Por que “Channel Orange” é um clássico indiscutível?

Por Brenda Vidal e Ari Leite

Corajoso, sensível e arrojado, álbum de estreia de Frank Ocean completa 10 anos e segue revelando novos tons a cada escuta

Em meados de janeiro deste ano, a faixa “Lost”, que integra o álbum Channel Orange (2012) de Frank Ocean, se tornou a 22ª música mais popular dos Estados Unidos no Spotify. A canção foi catapultada por seu uso em uma trend do Tik Tok, responsável também por apresentá-la a uma geração que, muito provavelmente, fosse muito criança na época do lançamento do disco. Ele, por sua vez, também foi beneficiado pelo empurrão de “Lost”: no mesmo mês, o perfil oficial da Billboard Charts no twitter anunciou que Channel Orange havia pulado da 146ª posição para a 65ª entre as 200 mais da casa. Esse é o lugar mais alto ocupado por ele em seis anos.

Lançado em 10 de julho de 2012, a obra é o primeiro disco de estúdio de Frank Ocean – que tinha 24 anos na época – , apesar de ser seu segundo lançamento solo, já que em 2011 tinha rolado a mixtape Nostalgia, Ultra. Channel Orange foi aguardado com bastante expectativa, tanto pelos fãs quanto pela crítica – que o acompanhavam desde os trabalhos do coletivo Odd Future, do qual fazia parte com Tyler, the Creator, Earl Sweatshirt e companhia – além da Def Jam, gravadora que tinha dado uma esnobada em Ocean, mas voltou atrás e esperava por uma obra que fizesse sucesso.

E fez. Channel Orange foi e segue sendo escuta obrigatória pra fãs do hip hop e da música em geral, interessados em entender o R&B e o neo soul contemporâneo. A crítica amou pra caramba, com inúmeras resenhas escritas na época já anunciando que o lançamento tinha status de clássico. No Grammy Awards de 2013, foi indicado nas categorias de Álbum do Ano e Melhor Álbum Urbano Contemporâneo, saindo-se vencedor neste. Há, claro, um contexto que tornou a vinda do registro ainda mais emblemática – o movimento de Ocean em se assumir como um homem bissexual, através de uma carta publicada em seu Tumblr. Ele até diz que, inicialmente, pensou em publicar a carta no encarte do álbum. Parte da imprensa levantou polêmicas acerca das intenções do anúncio perto da divulgação do disco, dizendo que era uma tática de divulgação dele. Violento, não? Ficamos aqui nos perguntando se parte dessa imprensa que o criticou era da comunidade LGBTQIA+, rs.

2012 soa cada vez mais distante, e, pra além dos charts de música, cá estamos testemunhando Channel Orange completar dez anos de existência. E nos perguntamos: Como esse álbum nos toca depois de tanto tempo? Por que ele é tão relevante e atemporal? Colocamos nossos fones, soltamos o play na obra e reunimos nossas impressões aqui. Convidamos você  a ler o que segue com o álbum tocando aí também.

Para revelar o álbum, Frank decidiu revelar, primeiro, a si mesmo. Ainda que não devesse explicações às pessoas. Revelar-se enquanto um homem preto bissexual no meio do hip hop e do rap, – conhecido até hoje por ser um dos mais machistas e LGBTfóbicos que existem – tornaria-se  uma demonstração genuína de força e resistência que ajudaria outros meninos pretos como ele a se sentirem bem como são, mesmo que dissessem o contrário e com os inúmeros grandes passos a serem dados para melhorar o cenário. Após 10 anos do lançamento do álbum e os 17 de carreira, Frank ainda é uma referência, influenciando positivamente a comunidade LGBTQIA + e contribuindo para que artistas como Lil Nas X e Tyler, the Creator pudessem fazer o mesmo. Suas músicas, portanto, ao trazer essa perspectiva, acabam virando canções emblemáticas para a comunidade, para os amantes e os que não tem medo de se mostrarem vulneráveis.

Alguns bons exemplos são a sensibilidade poética em “Crack Rock”, em trechos como “Hittin’ stones in glass homes [Jogando pedras em casas de vidro] / You’re smokin’ stones in abandoned homes [Você está fumando pedras em casas abandonadas] / You hit them stones and broke your home [Você joga pedras nelas e destrói seu lar]”, que expressam o refino no uso da repetição das palavras “home” e “rock”, manobradas em sentidos diferentes a cada frase. Em “Sweet Life”, a alienação da classe alta em versos cirúrgicos como “You’ve had a landscaper and a housekeeper since you were born [Você tem um paisagista e uma governanta desde que você nasceu] / The starshine always kept you warm [A luz do sol sempre te manteve aquecido] / So why see the world, when you got the beach? [Então, por que ver o mundo, quando você tem a praia?]”. E, claro, a sinceridade cortante de “Thinkin’ ‘Bout You”: “My eyes don’t shed tears, but boy, bawl” [Meus olhos não derramam lágrimas, mas cara, eles soluçam]” / “When I’m thinkin’ ‘bout you [Quando eu estou pensando em você]” / “I’ve been thinkin’ ‘bout you [Eu tenho pensado em você]” e “Do you think about me still? [Você pensa em mim ainda?]”.

