Qual a relação do pagode anos 90 com o R&B?

Por Aimmeé Araújo e Gabrielle Neves

Para entender toda essa viagem (que juramos que você vai entender), primeiro precisamos fazer um breve resumo sobre o samba – o “pai” do pagode.

Popularizado na década de 30, o samba é uma manifestação cultural que nasce no Brasil, através de populações negras escravizadas que buscavam maneiras para não esquecerem de onde vieram.

Quando focamos na sonoridade do gênero, é possível encontrar batuques da capoeira, de canções populares nacionais da época, das tradições religiosas e, por fim, rodas de dança africanas. E todos os sons do samba vêm de instrumentos que se tornaram marcas registradas. Alguns deles: pandeiro, surdo, tamborim, cavaquinho, violão, cuíca e por aí vai.

Aqui rolou uma visão geral sobre o samba, mas no episódio #05 do EmBrasa, aprofundamos mais sobre o tema:

E bem, agora que sabemos de tudo isso, o que é o pagode exatamente, e como ele se difere do samba?

Aqui vamos partir das nossas vivências – e da frase do Xande de Pilares – e colocar o pagode como a festa do samba; quase como um filho caçula que adora um rolê, pode ser?

Isso porque, a partir dos anos 70, os sambistas começaram a se reunir em fundo de quintais de residências (e sim, o nome do grupo Fundo de Quintal surgiu daí), como uma alternativa às tradicionais rodas de sambas que rolavam em clubes da época. Assim, surgiram os pagodes de mesa no Rio de Janeiro, que daí em diante se tornaram uma febre, principalmente nas duas décadas seguintes, os anos 80 e 90.

Mesmo que o samba trate sobre diferentes perspectivas do amor, o deslanche do pagode marcou uma incorporação ativa do amor romântico nas composições. E o pagode romântico, também chamado de pagode paulista, incrementou o som com instrumentos do pop internacional que faziam sucesso na época, como o teclado eletrônico e saxofone, além de samplear outros clássicos de outros gêneros. Grandes grupos como Só Pra Contrariar, Exaltasamba e Raça Negra surgiram desse estilo.

Percebe tudo isso? A formação de grupos, as danças coreografadas, a moda, o sex appeal, a dualidade, o uso de melismas e falsetes. É o puro suco do R&B brasileiro.

Belo e os integrantes do Soweto, grupo que foi um dos símbolos do pagode dos anos 1990 Joel Silva/Folha Imagem

Originado na década de 40 nos Estados Unidos, o Rhythm and Bluesou R&B para os próximos – nasce como um gênero musical influenciado pelo blues, funk, soul e rap. Atualmente, podemos entender o R&B como uma nomenclatura comercial para diferentes tipos de gêneros musicais, pois abrange diferentes estilos.

Voltando o papo pro solo nacional, nos anos 90, a chamada ‘festa do samba’ começou a ocupar programas de TV aos domingos com uma roupagem bem jovial e uso de tendências estadunidenses que o diferencia e dá uma nova vertente ao clássico samba, que por muito tempo foi taxado como subcultura, sem o reconhecimento merecido.

O uso dessas tendências marcou fortemente o pagode dessa época. Porque foi adicionado ao caldeirão da cultura novidades como a formação de grupos no estilo de boybands – algo que não era comum no samba. Aqui podemos citar Adryana & A Rapaziada, Os Travessos, Pixote, Sampa Crew e Karametade.

As semelhanças com o R&B não param por aí: a estruturação do storytelling da música e a própria construção sonora remete aos clássicos da década de 90, como Janet Jackson, Aaliyah, D’Angelo e muitos outros.

A maioria dos pagodes seguiam um formato, onde começavam de maneira bem melódica, suave e envolvente, em uma pegada mais balada, com guitarras, baterias, teclados e baixos bem destacados. Quando o refrão ia se aproximando, os instrumentos clássicos do samba que citamos lá no começo do texto entravam em ação, como se fossem duas versões da mesma música.

Quando focamos no visual, a disposição dos integrantes pelo palco, o jogo de câmera que acontecia nos programas de auditório, a estética usada nas roupas e até mesmo os próprios clipes eram influenciados pelos clássicos do R&B.

A presença de bandas, a ida dos grupos na televisão aberta da época e a plateia cantando em com tudo de si que marcou a infância de muitas pessoas. Não importava da casa de qual parente os seus pais te levassem para almoçar, o pagode ia estar rolando, seja na tv, no quintal ou na rua.

E aí, você ainda precisa de mais motivos para entender o pagode anos 90 como o R&B brasileiro?

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