pela plateia formada por artistas da costa leste e oeste, afinal o som de “gangsta” dominava o Rap na época. André não se intimidou. Levantou a cabeça e disse:

“ É COMO SE TIVÉSSEMOS UMA FITA DEMO QUE NINGUÉM QUER OUVIR. MAS É ISSO: O SUL TEM ALGO A DIZER!”

André 300

E o sul realmente tinha o que dizer. Essas falas foram distribuídas pelas melodias, líricas, construção de videoclipes, performances e estilo visual. O sul estava no jogo. Como em Stankonia, o quarto disco do grupo a sonoridade não era 100% influenciado pelo Rap. Há canções com influências do Rock, do Soul e Funk, tudo isto devido as influências pessoais dos artistas. A escolha dos produtores, por exemplo, fez toda diferença.

O grupo abriu espaço para experimentação dentro do Rap. Óbvio que outros artistas se jogaram em misturas antes, mas foram eles que normalizaram a frequência de inovações no gênero. Após conquistar a massa, foi muito difícil imaginar uma cena apenas com o Hip Hop “robusto” que todos estavam acostumados. E, claro depois desses desdobramentos podemos enxergar outros artistas que estendam o gênero.

De referência em referência você se torna uma, este era o lema. Para eles era necessário compreender os passos dos artistas anteriores para terem uma visão ampla do futuro. Quer saber o que esses artistas escutam? No Spotify tem uma playlist só com os sons que serviram de influência para eles:

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