Zudizilla: Zulu e a busca pelo equilíbrio entre César e Cristo

Por: Aimmeé Araújo

Júlio César. Imperador, ditador, conquistador. César, a quem Zudizilla se refere em sua obra, foi um dos principais nomes da história romana por liderar guerras e conquistar um dos territórios mais difíceis da época, a Gália (atual França), aumentando, assim, o poder do Império Romano. César foi reconhecido por sua coragem e ambição sem limites e foi morto por ter desprezado a opinião dos seus adversários. É suposto que seus assassinos não tivessem apenas motivos políticos, como também teriam agido por inveja e orgulho ferido. Matar um tirano, na época, não era considerado crime.

Já Cristo, como imagino que você saiba, segue o caminho completo oposto a César. Mas a sua bondade sem limites e confiança em seus seguidores também trouxe como resultado a sua morte. Então, diante desse cenário, Zudizilla vive em uma corda bamba à procura do equilíbrio, e traduz isso em arte no disco Zulu: de César a Cristo (Vol. 2). A Brasa Mag conversou com o rapper sobre os avanços, percepções e questões vividas por ele nesta nova etapa da caminhada de Zulu, que, no momento, se encontra no meio do percurso para o final. Solte o play, deixe o álbum tocar e desça para conferir esse papo na íntegra.

Brasa Mag: Quem é o Zulu?

Zudizilla: O Zulu sou eu. É um apelido que veio quando eu fazia uma oficina de graffiti, eu topei com um moleque que falou que eu era escuro demais e me chamou de ‘moreno’; nisso eu disse ‘pô, moreno não’, então ele disse ‘vou te chamar de Zulu’. Foi um apelido que chegou para mim de forma pejorativa, mas abracei essa nomenclatura, levei pro graffiti e, desse dia em diante, comecei a assinar como Zulu. Prometi a mim mesmo que desse dia em diante, toda vez que alguém fosse me chamar de Zulu, nunca mais seria de forma pejorativa, e sim com um cunho de alta qualidade nas coisas que produzo. Quando eu trago o Zulu para dentro dessa realidade da trilogia, eu tô tentando traçar um universo lúdico onde existe um personagem que, curiosamente, a história e a experiência dele cruza com a minha, mas que ele tá mais pra vida de qualquer pessoa preta periférica do que propriamente uma identidade minha. Criei esse personagem folclórico e lúdico para trazer essas experiências à tona, mas não falando só de mim, e sim de um todo.

Capa oficial do álbum Zulu: de César a Cristo (Vol.2). Créditos: Divulgação.

Brasa Mag: Qual a mensagem passada através da capa do disco?

Zudizilla: É um moleque pobre e rei. Acho que aí eu já consigo trazer a dualidade de um moleque que, dentro da periferia, poderia se ater à questão tipo ‘é isso, eu sou pobre, já era e vou viver nisso’, mas ele está com o queixo erguido e com um olhar de nobreza, entende?! Esse é o meio termo que eu estou falando no disco: mantenha a tua humildade, mas o seu sonho de ser rei não vai ser tirado de ti de forma alguma.

Brasa Mag: Quais são as questões que Zulu vive e já viveu dentro da trilogia?

Zudizilla: Essas questões são o norte e a linha da subjetividade da psicologia. Num primeiro momento, a gente tem uma grande dúvida, que é muito mais sobre se é possível ou se não é possível. No segundo momento, percebemos que existe a possibilidade e ela é insuficiente para sanar todas as problemáticas; e no terceiro volume… não posso falar, senão dou spoiler… mas a ideia é mais ou menos como uma linha cronológica da existência preta periférica.

Brasa Mag: Qual a dicotomia entre César e Cristo que você quer passar com o disco?

