Resenha: O círculo familiar preto em ‘Criando Dion’

Por Gabrielle Neves e Paula Silva

Atenção: alguns trechos podem conter spoilers da série!

-Paula na voz:

“Criando Dion” é uma série da Netflix baseada na história em quadrinhos e no curta-metragem de mesmo nome, criada pelo escritor Dennis Liu em 2015. Lançada em 2019, ela nos apresenta à Nicole Reese (Alisha Wainwright), uma mãe que tem como missão criar sozinha o pequeno Dion Warren (Ja’Siah Young) após a morte misteriosa de seu marido, Mark Warren (Michael B. Jordan, que também produz a série). Numa bela manhã, o menino desperta superpoderes e, de repente, Nicole se vê envolvida em outra grande (e complicada) missão: esconder esse segredo de todo mundo enquanto o ajuda a usar suas novas habilidades. Para isso, ela conta com a ajuda de Pat (Jason Ritter), o padrinho de Dion e melhor amigo de seu falecido esposo. A série, dirigida por Carol Barbee tem só duas temporadas — em abril deste ano, a Netflix anunciou o seu cancelamento sem dar mais explicações.

Nicole se vê no desafio de manter os superpoderes do filho Dion em segredo (Reprodução/Netflix)

Com o desenrolar da história na primeira temporada, somos apresentados a outros personagens importantes para o desenvolvimento de Dion, como a fofíssima melhor amiga do garoto, Esperanza Jimenez (Sammi Haney) e a misteriosa Charlotte Tuck (Deirdre Lovejoy), uma mulher que adquiriu superpoderes em um incidente ocorrido numa área montanhosa na Islândia, lugar onde Mark e Pat faziam pesquisas sobre fenômenos meteorológicos. E como Charlotte, Mark também desenvolve superpoderes, assim sugerindo que Dion tenha herdado do pai as suas habilidades. A identidade do vilão da história, uma criatura que o garoto chama de “Homem Torto”, é o principal e surpreendente! Plot twist da obra.

Num primeiro momento, “Criando Dion” parece ser só mais uma série de super herói entre tantas outras disponíveis por aí. A receita fácil do sucesso (apesar do cancelamento repentino) leva crianças superpoderosas, uma dose generosa de drama familiar e alívios cômicos. Só que essa série vai além , e o protagonismo negro explica o porquê.

A identidade do vilão de Dion, o “Homem Torto”, é um dos grandes plots da série (Reprodução/Netflix)

Os membros da família preta que protagoniza a série precisam enfrentar batalhas sociais e pessoais. Enquanto Dion tenta fazer amigos e se adaptar a uma escola nova cheia de crianças brancas, a mãe, Nicole, se desdobra para criar o filho sozinha, manter a casa, procurar emprego e lidar com o luto. Nicole é o retrato da mãe negra solo sobrecarregada porém obstinada, que precisa cuidar de tanta coisa ao mesmo tempo, mas que não se deixa abalar por uma questão de sobrevivência —  ela precisa estar ali para o seu filho e precisa preencher a lacuna que o pai deixou de forma trágica. No meio desse caos, Nicole encontra refúgio numa paixão de anos: a dança. Antes de ser mãe, ela atuava como dançarina profissional numa escola em Atlanta, onde a história é ambientada. Oito anos depois, ela volta para a escola, dessa vez como recepcionista, graças ao amigo e companheiro de palco que lhe deu uma oportunidade de emprego.

-Neves na voz:

Criar é um verbo transitivo direto com dois significados principais: fazer existir e formar algo. E é essa narrativa que fica subentendida nas entranhas dos demais acontecimentos da série. Percebemos diferentes tipos de criações acontecendo simultaneamente: temos uma mãe criando seu filho, uma criança criando seu entendimento de si mesmo, uma viúva se adaptando à nova realidade criada após a perda de seu marido, a criação de amizades e assimilando o mundo. Os pontos de intersecções afetivas são a grande chave que conecta super-heróis e pessoas negras ao enredo da série.

Em diversos universos, heróis e heroínas habitam consertando, recriando e criando novos ambientes, realidades e, acima de tudo, possibilidades. Quando analisamos os mais diversos contextos que englobam vivências pretas de países diferentes, como por exemplo norte-americanos e latino-americanos, os processos de ressignificação se fazem presente. Seja na música, nas artes, no campo profissional, na vida, na morte ou na sobrevivência, o ato de criar se faz tão presente que se torna quase um ser visível com um significado diferente para cada realidade.

Os superpoderes aparecem como metáfora para a negritude (Reprodução/Netflix)

O protagonismo negro na série apresenta vivências reais e uma possível metáfora para superpoderes, e isso tudo é feito com cuidado para que os personagens não estejam apoiados em estereótipos que colocam pessoas pretas em caixinhas comportamentais. Isso dá espaço para que a pluralidade, da qual tanto falamos, seja visível para todas as gerações. “Criando Dion” mostra tudo isso de uma maneira singular, através das perspectivas que muitas vezes ignoramos por hábito, como o olhar infantil sobre si mesmo e o mundo. De uma maneira sutil, através de uma fotografia com cores vibrantes e contrastantes, assistimos às dualidades que costumamos ver nos mais simples quadrinhos, como o bem e o mal, podem habitar o mesmo ambiente e até o mesmo coração.

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