Pertencimento, diversão e nostalgia: tudo o que rolou no Master Crews 2022

Por: Paula Silva

Master Crews 2022. Duas décadas (desde 2002) reunindo pessoas “de diferentes lugares, idades e histórias”, como diz um trecho de sua apresentação. Eu já tinha ouvido falar sobre essa competição de breaking por amigos que um dia já foram próximos, mas não tinha ideia do tamanho dele – em todos os sentidos.

Tudo aconteceu no último dia 20 de novembro, em Dia da Consciência Negra, abertura da Copa do Mundo no Catar, segundo dia de provas do Enem e a descoberta de um tumor no baço do meu cachorro. Tudo em uma única tarde abafada de domingo.

Não vou mentir que minha cabeça ficou até um pouco lenta com tanto acontecimento para acompanhar (além da preocupação com o lance do meu companheirinho peludo) mas a ansiedade era um sentimento que eu não conseguia ignorar. Master Crews 2022 foi a minha primeira cobertura de verdade para a Brasa, e é claro que estava nervosa, cheia de expectativas.

A começar pelo local. O Centro Cultural Tendal da Lapa é um espaço que se destaca no rol cultural de São Paulo tanto pela sua história – desde 1989 ele existe lá na Guaicurus, ocupando as instalações de um antigo entreposto de carnes da região – quanto pela sua capacidade de abrigar diversas atividades culturais importantes para a comunidade. Assim que cheguei lá, tive a sensação de estar em um espaço verdadeiramente feito para o povo, especialmente para a galera mais jovem.

E gente jovem, bonita e cheia de vivacidade é o que não faltou por lá. Eram muitos, muitos mesmo, de todos os cantos do Brasil. Daí a minha surpresa com a magnitude do evento. Enquanto aguardava pela chegada da Chyara, minha parceira de cobertura responsável pela parte audiovisual, observava atentamente as crews chegando, carregando malas e mochilas cheias de pertences e expectativas.

Não pude deixar de notar a diversidade da galera que chegava por ali. Gente branca, asiática, indígena… Tinha até gringo no meio. Mas a negritude predominava ali. Fiquei feliz demais vendo tantos pretos participando de uma das competições de dança de rua mais importantes da América Latina. Eu entendi como uma mensagem: o breaking ainda é, e sempre será predominantemente preto e do gueto.

Assim que Chy chegou, começaram os nossos trabalhos. Ela, sempre muito ágil e maravilhosa, ia de um lado para o outro no subsolo e na arena principal do Tendal, se perdendo no aglomerado de jovens e lojinhas de camisetas e bonés fotografando e filmando exposições em cartaz, murais coloridos e corpos gingando e ficando de ponta cabeça em coreografias complexas demais para pessoas leigas em danças como eu.

Nesse bate-perna com ela, também vi muita gente tão jovem quanto os competidores. A presença de (várias) crianças brincando no escorregador inflável instalado no local e nas mesinhas do “Espaço Kids” desenhando e interagindo com os monitores dão uma ideia de como o evento é um grande “rolê de família”, um programa gostoso de domingo. Não duvido que grande parte eram filhos, irmãozinhos ou algum outro parente dos b-boys e b-girls que estavam lá dentro competindo.

Mas os pequenos não se limitavam apenas a ficarem do lado de fora, longe dos pais e irmãos mais velhos. A molecadinha, essa um pouco mais maiorzinha, com seus 11, 12 anos, fazia questão de acompanhar as batalhas das crews, os olhinhos brilhando a cada pirueta e mortal para trás. Destaco aqui o interesse imediato das meninas que assistiam toda vez que uma b-girl desafiava um oponente com passos afiados e a confiança de quem não tem medo de um ambiente ainda majoritariamente masculino. Evidente que elas também queriam estar ali.

As batalhas – individuais, em dupla ou em grupo – eram a principal atração do evento. Muita gritaria e animação a cada tirada de onda, freestyle e acrobacia. No domingo, teve até presença internacional no júri: os b-boys Bojin (com quem encontrei nos bastidores e trocamos um “hi, nice to meet you”) e Max Oliveira, dois respeitados nomes do breaking no mundo. Enquanto assistia a galera dançando, lembrei dos tempos que eu frequentava pequenos campeonatos de breaking e o subsolo do Centro Cultural São Paulo na época do Ensino Médio. Uma nostalgia boa tomou conta de mim. Fazia tempo que não via breaking tão de pertinho.

Fiquei encantada com as crews selecionadas. Todas elas caíram e se levantaram demais na vida para chegarem naquele tablado tão importante. A minha preferida do dia com certeza foi a Looney Tunes Crew, um grupo vindo diretamente das quebradas de João Pessoa, na Paraíba. Tão no corre desde 2008. Até troquei ideia com eles. São adoráveis, dançam pra caralho e ostentam um nome muito divertido. Merecem todo o respeito.

No final, eu e Chy deixamos o Tendal da Lapa extremamente felizes com a oportunidade que tivemos de prestigiar um evento cultural tão bonito e tão divertido. Foi terapêutico pra mim depois de uma manhã difícil.

Apesar de não ter conseguido ficar até o final, não posso deixar de parabenizar aqui os grandes vencedores dessa edição do Master Crews: Team Manos (categoria Crew) e Killa Rockers (categoria Duplas).

O Master Crews celebrou com força total o hip hop e a cultura de rua nesse momento de reencontro, depois de dois anos pandêmicos extremamente dolorosos sem competições. Acho que esse é o poder do hip hop: de curar feridas, de salvar vidas. Pude ver em cada sorriso, em cada risada e em cada abraço da galera ali presente a vontade de vencer na vida e celebrá-la.

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