Zudizilla: Eu já citava essa relação no primeiro disco [da trilogia], Zulu, Vol.1: De Onde Eu Possa Alcançar o Céu Sem Deixar o Chão (2019). É uma relação de mostrar os dois lugares, no primeiro, uma questão de territorialidade com o céu, “Onde Eu Possa Alcançar o Céu Sem Deixar o Chão”. Já neste disco, é muito mais uma questão de postura perante o poder; existem duas formas de se relacionar com o poder: uma seria pela guerra e enfrentamento do César e a outra é pelo amor e pela solidariedade de Cristo. É preciso ter um meio-termo para que seja só o Zulu. Não se estenda nem para um lado, nem para o outro. Porque Cristo foi crucificado, ou melhor, sacrificado por um ideal e César levou o ideal para a ponta de uma espada de forma cruel. Então, acredito que nenhuma das duas extremidades seja correta, precisamos encontrar um equilíbrio entre os dois. O nome do disco também veio a partir da reflexão sobre um verso de “Triunfo”, de Emicida: “Ai, todo o maloqueiro tem em si/ Motivação pra ser Adolf Hitler ou Gandhi“.

Brasa Mag: É perceptível a mudança de perspectiva de Zulu neste segundo momento. O que ele procura nesta nova etapa?

Zudizilla: Eu acho que o volume 1 traz muitas questões individuais à tona, já o volume 2 traz muitas certezas individuais à tona. Se no volume 1 existia um pensamento de ‘’Será que é possível chegar ao céu sem deixar o chão?”, no volume 2 a questão é: “Não interessa se vai estar no céu ou vai estar no chão, vai ter que correr da mesma forma”. Essa é a mudança de ótica. É uma chave que vira dentro desse processo de amadurecimento do próprio personagem. Se em um momento ele têm muitas dúvidas, num outro momento ele percebe que não tem tempo para ter dúvidas, que ele vai ter que correr como César ou como Cristo. É aí que eu trago os áudios da minha mãe, trago toda a minha vivência, para corroborar e entender, sinceramente, por que correr por alguma coisa.

Brasa Mag: No disco anterior da trilogia, você tinha dúvidas sobre a sua jornada em São Paulo. Após três anos, como você se vê habitando a cidade agora?

Zudizilla: São Paulo me possibilitou sonhar grande e pensar coisas maiores, e você só percebe que precisa sonhar mais alto ou que pode ser maior quando sair do teu lugar. Quando eu estava em Pelotas, eu jamais imaginava que as coisas que eu estou prospectando atualmente para o futuro seria possível, mas isso também não me fazia uma pessoa infeliz. Me fazia uma pessoa com limitações, mas dentro da minha cidade nunca pude reclamar porque toda a minha vida artística iniciou lá, eu pude sustentar a minha família e pagar as minhas contas com a música. São Paulo me dá essa sensação de amplitude, de que o céu é o limite. Porque se antes me parecia muito sair de Pelotas, agora não me parece difícil eu sair do Brasil.

Brasa Mag: E junto do disco, você também o filme Vozes do Silêncio, que fala sobre a pretitude no sul…

Zudizilla: Quando eu pensei a trilogia lá atrás, eu imaginei que o volume 1, 2 e 3 iriam sair como poéticas musicais, mas que eu também, se possível, abraçaria outras mídias. Eu quero chegar em outros povos, outra galera. Estou tentando trazer agora uma ideia e um conceito muito potente que é da visibilidade da pessoa pobre, preta e periférica, mas especialmente, falando do Rio Grande do Sul que é um lugar onde as pessoas pretas estão a mercê da ideia estúpida de que o Rio Grande do Sul queria se separar do Brasil, e quis mesmo, mas quem quis se separar foi foram os brancos. Então, quando o Brasil inteiro vira as costas para o Rio Grande do Sul, vira as costas para a pretitude de lá, que acaba morrendo, sofrendo e sendo esquecida. Ela só encontra em si mesmo e na religiosidade ancestral as forças pra conseguir se manter porque, do contrário, já não era mais pra ter pessoas pretas no Rio Grande do Sul. Dá para ver o tamanho esforço que o estado tem para nos tornar invisíveis na história, são coisas que a gente vê no próprio hino do Rio Grande do Sul que diz “Povo que não tem virtude/ Acaba por ser escravo”, ou seja, que o povo, pra ser livre, tem que ser forte e bravo, e que povo sem virtude acaba por ser escravo. Na verdade quem não tem virtude é quem escraviza. Quando eu falo em Zulu, eu tento falar para todas as pessoas pretas do Brasil, mas eu estou falando de um lugar específico que é esse que acaba não tendo protagonismo da própria história.

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