Diferente do que poderá se ouvir em Blonde, anos mais tarde, o vocal sempre elástico do artista está, aqui, mais limpo, orgânico e sentimental. Uma atmosfera construída por referências vocais como D’Angelo e Marvin Gaye, neo soul, R&B, funky, pinceladas de rock e eletrônico; elementos que são sublinhados por uma produção impecável. O disco é complexo, denso e sinuoso. Laranja pode ser a cor, mas suas 17 faixas compõem uma rica paleta com tons em suas mais variadas nuances. O que Frank apresenta é novo no R&B: buscando a experimentação, sua aura alternativa foge dos clichês românticos mesmo que fale sobre amor. Channel Orange é um álbum feito por alguém que humaniza a si e aos outros. A obra que nos convida a nos despirmos de nossas armaduras e se conectar com vulnerável, mandando os estereótipos pra longe. E não é à toa que algumas faixas tenham uma brisa sexy, afinal, não estaria a transa entre uma das experiências mais vulneráveis em que nos colocamos?

Também não há anseio em atingir o mainstream, apesar de algumas de suas músicas terem ocupado esse espaço. Seu trabalho nesse projeto funciona como um experimento, um R&B alternativo que conversa com ele, com o que vive e viveu e com o que observa. Por isso, não parte apenas de seus sentimentos e suas vulnerabilidades, mas também apresenta ao ouvinte cada detalhe que testemunhou, transportando quem escuta a cada cena por meio de suas letras. Quem ao ouvir “Start my day up on the roof [Começo o meu dia na cobertura]. There’s nothing like this type of view” [Não há nada como esta vista] em “Super Rich Kids” não visualiza o cenário perfeito na mente, a ponto de quase sentir o sol da Califórnia batendo no rosto?

Apesar de não ser considerado popular, ou ainda ter sido amplamente premiado – como deveria ser – o seu valor não é perdido. A mensagem que se quis passar é muito maior que números altos nos charts; a vulnerabilidade aqui dita o tom e o talento de Frank Ocean em contar histórias que prendem a atenção de qualquer apaixonado pela música, dentro e fora do hip hop.

Ocean também sabe escolher como e quando precisa se arriscar vocalmente, posicionando sua voz para regiões mais baixas, graves, quando necessário.  Além de “Super Rich Kids”, a brilhante “Pink Matter”, feat com André 300, se destaca: Ocean elevando sua voz a um patamar absurdo, emocionando e deixando qualquer um boquiaberto com a sua interpretação. E não tem como não falar de “Pyramids”, né? Em seus quase 10 minutos de duração, a canção demonstra passeia por um momento muito anterior à sua existência, indo beber de elementos do antigo Egito, referenciando Cleópatra, para salientar como a forma como as mulheres negras são tratadas mudou com o passar do tempo. A partir da transformação da melodia, ele consegue passar a visão das duas histórias e suas conexões.

A construção minuciosa se estende às colaborações destacadas no álbum, que não só complementam cada canção como também demonstram que o experimentalismo não impede que a obra deixe de ser completa e coesa do início ao fim. Quando utiliza samples,  prioriza aqueles não convencionais, como o escolhido para iniciar o álbum. A faixa “Start” usa o instrumental de inicialização do Playstation 1, incentivando o ouvinte a mergulhar na virtualidade do disco. Mais pra frente, na track “End”, finaliza com um sample de uma música de sua própria autoria.

Se Channel Orange fosse uma peça de teatro, Ocean não seria o protagonista, mas, sim, o diretor. O artista brinca de esconde-esconde por uma série de crônicas em forma de canção que falam a partir de si, mas muitas vezes sobre os outros. Reflexões sobre a futilidade da classe média, metáforas que aproximam Cleópatra a uma garota de programa, elaborações sobre amores não correspondidos, destruições causadas por um vício em crack. Os assuntos mais densos até parecem distantes, mas, nos atravessam, já que o objetivo atingido pela lírica de Ocean aqui não é o reconhecimento pela literalidade das histórias contadas, mas, sim, pela conexão através das sensações e sentimentos que elas despertam. Rejeição, saudade, dor, anestesia, futilidade, marginalidade, amor, tudo isso está costurado de forma progressiva, mas não linear, a partir do passeio por entre  graves e agudos, reverbs e grooves, faixa com mais de 10 minutos e interlúdios de segundos. O resultado soa universal, acessível – nos toca.

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