Uma década de Nó na Orelha: viva!

O disco de Criolo lançado em 2011 completa uma década e suas letras continuam atuais.

Por Gabriella Barros

Um universo diferenciado, totalmente específico mas ao mesmo tempo perto da realidade: foi o que Criolo, Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral nos entregaram em 2011, ano em que o rap paulista estava revelando diversos artistas. Hoje, dia 25 de abril de 2021, “Nó na Orelha”, o segundo álbum de Criolo, completa 10 anos. O disco que contou com a produção de Ganjaman e Marcelo Cabral foi lançado em mídia física (vinil e CD) e distribuído gratuitamente na versão digital.

Capa por Ricardo Fernandes.

O álbum se destacou não apenas pela musicalidade, mas pela transformação do Criolo Doido em Criolo. Ele marca a explosão do MC na indústria fonográfica, um marco na sua carreira, que já existia há uns bons anos. “Nó Na Orelha” conservou a essência crítica e musical do artista que se desenvolveu a partir das batidas e métricas de “Ainda Há Tempo”, seu primeiro disco. Comparando os dois trabalhos, dá para sacar a versatilidade na união de sons, batidas, ritmos, tons e flows. O homem transcendeu e você sabe disso.

O MC traz uma interpretação singular nas rimas e a exposição marcante da sua voz, alinhada à beleza dos instrumentos musicais. Criolo, Ganjaman e Marcelo conseguiram comungar a essência das batidas do boombap, afrobeat, jazz, samba, bolero e reggae com letras fortes e atemporais até o talo. “Lion Man” por exemplo, se ouvida por quem não a conhece, pode ser confundida com uma letra lançada recentemente.

“Vamos às atividades do dia Lavar os corpos, contar os corpos e sorrir A essa borda rebeldia, só os louco […] É o ser humano, o egoísmo e um adaga Pátria amada, o que oferece aos teus filhos sofridos? Dignidade ou jazigos?”

Essa comunhão resultou numa celebração de abre alas para um artista que, abraçado pelo hip hop, explorou a sua liberdade musical para criar o que quisesse junto de seus maestros. E brilharam na entrega deste presente.

Eu tinha 14 anos quando o álbum foi lançado, imaginem receber esse disco na minha adolescência. Imaginem o impacto na construção das minhas referências musicais. É bonito de ouvir.

Sinto que minha identificação partiu do ponto de que sabia onde aquelas letras me tocavam junto das batidas. Eu, cria da Baixada Fluminense, Rio de Janeiro, recebi esse álbum sentindo ele, mas sem entender exatamente as gírias mencionadas e o que era a São Paulo de “Não existe amor em SP”. Isso mudou só quando virei gente grande e visitei a cidade, observei aquele tanto de rostos em fluxo no metrô e nos bares. Tudo fez sentido quando senti toda aquela energia da melancolia e a realidade das ruas.

“Não existe amor em SP
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra
Afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu”

O escudo do Corinthians em cima do palco em Londres define bem onde este álbum nasceu, onde ele foi parar geograficamente, no que se transformou e como foi recebido. Além da turnê internacional que foi documentada em uma série de videocasts diários, “Nó na Orelha” se materializou em um show no Circo Voador com distribuição digital gratuita para o público. Foi reconhecido em diversas premiações no ano de 2011, não apenas por ser de fato um disco que uniu diversos ritmos, mas também por ser um trampo que mostrou ao mundo o grande e completo artista que Criolo é e abriu as portas para parcerias com grandes nomes da música brasileira.

“Não tenho essa pretensão de ‘Do Grajaú para o mundo’: Um cidadão do Grajaú recebendo oportunidades”. Criolo, 2012

Pra listar aqui, “Nó na Orelha” venceu a 7ª edição do Prêmio Bravo! Bradesco Prime de Cultura na categoria ‘Melhor Show’, e na revista Rolling Stone do Brasil se destacou como melhor álbum do ano junto da faixa “Não Existe Amor em SP”, que foi considerada a melhor música do ano. Venceu o VMB 2011 como ‘Disco do Ano’ e nas categorias ‘Artista Revelação’ e ‘Melhor Música’ com “Não Existe Amor em SP”. Criolo também foi premiado na categoria ‘Revelação’ pelo júri da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e foi vencedor no Prêmio Faz a Diferença na categoria ‘Música’. Impacto.

Com reconhecimento na indústria e no coração dos ouvintes, uma certeza que tenho é que Criolo e companhia com “Nó na Orelha” assinaram sua obra na história do hip hop, criou um dos discos mais celebrados e marcantes desse anos, com um intérprete que segue até hoje nos entregando o melhor da arte e da música, com muito sentimento e verdade.

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1 comentário em “Uma década de Nó na Orelha: viva!”

  1. Talita Prado

    Maravilhosa entrevista, Criolo faz um resumo do nosso cotidiano em suas letras. Nos alerta para o presente e abre nossa mente para um futuro, que parece distante, mas já está aqui. Parabéns pela entrevista Gabriella Barros.

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